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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 109 :: Julho/2007 :: -

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ASTROLOGIA E A ARTE DO SABER INDICIÁRIO

O astrólogo-Sherlock:
a análise do ciclo de Marte

Carlos Hollanda

Mesmo que a astrologia não possa ainda ser definida como ciência de acordo com critérios contemporâneos, não há como negar-lhe o status de saber indiciário, no mesmo nível, por exemplo, da criminalística. Cada ativação do mapa corresponde a um estreito feixe de possibilidades. Utilizando metodologia adequada, é possível e desejável que os astrólogos desenvolvam pesquisas estatísticas que confirmem seus prognósticos.

Introdução

O presente trabalho tem três objetivos principais. O primeiro é trazer à discussão questões ligadas às concepções de homem, tempo e cosmo que podem ser verificadas, de várias maneiras, através do diálogo entre o olhar do historiador e o do astrólogo - especificamente o astrólogo que realiza pesquisas levando em conta ao mesmo tempo a experiência empírica e vários aportes teóricos. Entre tais aportes, que sempre são provisórios, como em outras áreas de saber, podem ser encontradas a teoria de sincronicidade, bastante utilizada, e observações sobre as relações eletromagnéticas existentes no sistema solar, atuantes sobre o campo terrestre . Existem as teorias causais (astros teriam influência direta sobre o comportamento) e as acausais (astros apenas estariam posicionados no céu em sincronia com eventos e particularidades na Terra, sem afetá-los diretamente).

Não se devem desprezar as diversas correntes de pensamento vigentes entre os astrólogos atualmente. No Brasil, podemos destacar três principais: uma que defende a cientificidade da astrologia; outra, bastante oposta, que enxerga nesse saber um ato divino ou uma revelação oculta; uma terceira, que observa a astrologia como um fenômeno ao mesmo tempo cultural, lingüistico (os signos, planetas e aspectos formariam "frases" e elementos a serem conjugados na interpretação - enfim, algo legível pelo especialista) e como uma relação de identificação da "realidade" circundante com os símbolos astrológicos.

Talvez exista a possibilidade de que essas três correntes tenham elementos não totalmente repulsivos entre si, quiçá convergentes num ou noutro ponto, sobretudo se procedermos com uma análise que disponha de tempo para averiguação de resultados. O que possivelmente falta em várias afirmações a respeito dos "efeitos" de, por exemplo, trânsitos planetários sobre um mapa astrológico de nascimento é a sistematização e a catalogação de relatos de clientes observados, de dados fornecidos e sua comparação massiva com os postulados antigos e modernos defendidos pelos astrólogos. Tal procedimento é algo que será discutida mais adiante neste trabalho, ao demonstrarmos dois casos extraídos de um conjunto maior, em que o trânsito do planeta Marte, tradicionalmente associado aos efeitos que serão citados, revela-se bastante afim com as circunstâncias relatadas, mesmo sendo tais circunstâncias diferentes entre si.

Fisiognomonia, indícios, sinais e o homem moderno

Se fizermos um breve passeio no tempo histórico, salientar-se-á que, sob vários aspectos, as práticas populares de cura ou de presságios por procedimentos indiciários [1] eram apropriadas tanto por ervanárias e curandeiros quanto pela medicina [2]. Observação de indícios e sinais em pessoas e no espaço circundante também sempre estiveram presentes na prática dos caçadores, no rastrear da caça, e na localização de pessoas e animais perdidos [3]. Ainda hoje, aliás, a medicina e a prática policial mantêm uma boa dose de saber indiciário em seus diagnósticos e prognósticos, o mesmo ocorrendo nas práticas alternativas: um shiatsuterapeuta pode ser capaz de identificar vários problemas musculares e de coluna com um breve olhar sobre o andar do paciente. No caso do policial, sobretudo o perito, os "rastros" deixados no local do crime possuem uma linguagem decodificável pela lógica inerente ao sistema de identificação que tais profissionais utilizam. Não adiantaria, por exemplo, um geógrafo analisar um pedaço de unha numa investigação policial. O investigador, porém, pode utilizar-se do olho clínico do geógrafo para compreender de que modo a morfologia e o tipo de vegetação do local pode ter afetado a escolha do criminoso na hora de atacar ou esconder a vítima. Os procedimentos do geógrafo e o do investigador criminal são bastante diferentes, mas este último pode usar os conhecimentos do primeiro na decodificação dos sinais que veio catalogando.

Se o geógrafo usar seus procedimentos específicos na prática policial, sem levar em conta o modo como o próprio policial organiza sua prática, o que ele irá descobrir? Que o crime ocorreu num relevo montanhoso? Com alta pluviosidade? Ocupado por grupos sociais X ou Y? Isso é desvendar o histórico do crime, e, por conseguinte, apontar os suspeitos, ou é dizer que as formas de localizar o criminoso usadas pela polícia são absurdas e inválidas? Mas como afirmar isso, ou como encontrar o criminoso, sem agir como age o policial? O problema da prática do astrólogo, quando vista por outras disciplinas acadêmicas que visam explicá-la por parâmetros alienígenas a seus recursos internos, é basicamente o mesmo do insólito exemplo acima. Antes de tentar encontrar uma explicação válida ou antes de invalidar a astrologia, convém observar o que é/foi dito na literatura especializada (tanto a tida por uma parte dos astrólogos como realmente científica quanto a mais mística e espiritualista) e aplicar tais premissas quantitativamente, com raciocínio crítico, selecionando o que é demonstrável do que, até determinado momento, não seria.

Desse pormenor sobrevém a discussão acerca de um problema: o de considerar a astrologia um saber cujas defesas atuais tendem a basear-se na abolição da idéia de temporalidade. Estas alicerçam-se mormente em teorias como a dos arquétipos e do Inconsciente Coletivo, na psicologia analítica, e em modelos estruturalistas, quando o raciocínio do astrólogo inclina-se para o pensamento antropológico. Demonstrar isso para historiadores pode ser um tanto complexo. Em História, área à qual este autor se dedica na vida acadêmica, uma noção de "não-tempo" é um complicador que diverge da idéia de tempo linear ou de temporalidades simultâneas constantemente em desenvolvimento [4]. Para o historiador não pode haver abolição do tempo, exceto quando falamos de narrativas míticas [5] ou de folclore. Entretanto, deixa-se, normalmente de se levar em conta que as categorias supostamente atemporais das narrativas míticas, não importando se são apenas inculcadas por força de traços culturais e literatura, ou se seriam realmente independentes do tempo e das próprias sociedades [6], são reapropriadas numa ou noutra época, com finalidades diversas, e mostram um padrão de comportamento humano médio relativamente constante. As formas de promoção de comportamento e de crenças, algo já bastante anterior às atuais sofisticadas técnicas de propaganda e marketing, visam, em geral, a esse "homem médio", termo que Edgar Morin utiliza para designar aquilo que a maior parte dos seres humanos têm em comum (ou que se pensa ter) e que é profundamente explorado pela Indústria Cultural/Cultura de Massa [7].

É possível encontrarmos traços desses padrões médios ("míticos/atemporais", construções passíveis de datação ou padrões derivados de funções corporais) entre os fatores que salpicam um mapa astrológico. Exemplificando: segundo a maioria esmagadora dos postulados astrológicos desde a Antigüidade [8], o planeta Marte é um fator que concentraria, em sua representação simbólica e no discurso astrológico, o impulso agressivo, a competitividade, o calor corporal quando em estado febril ou durante intensa atividade física [9], o desejo de conquista e a defesa/ataque em situações críticas. Quando, em seu trânsito, Marte realiza uma passagem sobre pontos do mapa como o Ascendente, que tem como uma de suas propriedades a intensificação das experiências/manifestações relativas ao planeta que o "toca", as características físicas, psicológicas e circunstanciais associadas àquilo que Marte representa tornam-se mais evidentes e perceptíveis. O sujeito que então vivencia esse trânsito apresenta propensão maior do que de hábito à ação representativa do discurso marcial.

Convém frisar vigorosamente o "de hábito". Uma pessoa reconhecidamente agressiva teria uma acentuação de seu comportamento que talvez não fosse tão visível pela maioria, embora não deixasse de manifestar uma certa diferença em relação a seu estado anterior ao trânsito. Já alguém considerado "pacato" [10] pode ter reações perceptivelmente variadas, como conter a fúria e indispor-se, adoentar-se, ficando febril, agir agressivamente fora de seus padrões de tranqüilidade, ficar menos tolerante com atrasos e frustrações, impacientar-se mais freqüentemente etc. Em todas essas variáveis é possível encontrarmos uma convergência para o discurso astrológico associado à representação simbólica do planeta Marte, que, ali, passa pelo Ascendente.

NOTAS

[1] Observação de sinais ou indícios em pessoas e no ambiente circundante - sobretudo na Antigüidade e na Idade Média. Cf. GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais - morfologia e História. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.143-179.

[2] Numa pesquisa histórica acerca das práticas médicas e também da relação entre o conhecimento e o poder no Império Romano, Tamsyn S. Barton, em seu Power and Knowledge - astrology, physiognomics and medicine under the Roman Empire (Ann Arbor: The University Michigan Press, 2002), traça um perfil do uso da astrologia e de outros saberes indiciários, como a fisiognomonia, na interpretação de sinais do corpo quanto a doenças e seu desenvolvimento. Igualmente, demonstra uma parte do uso da astrologia como elemento legitimador de poder.

[3] Entre os exemplos que podemos usar nesse caso estão os personagens de filmes de western, onde os indígenas fazem o papel de rastreadores de fugitivos. No Brasil, temos os capitães-do-mato, que caçavam escravos fugidos. Na literatura temos a obra de Tolkien, O Senhor dos anéis, onde o rei Aragorn é exímio rastreador e decodificador de sinais no ambiente, sabendo tudo o que aconteceu com seus amigos hobbits apenas olhando rastros de luta entre eles e os inimigos orcs.

[4] Conforme Fernand Braudel e a tripartição do tempo histórico em curta, média e longa duração.

[5] Raoul Girardet, em seu Mitos e Mitologias Políticas (São Paulo: Cia das Letras, 1987), por exemplo, analisa apropriações de narrativas e sentidos míticos em fases históricas marcadas por revoluções, guerras e processos de formação de identidades. Nesses casos os mitos seriam reintroduzidos numa dada sociedade, favorecidos pela conjuntura sociopolítica e cultural, dando ênfase a um movimento ou estilo de pensamento. No entanto, as mitologias usadas como legitimadoras desses processos não seriam basicamente as mesmas de suas origens, tendo seus focos centrais e até parte de suas narrativas alteradas em função dos interesses que as impulsionam num determinado momento.

[6] Coisa da qual o já citado historiador Carlo Ginzburg discorda, especialmente em dois de seus livros: História noturna. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, e op. cit. 2002. Neles Ginzburg apresenta argumentos consideravelmente sólidos contra a teoria dos arquétipos e do Inconsciente Coletivo, de Jung, mas o faz sob o ponto de vista da análise historiográfica. Até o momento, não me parece justificável, no que tange à prática clínica, a afirmação do autor de que tais teorias seriam "pseudo-explicações", ao menos não em todos os sentidos. Talvez seja preciso haver, por parte dos psicólogos clínicos, uma contra-apresentação de argumentos que possam reativar a discussão.

[7] Uma ótima referência do uso de formas de propaganda em tempos anteriores à Indústria Cultural é o livro de Peter Burke "A fabricação do rei - a construção da imagem pública de Luís XIV" (Rio de janeiro: Jorge Zahar, 1994). Quanto ao detalhamento do conceito de "homem médio" e a promoção de comportamento/crenças, temos "Cultura de massas no século XX - o espírito do tempo - 1 Neurose", de Edgar Morin (Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1981). A literatura cortês dos séculos XII e XIII, na Europa, também era uma forma de promoção comportamental e educação, atingindo os interesses médios da nobreza, mas atuando também no imaginário da população do terceiro estado (1º - clero, 2º - nobreza, 3º - camponeses etc.). Entre os melhores exemplos da literatura cortês estão as obras de Chretién de Troyes sobre cavaleiros da Távola Redonda.

[8] Um dos mais antigos e importantes tratados/manuais astrológicos com tais postulados seria o de Claudio Ptolomeu, Tetrabiblos. Elisabeth Teissier traduziu e comentou a obra em Manuel d'astrologie - le Tetrabible. Paris: Les Belles Lettres, 1993.

[9] Qualquer semelhança com o ardor sexual ou passional NÃO é mera coincidência.

[10] Entendendo que no comportamento humano há uma enorme complexidade que impede a rotulação de alguém como simplesmente "agressivo" ou "pacato", esses termos aqui são usados a título ilustrativo, como forma de identificar o modo como um grupo pode enxergar alguém, estereotipando-o segundo seus padrões socioculturais. Todo ser humano pode ser num momento ou noutro agressivo ou "manso" e as variáveis para tais manifestações são por demais numerosas, coisa que no presente momento podemos deixar em stand by para podermos nos concentrar na demonstração de algumas propriedades da prática do astrólogo.

O conceito de indício aplicado ao Ascendente



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