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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 109 :: Julho/2007 :: -

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ASTROLOGIA E A ARTE DO SABER INDICIÁRIO

A análise do ciclo de Marte

Carlos Hollanda

O conceito de indício aplicado ao Ascendente

Mas como o Ascendente "intensifica"? Não há uma explicação satisfatória desse problema para o paradigma científico atual, e tal discurso pode parecer hermético ou absurdo para quem não está devidamente inteirado dos procedimentos de interpretação e análise de um mapa astrológico. No entanto, é neste e noutros pontos análogos que reside a faceta indiciária da astrologia, tanto quanto a da medicina, da investigação policial ou a de outros saberes/práticas que lançam mão de diagnósticos ou prognósticos acerca daquilo que pode ser visto ou percebido pelos sentidos, bem como correlacionado com o meio circundante e as experiências humanas. Um lavrador pode prognosticar chuva em determinada hora do dia ao sentir o aroma trazido pelo vento e, ainda, saber se choverá na localidade em que ele se encontra, ao verificar a direção desse vento. Ele o "sabe" ou o intui pela freqüência anterior de situações semelhantes. Daí um vento e um aroma tornarem-se um "indício" de chuva para ele. Para o médico, para o caçador e para o astrólogo antigos, esse modo de observar as coisas era bastante comum.

O que isso tem a ver com o que foi dito sobre o Ascendente? Ora, vejamos: ele é o ponto localizado no horizonte a leste do local de nascimento naquele dia e horário. Eis o fator crucial: o horizonte. Quem puder reparar no Sol nascente ou poente, na Lua quando desponta, poderá notar que ambos parecem dilatar-se na medida de sua proximidade com a delimitação visível e aparente entre o céu e a Terra. A ciência demonstra que tal fenômeno ocorre, entre outras causas, devido à refração da luz provocada pela atmosfera terrestre. Quanto mais próximo do horizonte, maior será a refração sofrida por um raio luminoso, em razão da maior massa de ar a ser atravessada (a luz vinda do horizonte precisa passar por uma quantidade muito maior de ar do que quando vem do zênite). O resultado é uma aparência dilatada e achatada do astro que se encontra naquele ponto [11].

Ótimo, ficou explicado racionalmente o motivo da aparente dilatação de um corpo celeste no Ascendente. Contudo, parte da mente humana e parte do comportamento biológico são condicionadas pelas relações com o meio ambiente, com as condições climáticas, com a quantidade de luz natural etc. Os saberes indiciários originam-se, em grande medida, dessa relação com o que é percebido, não com o que é explicado racionalmente. Podem até ser racionalizados e vir acompanhados de terminologia muito sofisticada, mas seguem tais percepções que, para o observador, em várias culturas diferentes, têm significados curiosamente muito próximos [12].

Assim, para a astrologia, entendendo-a em (grande) parte como um saber indiciário, em parte como um conjunto de procedimentos racionais e demonstráveis matematicamente, o fato de os astros parecerem maiores no horizonte tem um significado passível de leitura. Significado este que, embora essencial e comum mesmo para mais de um sistema cultural, modela-se de acordo com a singularidade da perspectiva de um dado segmento social, de práticas e representações específicas. Mas não perde sua forma inicial: o Sol é sempre quente, é o maior e mais luminoso astro visível a olho nu, quando sua incidência sobre a localidade diminui a temperatura cai, a vegetação sofre algumas modificações etc. Em qualquer localidade ou em quase todas do globo terrestre isso é verificável. Cada sociedade pode dar significados diversos para essa ação da incidência dos raios solares, mas é possível que em todas elas o Sol atinja em algum ponto a relação com a vida, a vitalidade, sem contar que não importa em que ponto da Terra estejamos, o Sol sempre será um verdadeiro ofuscador de tudo o que se encontra ao redor, dada a sua luminosidade.

Retornando ao Ascendente e o fato de um astro parecer dilatar-se quando ali localizado: para a astrologia, enquanto saber indiciário, este astro assume um destaque a mais e acentua a manifestação de suas características. Daí o discurso: "Marte transitando pelo Ascendente (fazendo conjunção com ele) tende a fazer com que o sujeito assuma um comportamento agressivo, pouco tolerante, individualista, dado a ações impulsivas, tudo isso acima da média comportamental anterior ao aspecto." E não é só isso: a localização de um astro próximo à linha do horizonte, sobretudo quando a leste, marca, para a visão indiciária, o fato de que ali o astro acaba de surgir, como um evento inédito desde a última aparição no dia anterior. Funciona como uma espécie de nascimento simbólico, a promessa ou a semente de um desenvolvimento marcado pela característica simbólica atribuída àquele astro. É a representação, também, de que algo que estava invisível, sob o horizonte, agora manifesta-se e torna-se presente à consciência objetiva. Daí considerar-se, juntamente com as outras propriedades dos horizontes, o fato como muito significativo e orientador de perspectivas.

Nesse caso nos deparamos com outro problema: este não é o único momento em que o trânsito de Marte ressalta a agressividade (condição inerentemente humana, que existe independentemente da posição de um ou outro planeta - Marte, no mapa, indica onde, como e em que medida a agressividade é sentida e se manifesta individual e coletivamente). Outros pontos do mapa, quando ativados pelo trânsito desse planeta, podem indicar períodos em que esses contatos sejam concomitantes com as funções e circunstâncias marciais. Igualmente, podemos estar vivendo situações em que nos irritamos, agredimos e somos agredidos numa área da vida, enquanto em outra área somos menos pressionados e atravessamos momentos de relativa tranqüilidade. Essas coisas podem estar acontecendo num mesmo mês, às vezes num mesmo dia, quando saímos de uma discussão acirrada no trabalho e, em seguida, somos bastante cordiais com um cliente; depois, entregamo-nos à paixão numa torcida de futebol ou no ato sexual, para a seguir lermos um livro deitados numa rede. Como resolver isso? Não é tão difícil: aquela área da vida representada pelo ponto tocado pelo trânsito de Marte no mapa radical [13] dificilmente não estará reproduzindo com maior freqüência as características modelares descritas para a simbólica daquele planeta. Aquele ponto denuncia a relação entre o que o trânsito representa para o discurso astrológico e a condição vivida.

É possível tudo isso? A verificação empírica em laboratório e em consultório, calcada numa metodologia de observação e comparação, permite demonstrar que sim. Embora não do mesmo modo que o faria uma ciência natural, como a física ou a química. Estamos tratando de eventos e circunstâncias que convergem para o ser humano, um objeto um tanto mutável e impreciso, ao contrário do comportamento de uma partícula em movimento, na física newtoniana. Até mesmo nela é preciso estabelecer arbitrariamente as conhecidas "condições ideais" para a formulação dos cálculos e resultados "previsíveis" sem as interferências comuns ao meio ambiente, às descontinuidades e aos imprevistos. Ali, na teoria, a partícula é isolada para que o cálculo chegue a um resultado possível. Com o ser humano é impossível realizar esse isolamento, mesmo em teoria. São centenas, milhares ou mais variáveis em jogo, e tudo o que podemos fazer é definir um caráter geral do funcionamento de um trânsito planetário, sem tomá-lo como definitivo na descrição daquilo que pode vir a ocorrer na vida de alguém numa dada época.

[11] Um breve manual astronômico de fácil entendimento e de texto pontuado com ilustrações esclarecedoras sobre esse e outros assuntos é o de Euclides Bordignon, Iniciação à astronomia, volumes 1 e 2 (Curitiba: AMORC, 1986). O que acima foi exposto remete ao volume 1, p.31-34.

[12] É imprescindível, no entanto, lembrar que a astrologia tropical (do zodíaco das estações) amplamente usada no Ocidente, difere estrutural e semanticamente da astrologia chinesa, cuja lógica se baseia em construções simbólicas totalmente pertinentes àquelas culturas que compõem o quadro chinês. Isso não faz com que um modelo invalide o outro. Faz, contudo, com que seja preciso compreender as duas lógicas segundo suas próprias premissas. A astrologia hindu, por exemplo, bem mais próxima da ocidental que a chinesa quanto aos mecanismos de subdivisão e interpretação dos sinais celestes, utiliza o zodíaco sideral (astronômico). Sua lógica, todavia, é toda própria e não se trata de algo mais nem menos preciso que o que se usa no Ocidente. Tanto uma quanto outra entendem que o planeta Marte (na Índia o nome é outro) é indicador de processos extremamente semelhantes. A semelhança entre esses sistemas e o chinês estaria sobretudo em traduções, como as feitas acerca do significado de seus zodíacos. Assim, por exemplo, Áries e Dragão têm características muito próximas. Macaco e Virgem são, por assim dizer, análogos. Todos esses sistemas, no final, são modelos de descrição de elementos humanos repetitivos e essenciais, que podem manifestar-se de formas bastante particulares de cultura para cultura, mas que se comparados provam-se baseados em questões pertinentes a uma espécie de ser humano médio subdivididas simbolicamente em áreas delimitadas: necessidade de abrigo, estruturas de poder, relações com outros seres humanos, capacidade de comunicação etc.

[13] O mapa radical é aquele calculado para um momento inicial de alguma coisa, seja o nascimento (mapa natal), a abertura de uma empresa, a formação de um país e eventos análogos. O radical é sempre a base sobre a qual trânsitos e outras técnicas de previsão podem ser analisadas.

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