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 Edição 99 :: Setembro/2006 :: -

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DOSSIÊ PLUTÃO

Pluto, o cão

Fernando Fernandes

A sincronicidade também funciona no mundo dos desenhos animados: enquanto Pluto, o planeta, era anunciado ao mundo, Pluto, o cão de Mickey Mouse, preparava sua estréia em Hollywood. O comportamento de Pluto reflete o comportamento coletivo de uma geração afinada com Plutão.

Antes do lançamento de Pateta, os estúdios Disney experimentam outros parceiros para Mickey. Um deles é Horácio (Horace Horsecollar), um alegre cavalo que até hoje aparece como coadjuvante nas histórias em quadrinhos, normalmente como par da vaca Clarabela (que também é desta época, mais velha que Pateta). Mas o único que chegou a fazer sucesso e ganhar o papel de protagonista nos quadrinhos foi um cachorro feio, desengonçado e sem nome cuja primeira aparição deu-se no desenho The Chain Gang, completado em 18 de agosto de 1930 (o Sol está em Leão e Saturno aparece como planeta isolado e em domicílio, enquanto Urano está envolvido numa quadrutura T). O cão de Mickey só seria batizado no desenho The Mouse Hunt, completado em 30 de abril de 1931. Não apenas receberia o nome de Pluto, como também falaria pela primeira e única vez em sua carreira.

Pluto, lançamento (carta solar) - 18.8.1930, 12h - Los Angeles, Califórnia.

Pluto é engraçado por ser um cachorro covarde, medroso, encrenqueiro, desconfiado, um tanto maníaco, nada brilhante, enfim. Tem uma atitude defensiva diante do mundo. Para ele, tudo precisa ser cuidadosamente farejado, rodeado e visto com suspeição antes de ser finalmente admitido. Esta postura "armada" lembra Plutão, planeta cuja descoberta praticamente coincide com a criação do personagem. Tanto Pluto, o cão, quanto Pluto, o planeta, entram em cena num momento delicado para os Estados Unidos, quando a Grande Depressão espalha o desemprego e o desânimo entre a classe média e o submundo das famílias mafiosas controla enormes fortunas. Na Europa, é o momento em que hordas de desempregados começam a dar ouvidos a propostas de governos fortes e autoritários, num processo de sedução da opinião pública cujo resultado todos conhecem. Pouco tempo depois, um austríaco de voz estridente e bigode ridículo alcançaria o poder na Alemanha e desencadearia a mais terrível guerra do século XX.

Pluto parece estar em ressonância com o ressabiado comportamento da classe média americana daquele período. Protege seu limitado território de cão doméstico, olha com desconfiança para tudo que pareça estranho e bajula o dono da mesma forma como trabalhadores com emprego em risco eram obrigados a bajular o patrão. Animais domésticos são assunto de casa 6, assim como trabalhadores assalariados. É uma casa que indica condição subalterna, onde é preciso "mostrar serviço" para garantir o pão de cada dia. Pluto tenta demonstrar competência em seus afazeres caninos, mas nem sempre é bem sucedido. Sua incompetência é sempre relevada pelo condescendente Mickey - não sem algumas reprimendas que deixam Pluto com o rabo entre as pernas - e, neste sentido, o cão acaba tendo mais sorte do que seus congêneres humanos, sempre enfrentando o fantasma da demissão.

O ansioso e obsessivo Pluto, que faz traquinagens às escondidas de Mickey e posa de cachorrinho obediente quando o dono está por perto, é bem o retrato de conteúdos do camuflado Plutão e da rotineira casa 6. Acrescente-se que é um personagem sui generis, pois trata-se de um cachorro que se comporta como animal num universo de cães, ratos e patos humanizados. Pateta, por exemplo, também é cão, e da mesma raça que Pluto (observem as orelhas). Esta condição infra-humana remete a outras características de Plutão: a irracionalidade e o teor arcaico daquilo que Jung chamou de "cauda de dinossauro que a humanidade arrasta atrás de si", a simbolizar os conteúdos primitivos que ainda carregamos.

Que Pluto deu nome a Pluto?

Circula às vezes a versão de que o nome Pluto para o planeta recém-descoberto teria vindo de Pluto, o personagem de Walt Disney. Tal versão não se sustenta, bastando que se verifiquem as datas: quando o Observatório de Lowell comunica a escolha do nome oficial, o cãozinho dos Estúdios Disney não havia sido sequer criado. Mesmo depois da estréia, o esforçado canídeo ainda teve de esperar oito meses para ganhar um nome, o que só ocorreu na véspera do aniversário do batismo de Plutão. Assim, Pluto, o cão, é conseqüência de Pluto, o planeta, e não o contrário. Contudo, foram os desenhos animados que ajudaram a propagar o nome do novo corpo celeste, colocando-o definitivamente como parte da linguagem comum.

Leia também em Dossiê Plutão:

O mapa do planeta anão - por Fernando Fernandes
Plutão não é mais planeta... e daí? - por Carlos Hollanda
Limpeza de órbita e limpeza étnica - por Maurice Jacoel
Os astrônomos viram a mesa e encolhem o Sistema Solar - por Fernando Fernandes
A menina que batizou um planeta - por Fernando Fernandes



Atalhos de Constelar 99 - Setembro/2006 | Voltar à capa desta edição |

Fernando Fernandes - Dossiê Plutão | A menina que batizou um planeta | Pluto, o cão de Mickey Mouse | O mapa do planeta anão |
Carlos Hollanda - Dossiê Plutão | Plutão não é mais planeta... e daí? | O medo do monstro sob a cama |
Maurice Jacoel - Dossiê Plutão Limpeza de órbita e limpeza étnica |
Thiago Veloso/Equipe de Constelar - Astrológica 2006 | No ritmo da Astrológica 2006 | Entrevista com Robson Papaleo |
Renata Lins - Os tempos de Saturno e Urano | Chronos e Kairós |

Edição anterior:

Raul V. Martinez - Astrologia Médica no século XV | Um mapa de doença, delírio e morte |
Raul V. Martinez - Jack, o Estripador | Um assassino de sangue real | A carta natal de Albert Victor |
Dimitri Camiloto - Saturno em Leão e o Brasil em 2006 | Fuzarca, decepção e realidade |
Dimitri Camiloto / Fernando Fernandes - Astrologia Mundial | Coréia do Norte e agressividade infantil | Duas Coréias, muitos mapas |
Americo Ayala Jr. - Astrocartografia e catástrofes naturais | Terremoto na Indonésia, Maio de 2006 |
Thiago Veloso/Equipe de Constelar - Astrológica 2006 | No ritmo da Astrológica 2006 | Entrevista com Robson Papaleo |


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