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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 109 :: Julho/2007 :: -

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UMA LEITURA DE PAUL FEYERABEND

A relação de poder entre
Astrologia e Ciência

Cristina Machado

Feyerabend contra 186 cientistas

A posição de Feyerabend no texto "O estranho caso da astrologia" (1993b, pp.82-90) é simpática à astrologia e, como toda a sua obra, é uma denúncia do dogmatismo irracionalista da comunidade científica, que ataca de maneira implacável a astrologia, baseada num conhecimento superficial não apenas da astrologia, mas também da história da cultura e da própria história da ciência [8]. O pretexto para o desabafo contido neste texto é a declaração de 186 cientistas contra a astrologia na publicação The Humanist (Kurtz, 1975), que reduz o assunto a uma querela entre a razão luminosa e o charlatanismo obscurantista, em vez de encarar a astrologia como possível objeto de estudo. Assim começa a declaração:

Cientistas de diversas áreas preocupam-se com a aceitação crescente da astrologia em muitas partes do mundo. Nós, abaixo-assinados - astrônomos, astrofísicos e cientistas de outras áreas -, devemos alertar a opinião pública contra a aceitação incondicional das predições e conselhos dados, privada ou publicamente, pelos astrólogos. Aqueles que desejam acreditar na astrologia devem saber que não há fundamento científico em seus princípios (ibid., p.4).

Segundo Feyerabend, a declaração apresenta um tom religioso, argumentos analfabetos e exposição autoritária. Para ele, esses cientistas não sabem do que falam: não conhecem a astrologia e acham que isso não é obstáculo para insultarem-na publicamente. Feyerabend compara esse documento com a bula do papa Inocêncio VIII, citada no Malleus Maleficarum [9], pois percebe que tanto o papa como os 186 cientistas lamentam a popularidade crescente de concepções que consideram suspeitas. No entanto, Feyerabend ressalta ironicamente que a diferença é que o papa e os doutores da igreja sabiam do que estavam falando, ao contrário dos cientistas. Até mesmo Carl Sagan, reconhecidamente crítico da astrologia, recusou-se a assinar esse documento, por considerá-lo autoritário (Sagan, 1997, p.295). [10]

Para Feyerabend, esses cientistas desconhecem as próprias concepções modernas de astronomia e física que tentam usar contra a astrologia. Ele cita, por exemplo, as relações de intercâmbio que determinam a atividade solar em relação à posição dos planetas, os desvios dos valores de certas reações químicas, principalmente da estrutura da água, e a sensibilidade de certos organismos às marés e às fases da lua. Além disso, como podemos ver no próprio Sagan, o fato de não haver ainda um mecanismo pelo qual a astrologia pudesse funcionar não é suficiente para que ela seja considerada uma pseudociência, dado que grandes problemas científicos, como o do deslocamento dos continentes, inicialmente também não apresentavam nenhuma explicação (Sagan, 1997, p.295).
Voltando à declaração:

The Humanist, prestigiosa revista de cultura, abrigou em 1975 um preconceituoso manifesto contra a Astrologia.

Antigamente, as pessoas acreditavam nas predições e nos conselhos dos astrólogos porque a astrologia fazia parte da sua visão mágica do mundo. Elas consideravam os objetos celestes como morada ou augúrio dos deuses e, portanto, intimamente ligados aos eventos terrestres. Eles não tinham idéia das vastas distâncias da Terra aos planetas e estrelas. Atualmente, que essas distâncias foram calculadas, é possível saber como são infinitamente pequenos os efeitos gravitacionais e de outras naturezas produzidos pelos distantes planetas e pelas ainda mais distantes estrelas. É simplesmente um erro imaginar que forças exercidas por estrelas e planetas no momento do nascimento podem de alguma maneira delinear nossos futuros. Também não é verdade que a posição de corpos celestes distantes torne certos dias ou períodos mais favoráveis a determinados tipos de ação, ou que o signo sob o qual se nasceu determine a compatibilidade ou incompatibilidade com as outras pessoas.

Por que as pessoas acreditam em astrologia? Nesses tempos de incerteza, muitos precisam do conforto de uma orientação na tomada de decisões. Eles gostariam de acreditar em um destino predeterminado por forças astrais além de seu controle. No entanto, nós precisamos enfrentar o mundo e perceber que nosso futuro reside em nós mesmos, e não nas estrelas.

Esperaria-se que, em uma época de ampla difusão de informações e educação, não fosse necessário destronar crenças baseadas em magia e superstição, entretanto, a aceitação da astrologia invade a sociedade moderna. Estamos especialmente preocupados com a disseminação acrítica contínua de mapas astrológicos, previsões e horóscopos pela mídia e por jornais, revistas e livros de reputação. Isso só pode contribuir para o crescimento do irracionalismo e do obscurantismo. Acreditamos que chegou a hora de contestar, direta e energicamente, as afirmações pretensiosas dos charlatães da astrologia.

É preciso esclarecer que as pessoas que continuam tendo fé na astrologia o fazem independentemente do fato de não haver base científica comprovada para suas crenças e, na verdade, o que há é uma forte evidência do contrário (Kurtz, 1975, p.4).

Contra o argumento dos cientistas de que a astrologia baseia-se na magia, Feyerabend declara que: 1) eles não podem afirmar isso pois não são etnólogos e não conhecem os resultados mais recentes dessa disciplina; 2) a concepção de história embutida nesta declaração baseia-se no mito do progresso e na superioridade científica do homem moderno ocidental; e 3) a ciência também esteve vinculada à magia, logo, deveria ser rechaçada também, se a astrologia o fosse por esse motivo.

Feyerabend considera que ainda há outros erros menores subentendidos nessa declaração e nas posições geralmente defendidas pelos cientistas:

  1. Considerar que a astrologia acabou quando Copérnico descreveu o sistema heliocêntrico (Kepler, herdeiro intelectual de Copérnico, fazia mapas astrológicos);
  2. Criticar o fato de a astrologia mostrar tendências e não acontecimentos fixos (outras ciências, como a genética, por exemplo, também só mostram tendências);
  3. Criticar as contradições da astrologia ("qualquer teoria medianamente interessante está em contradição com vários resultados experimentais. Nisso, a astrologia é semelhante ao mais respeitável programa científico de investigação" [Feyerabend, 1993b, p.88]);
  4. Apelar à psicologia, já que não conseguiram material de apoio de seus próprios colegas biólogos e astrônomos (os testes psicológicos e a psicanálise não são menos polêmicos).

Não se deve pensar, entretanto, que Feyerabend trate a astrologia de maneira míope, sem perceber seus problemas. Ele critica a prática da astrologia por pessoas que transformaram idéias interessantes e profundas em caricaturas que se ajustam às suas limitações, reduzindo a astrologia a um depósito de regras ingênuas e frases úteis, além de não fazerem nada para desbravar novos horizontes ou aumentar nosso saber acerca das influências extraterrenas. Mas não é isso que os cientistas criticam, eles preferem criticar os princípios astrológicos, caricaturando-os (assim como alguns astrólogos), por ignorância, vaidade e desejo de poder.

[8] É importante lembrar que Feyerabend não concebe a ciência como um conhecimento privilegiado, tendo em vista que, em última análise, impôs-se pela força e não por nenhum outro fator. Portanto, seu estatuto epistemológico é equivalente ao de qualquer outra forma de pensamento.

[9] Escrito por inquisidores, em 1484, este documento foi, durante 4 séculos, o manual oficial da Inquisição, que levou à tortura e à morte mais de 100 mil mulheres, acusadas, entre outras coisas, de copularem com o demônio. Isso se deu num momento de pensamento pré-cartesiano em que se constituíam as nações modernas.

[10] É importante esclarecer que Carl Sagan considera a astrologia uma pseudociência, entretanto, não pelos motivos expostos no manifesto contra a astrologia, que, como dito anteriormente, ele considera autoritário (Sagan, 1997, p.296). Mas faz uma breve lista de críticas à astrologia, muito semelhantes às de Hoffmann (1994) e Gewandsznajder (1998), que se alinham a uma perspectiva da astrologia como pseudociência. Entretanto, como já repetimos exaustivamente aqui e em outros lugares, ainda que esse vocabulário fosse pertinente, a fronteira entre os conceitos de ciência e pseudociência não é nada clara, tratando-se mais de uma questão ético-política do que propriamente epistemológica.

Considerações finais

Feyerabend fornece indicações de como seria olhar para a astrologia com os olhos da nova filosofia da ciência, considerando perfeitamente aceitáveis suas contradições e o fato de trabalhar com tendências e não acontecimentos fixos. Além disso, a questão da demarcação e o seu vocabulário não fazem mais sentido nesse novo contexto, principalmente porque as ciências passam a ser entendidas como objetos históricos, e as tradições de pesquisa que estabelecem é que são responsáveis por definir não só a metodologia, mas a sua própria ontologia. Isto é, o recorte de mundo sobre o qual se vai trabalhar e as regras que ali se aplicarão não são dados a priori, e sim definidos ao longo da pesquisa. Nos termos de Feyerabend, "não seguimos somente as regras, mas as constituímos e as modificamos com o nosso modo de proceder" (Feyerabend, 2001, p.56), ou seja, o significado das regras emerge do uso, não é dado de antemão, e

a ciência é o resultado da pesquisa, não da observação de regras, e por isso não se pode julgar a ciência com base em abstratas regras epistemológicas, a menos que tais regras não sejam o resultado de uma prática epistemológica especial e constantemente mutante (ibid., 2001, p.57).

Do ponto de vista da prática científica, que se impõe independentemente da filosofia da ciência e suas discussões conceituais sobre demarcação, podemos identificar algumas críticas recorrentes à astrologia, como as de Sagan (1997), Hoffmann (1994) e Gewandsznajder (1998), que apelam a testes empíricos e conceitos astrológicos que consideram equivocados. No entanto, como já sugerimos, essas críticas não se baseiam em critérios epistemológicos, supostamente responsáveis por fazer a demarcação entre o que é científico ou não, e sim em critérios ético-políticos, muitas vezes com legítimos fins pedagógicos. É claro que a astrologia apresenta, como qualquer outro saber, problemas teóricos e dificuldades empíricas que devem ser pensados e repensados no interior da comunidade astrológica, mas, como vimos, isso não é justificativa para lhe atribuir um estatuto qualquer e encerrar o assunto, mas sim para continuar investigando.

Para finalizar, tendo em vista a falência dos modelos normativos de filosofia da ciência - que são tributários de uma concepção idealizada, na qual, além de ser neutra, uniforme e universal, a ciência deve ser diferenciada de outras formas de saber para ser legítima -, nos dias de hoje, chamar a astrologia ou qualquer outra disciplina de pseudociência ou é plataforma política, ou é um discurso epistemológico bastante anacrônico.

Bibliografia

CHALMERS, A. A fabricação da ciência. Tradução de Beatriz Sidou. SP: UNESP,1994.
FEYERABEND, P. Contra o método. Tradução de Octanny S. da Mota e Leonidas Hegenberg. RJ: Francisco Alves, 1977.
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KRAMER, H.; SPRENGER, J. O martelo das feiticeiras. Tradução de Paulo Fróes. RJ: Editora rosa dos tempos, 1993 [Malleus Maleficarum, 1484].
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OMNÈS, R. A filosofia da ciência contemporânea. Tradução de Roberto Leal Ferreira. SP: UNESP, 1997.
POPPER, K. R. A lógica da pesquisa científica. Tradução de Leonidas Hegenberg e Ocatnny Silveira da Mota. SP: Editora Cultrix, 1975b.
SAGAN, C. Um mundo assombrado por demônios. Tradução de Rosaura Eichemberg. SP: Companhia das Letras, 1996.

NOTA DE CONSTELAR:

Este trabalho foi selecionado para apresentação pública no XI Congresso Gente de Astrologia, em Buenos Aires, em junho de 2007, concorrendo com textos de toda a América Latina. Cristina Machado não pôde comparecer, mas seu texto, em versão espanhola, foi integrado à coletânea do evento, distribuída em CD.

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