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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 108 :: Junho/2007 :: -

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ASTROLOGIA, LITERATURA E PSICOLOGIA

Um Pequeno Príncipe entre Marte e Júpiter

Ricardo D. Coplán

Uma flor muito exigente

A flor se comportava de uma maneira muito coquete, deixando o Pequeno Príncipe fascinado por sua beleza. Mas em pouco tempo a flor já o chateava com seguidas exigências: um dia lhe pediu um biombo porque "sentia horror às correntes de ar" (26), e inclusive forçou a tosse para lhe infligir remorsos. Típica manipulação emocional do tipo materno negativo (Vênus em Câncer) que tem por finalidade obter a submissão do eu de nosso pequeno herói, impedindo sua maturação. Uma consciência masculina com uma anima, ou seja, com um fundo anímico deste tipo ficaria sempre envolta nesses caprichos "femininos", com duas possibilidades: ou se identifica com eles, configurando uma possível homossexualidade, ou os abandona em busca de uma nova oportunidade. Ambas as possibilidades descritas ainda mantêm a consciência masculina muito perto do complexo materno. Se voltarmos à configuração astrológica da carta do autor, vemos, a propósito, que Vênus, que numa carta masculina representaria a anima, encontra-se no maternal signo de Câncer. A esta Vênus imersa no ventre materno celeste, já que se encontra na uraniana casa XI - sendo que o próprio Urano está na casa IV - opõe-se a pedregosa e áspera Vênus-Verônika caprina "com sua vaidade um pouco sombria" (27).

Nosso homenzinho parte, abandonando a flor e o planeta. É como se seu amor frustrado lhe tivesse servido de incentivo para afastar-se do lar e chegar finalmente à Terra.

A flor, para Novalis, é símbolo do amor e da harmonia que caracterizam a natureza primitiva. Identifica-se com o simbolismo da infância e de certo modo com o estado Edênico (28). Vênus em Câncer, este signo como a "natureza primordial". Essa flor, como o feminino que há nele, embora ainda muito apegado à mãe. Segundo Jung, a figura do arquétipo da Anima emerge do arquétipo Mãe, e analisando a carta do Saint-Exupéry vemos que é um reflexo de sua psicologia pessoal, já que tem o Sol, símbolo de sua identidade, no maternal signo de Câncer, e seu regente, a Lua, no solar signo de Leão. Além disso, a sedutora Vênus ainda navega nas águas maternais cancerianas. Recordemos que, no mito, Vênus-Afrodite nasceu dos testículos de Urano, cortados e lançados ao mar, ou seja, seu pai é Urano e sua mãe é o mar. Verônica, por estar em Capricórnio, pertence mais ao mundo do pai, o superego freudiano.

Mas a flor não é apenas símbolo do feminino, é também do renascimento primaveril e da totalidade em sua manifestação plena, ou seja, o que Jung chamaria o Si mesmo, e nesta história funciona como um indicador do processo por desenvolver.

Escada descendente

Cedo a palavra à obra: "encontrava-se na região dos asteróides 325, 326, 327, 328, 329 e 330. Começou pois a visitá-los para procurar uma ocupação e para instruir-se" (Capricórnio) (29). Assim foi como começou a descer a escada cósmica.

O asteróide 325 leva o nome de Heidelberga (30) e corresponderia, quando do nascimento do autor, a 0°49' de Aquário, na leonina casa V, e em oposição a Vênus natal. Seu nome faz referência à cidade alemã de Heidelberg, conhecida por ter a universidade mais antiga deAlemanha, imortalizada na opereta de Sigmund Romberg intitulada O príncipe estudante. Na obra, o Pequeno Príncipe corresponde a um reino sem súditos (o excêntrico Aquário), e coincidiria com o momento em que o puer percebe que é rei de um mundo solitário que não tem contato com a realidade (Aquário) (31).

O asteróide seguinte se chama Tamara (32), é o 326, e corresponde ao vaidoso (33), em 22°40' de Áries na casa VIII; forma uma quadratura com relação a Verônica e a Vênus natal, implicando um momento de máxima tensão e crise de transformação (casa VIII), onde o rei anterior ganharia mais materialidade humana e apareceria meramente como vaidoso, despojado dos conteúdos de dignidade real que pertencem mais ao nível arquetípico.

O seguinte é o bebedor (34), que, é óbvio, bebia para esquecer; no caso de nosso herói, para esquecer seu amor rejeitado, e também possivelmente para dissolver sua estrutura anterior. Corresponde ao asteróide Columbia, cuja localização na eclíptica é quase 24° de Câncer (35) em conjunção a Vênus natal em quase 21° do mesmo signo; justamente a conjunção que assinala confusão de princípios indicaria a posse pela alma, quer dizer, a situação em que a alma seduz o herói com uma situação prazenteira, a bebedeira, quando em realidade o faz sucumbir na inconsciência do sonho e possivelmente da morte. Por isso o bebedor declara que bebe para esquecer a vergonha de que bebe (36).

O próximo é Gudrun, e tem toda a estrutura do eixo Virgem-Peixes. De fato sua posição é 25° de Peixes (37), e é um homem de negócios (38) que passa o tempo contando suas posses, as quais são nada mais nada menos que as estrelas, coisa bem pisciana. É realmente um "homem de negócios" que acabou de sair de uma bebedeira.

Depois vem Svea (39), o asteróide que corresponde ao faroleiro (40), que acende o farol cada vez que o sol se põe e o apaga em cada amanhecer.

Svea se encontra no signo do pôr-do-sol, no zodiaco radical, 25° de Libra (41), oposto, é óbvio, ao signo das saídas do Sol, Áries. Em primeira instância, o habitante deste diminuto planeta parece que é o encarregado de iluminar a noite - a luz da consciência, o que indica uma pequena esperança para nosso Pequeno Príncipe. É digna de nota a aceleração do processo, já que a duração do dia deste asteróide vai-se acelerando até chegar a um dia por minuto terrestre (42). Provavelmente terei que pensar na circulação da luz, e citando Jung, "psicologicamente, esse curso circular seria um dar voltas em círculo em torno de si mesmo, com o que evidentemente ficam implicados todos os aspectos da personalidade.

Os pólos do luminoso e do escuro são postos em movimento circular,ou seja, surge uma alternância de dia e noite."(43). Através deste girar acelerado, produz-se um aumento da energia, que num dado momento produzirá um brilho da consciência (44). Outra questão importante neste asteróide é que o faroleiro é o primeiro que faz algo que não é para ele, como observa o próprio Pequeno Príncipe (45); do ponto de vista astrológico, este asteróide está em localização oposta, com apenas 39 minutos de arco de diferença, com relação ao asteróide Tamara, onde habita o vaidoso. Isto tem importância segundo a psicologia junguiana, já que o faroleiro, como ele declara (46), unicamente segue a ordem. E perguntaríamos: de quem?

Possivelmente o faroleiro só se põe a serviço de uma finalidade superior, que para Jung seria o Si mesmo, coisa que ainda não pode fazer, por exemplo, na etapa do homem de negócios, que pretende apropriar-se do que pertence à totalidade (as estrelas). Menciono este caso porque se situa na polaridade Virgem-Peixes, onde a chave de Virgem seria ficar a serviço da polaridade maior, que é Peixes.

Por último, antes de chegar à Terra, faz uma parada no asteróide Adalberto, que se encontra a 5° de Capricórnio (47), onde encontra um Geógrafo (48), etimologicamente alguém que desenha a Terra. Adalberto está significativamente em conjunção com Saturno, no final da casa IV, e talvez mais importante, em oposição ao Sol do Saint-Exupéry, com uma órbita inferior a dois graus, e quase na cúspide da casa V. Esta oposição entre Câncer e Capricórnio indica uma viagem do mundo materno do Puer-menino ao mundo paterno do homem, e além do mais, na casa V, a casa da identidade.

Agora passarei a falar do simbolismo da escada, ou da escala, como diz o Dicionário dos Símbolos de Chevalier. "Os diferentes aspectos do simbolismo da escada se reduzem ao único problema das relações entre céu e terra" (49). A escada pode ser esculpida em uma árvore, na rocha, ou também pode ser de matéria aérea, como o arco-íris; ou de ordem espiritual, como os degraus da perfeição interior. Mas a escada pode igualmente ser utilizada pela divindade para descer do céu à terra", e neste sentido é um instrumento das epifanias divinas, mas também veículo de encarnação das almas. "No Timor Leste, o Senhor Sol, divindade suprema, baixa uma vez ao ano a uma figueira para fecundar sua esposa, a Terra Mãe" (50).

Os xamãs siberianos sobem ao céu e voltam a descer por uma bétula com sete entalhes (ou 9 ou 12), a escada de Buddha tem sete cores, a escala dos mistérios mitraicos sete metais, a escada de Jacob, por onde sobem e baixam os anjos, etc, são diferentes exemplos do sentido da escala ou escada na história religiosa mundial (51); e não esqueçamos, que nosso Pequeno Príncipe baixou sua escada de 6 asteróides e planetas, chegando à Terra, como sétimo.

Por último transcrevo uma tradução de um texto de Macróbio, um platônico latino do século IV, Comentário a um Sonho de Cipião: "A alma, ao começar seu movimento descendente desde a intercessão do zodíaco com a Via Láctea até as esferas sucessivas inferiores, ao cruzar estas esferas, não apenas adota o envoltório de cada uma das esferas, aproximando-se de um corpo luminoso, mas também adquire cada um dos atributos que exercitará mais tarde, ou seja: na esfera de Saturno adquiriria a razão e a compreensão...; na esfera de Júpiter, a capacidade de atuar...; na esfera de Marte, um espírito intrépido...; na esfera do Sol, a percepção dos sentidos e a imaginação...; na esfera de Vênus, o impulso passional; na esfera de Mercúrio, a capacidade de falar e de interpretar...; e na esfera da Lua, a capacidade de semear e de cultivar corpos...". (52)

Como poderíamos interpretar, do ponto de vista psíquico, esta viagem interplanetária, ou mais exatamente, inter-asteróides? Para isso deveremos rever as teorias astronômicas que tratam da origem destes diminutos corpos celestes.

Há duas teorias sustentadas pelos astrônomos:

A primeira diz que seriam o resultado da fragmentação de um antigo planeta, pois segundo uma tese astronômica, deveria haver um planeta entre Marte e Júpiter. A segunda, que seriam porções de matéria cósmica que nunca teria chegado a formar um corpo celeste maior. Estas duas possibilidades enfatizam a polaridade integração-desintegração, que, se interpretada simbolicamente do ponto de vista psíquico, tem, como já veremos, sérias conseqüências, inclusive para nosso tema.

Assim como se considera em astrologia que o Sol é a fonte primária da energia que o restante dos planetas reflete, na psique humana existem fragmentos que são chamados complexos que formam parte do que, para Jung, é o inconsciente pessoal. Estes complexos são conglomerados de tonalidade afetiva, quer dizer, são como centros de força que atraem certo tipo de experiências. Assim se pode falar do complexo materno, do paterno ou de um complexo de poder, etc. Os planetas, segundo este ponto de vista, podem ser entendidos como complexos.

O objetivo do trabalho terapêutico seria a integração à consciência destes fatores inconscientes, que tendem a ter certa autonomia. Os asteróides, neste contexto, podem ser entendidos da mesma maneira, quer dizer, como aspectos cindidos a serem integrados na consciência.

O Pequeno Príncipe, através da viagem para a Terra, no processo encarnatório, foi encontrando seus diferentes complexos.

E Saint-Exupéry, o autor, já vimos que era conde, nascera na cidade de Lyon, pertencia a uma família nobre de província que descera na escala social, embora conservasse algumas propriedades familiares, mas seu pai trabalhava para uma companhia de seguros. Aqui vislumbramos possivelmente o rei sem súditos do primeiro asteróide. E se antes fizemos referência ao rei aquariano, não se pode esquecer que Saint-Exupéry tinha três planetas em sua aquariana casa XI, e o Sol a apenas três graus de sua cúspide, ainda na X.

Saint-Exupéry não só escreveu O Pequeno Príncipe, mas também elaborou mais três novelas, além de muitos artigos e cartas. Em 1939 recebeu o prêmio da Academia Francesa de melhor novela do ano por Terra de Homens, e no mesmo ano recebeu o National Book Award do EUA por obra de não ficção.

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