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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 108 :: Junho/2007 :: -

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ASTROLOGIA, LITERATURA E PSICOLOGIA

Um Pequeno Príncipe entre Marte e Júpiter

Ricardo D. Coplán

Um piloto que não aceitava a aposentadoria

Em todas as suas obras e cartas expressa um elevado nível de idéias, com um exacerbado idealismo (Netuno na X) que se manifesta também em artigos jornalísticos e como correspondente de guerra na Espanha, nas épocas mais sombrias daquele país. E apesar de ter combatido como piloto de guerra no exército aliado, ter participado de mil aventuras, haver-se comprometido politicamente nas difíceis horas da França ocupada (tudo isso indicado em sua carta natal pela oposição de Netuno na X, como já dissemos, com Saturno na IV, em Capricórnio), continuava tendo um irrefreável desejo de vôo. Diz em uma carta de 1944, o ano de sua morte: "Faço a guerra o mais profundamente possível. Sou, por certo, o decano dos pilotos de guerra do mundo... Vi de tudo desde minha volta à esquadrilha. Conheci as avarias da máquina, o desmaio por vazamento do tanque de oxigênio, a perseguição por caças, e também o incêndio em vôo. Pago bem. Não sou avaro, e me sinto um carpinteiro são. É minha única satisfação. E também passear em vôo solitário, somente eu e meu avião, durante horas sobre a França, tirando fotografias. É uma coisa estranha." (53)

Na mesma carta diz mais adiante algo que é como a confissão do rei sozinho, e que além disso é quase um preâmbulo da aparição do jovem das estrelas na obra O Pequeno Príncipe: "Não tenho ninguém, nunca, com quem falar. Isso já é alguma coisa. Tinha com quem viver (refere-se à separação de sua esposa), mas que solidão espiritual!!" (54).

Ou seja, havia vivências ou formas de pensar ou de entender o mundo que Saint-Exupéry não encontrava com quem compartilhar, um mundo como o daquele rei aquariano a que fizemos referência.

É difícil dizer se realmente nosso escritor deu materialidade à vida, como sugere a simbólica da escada cósmica, ou na realidade concretizou o processo inverso de espiritualização ou de busca espiritual, que, em sua forma mais concreta, levou-o a morte.

Depois de diversas tentativas frustradas, Exupéry obtém a desejada autorização para voltar a voar em missões militares. Se bem que já fosse considerado um tanto idoso para pilotar, recebe cinco missões, a primeira em 14 de junho de 1944. Em 31 de julho, decola às 8h30 para sua última missão, na região de Grenoble. Às 14h, sem qualquer notícia sobre ele, seus companheiros o dão como desaparecido.

Depois dos 40 anos queria continuar voando em missões de guerra, numa idade que já era excessiva para tal tarefa. Tentou durante vários meses, até que no final conseguiu retornar a sua esquadrilha de reconhecimento. Além das razões patrióticas, havia outra de muita importância pessoal: continuar desfrutando do vôo.

Não suportava os trabalhos administrativos e burocráticos, se bem que teria exercido um papel mais útil se os aceitasse, tendo em vista suas relações e influência. Não obstante, usou essas mesmas relações para obter a autorização de vôo, após vários meses de negativas por parte do comando aliado. A partir daí começa a ter lugar uma seqüência de fatos que acabaram por levar Saint-Exúpery ao desenlace fatal, em 31 de julho de 1944, quando desapareceu junto com seu avião.

Em 6 de junho decolou em sua primeira missão, que era fotografar vários objetivos simples na região da Marselha; um incêndio em seu motor esquerdo obrigou-o a voltar antes de chegar à zona do objetivo (55).

A segunda missão foi em 15 de junho, e quase desmaiou quando o regulador de oxigênio apresentou um defeito. Em 24 de junho aterrissou pensando que tudo ia bem, quando notou que não conseguia parar uma das hélices e que um único motor fazia todo o trabalho. Como diz Curtis Cate, seu biógrafo, "era um exemplo dessa distração que fazia sacudir a cabeça de seus camaradas" (56).

Em 29 de junho de 1944, dia de seu aniversário, a missão em pauta era fotografar a região do lago de Annecy, à qual associava profundas e numerosas lembranças de infância. O turno cabia a outro piloto, mas ele suplicou que trocassem, quase como um presente de aniversário, para voltar a percorrer aquela região de tantas lembranças. Logo depois de decolar, perdeu um motor; sabia-se assim alvo fácil para um caça alemão, razão pela qual fez um desvio para os Alpes, onde havia menos bases inimigas e ele teria a possibilidade de mergulhar num vale se visse um caça à distância. Abaixo de seu avião, as montanhas se transformavam pouco a pouco em bases de encostas e colinas (57). De repente, descobre uma planície, nela uma grande cidade, e ao redor numerosas pistas de aviação. Em sua traseira aparece um caça: "Enfio a cabeça na cabine e espero. Meu pobre Antoine, desta vez estás acabado. Uma última lembrança, todos os que me esperam esta tarde, vigiando o horizonte... mas por que demora tanto a morte?" (58). O caça o tomara por um amigo. "Reconheço Gênova e ao mesmo tempo volto a ver as muitas bandeirolas cravadas sobre esta cidade; é uma cidade muito protegida" (59).

Um balde de água fresca no deserto da Segunda Guerra Mundial

Em carta que escreveu a seu amigo Pellissier diz: "Exerço uma estranha profissão para minha idade. O mais velho, depois de mim, tem seis anos menos do que eu. Mas prefiro esta vida: o café da manhã às 7 horas, a comida, a tenda de campanha ou o quarto pintado de cal, em seguida, 10.000 metros de altitude em um universo inédito: é melhor que o ócio atroz de Argel" (lugar onde se refugiara quando da queda da França ante os alemães) "Para mim é impossível descansar e trabalhar na provisoriedade do limbo. Ali me falta o sentido social. Mas escolhi o gasto máximo e, como sempre, terei que ir até o extremo de mim mesmo, e não retrocederei. Desejo que esta sinistra guerra termine antes que me tenha extinguido por completo, como uma vela em combustão. Tenho outro trabalho para fazer mais adiante" (60).

Além destes fatos, houve outros que puseram em perigo sua vida, todos relacionados com esquecimentos e distrações. Dizia simplesmente, "terminarei como meus amigos" (fazendo referência ao fato de que era o último que restava de seus velhos camaradas da AeroPostale). Em uma despedida disse: "estou seguro que não voltarei a vê-la".

Vamos ao astrológico. Curiosamente, na revolução solar de 1943 Exupéry tem o Ascendente em 29° de Sagitário, a escassos 30'' da conjunção com Saturno natal: é o reconhecimento da idade, o ancião. Coisa que não pôde fazer, já que continuou insistindo em voar em missões de guerra, além de que o Ascendente do ano estava em sua casa IV (o final da vida, a última etapa), em oposição a Netuno natal na X em 27° de Gêmeos (esquecimentos, distrações na profissão, idealismo em oposição à realidade). Esta configuração relaciona-se com os ideais de Exupéry: estar em atividade, não ser um burocrata, e sim um combatente. Além do mais, esta mesma Revolução Solar (de 1943) apresenta Netuno na casa IX (confusões e esquecimentos em viagens longas), enquanto Plutão localiza-se a apenas 5° da cúspide da casa VIII, o que pode fazer referência à dissolução do casamento na mesma época. Outro fator a considerar é a conjunção (aplicativa e com apenas 38 segundos de órbita) entre Saturno e Mercúrio, o Velho e o Jovem no mercurial signo duplo de Gêmeos, e na casa VI, indicando um trabalho sobre a questão da idade.

Em suma: o arquétipo materno estava fazendo das suas através de Netuno, com sua cota de confusão. Como disse alguém, em algum momento deste período Saint-Exupéry manifesta um desejo de morte, tipicamente relacionado com o complexo materno.

A Revolução Solar do ano seguinte, 1944, ano de sua morte, apresenta Plutão em 7° de Leão, a somente um grau da Lua natal, com tudo que isto pode significar para um canceriano.

É curioso que, na Revolução Solar de 1944, o regente da casa da morte, Júpiter, esteja conjunto a Marte em Leão na casa V. Parece que morreu num estado de exaltação de sua própria identidade e vocação, com toda a audácia de que é capaz um Marte em conjunção a Júpiter, e aqui encontramos novamente os planetas que dão título a nosso trabalho. Parece que o puer queria inconscientemente voltar para o seio materno. É curioso: ao reivindicar a execução da atividade mais arriscada, movia-o o desejo secreto de morte, de voltar para a mãe-terra, coisa típica do puer.

E aqui podemos ver o que acontece com o Pequeno Príncipe: ele volta para seu asteróide fazendo-se picar por uma serpente do deserto. Textualmente: "Parecerá que sofro... parecerá um pouco que morro". Também: "Parecerá que morri, e não será verdade..." e ainda: "é muito longe. Não posso levar meu corpo ali. É muito pesado." (p. 94).

Parece que nosso Pequeno Príncipe desejava voltar para o lugar de onde veio, e sem o corpo, quer dizer, em espírito.

E Saint-Exupéry também tinha esse desejo espiritual irrefreável que leva certas almas a desdenhar a vida corpórea, pondo-a em perigo, para poder viver uma vida mais alta, uma vida espiritual.

Situação coletiva

Não devemos vasculhar apenas a psicologia pessoal do escritor para compreender-lhe a obra artística: temos que compreender também que mensagem coletiva deve manifestar, e que relação tem o conteúdo da obra com a consciência de sua época (E) (62).

Se existe algo que seja característico deste personagem, é sua ingenuidade, esse dom antigo que faz pensar no paraíso, no "pastarão juntos o leão e o cabrito" da Bíblia. O Pequeno Príncipe é um ser que nos remete ao princípio, ao paraíso terrestre original, razão pela qual, ao voltar a seu asteróide, é picado por uma serpente, que é como o ouroboros da alquimia, a serpente que morde a própria cauda, que é a roda interminável da origem sempre voltando para si mesma, e assim se fazendo eterna. Por outro lado a serpente também pode ser a astúcia da terra que nos pica, e esta é outra vertente do mesmo símbolo.

Tais características são evidentes no livro desde o começo, e em meu entender são o motor que nos faz lê-lo uma e outra vez com esse prazer, digamos, infantil.

No nível coletivo, O Pequeno Príncipe funciona como um balde de água fresca no meio do deserto humano da Segunda Grande Guerra (recordemos que foi escrito em 1942). Aqui nos referimos ao aspecto positivo do puer aeternus, que é essa capacidade de estar perto da fonte da vida, como os meninos, o que exerce um efeito rejuvenescedor sobre as pessoas que encarnam o arquétipo oposto, o senex, modelo do esgotado e do que chegou ao fim (o deserto). Este é um exemplo possível de como expressar a polaridade Mercúrio-Saturno.

Em segunda instância, O Pequeno Príncipe é um extraterrestre, vem de outro planeta. E é sabido que em 1942, época em que esta encantadora história começou a ser escrita, começaram a proliferar as notícias de OVNI, cuja quantidade aumenta grandemente após o fim da guerra (Segunda Guerra Mundial).

Segundo Jung, que também se ocupou deste tema, embora, naturalmente, considerando-o como fenômeno psíquico, durante a Segunda Guerra Mundial foram observados na Suécia misteriosos projéteis, que se supunha terem sido inventados pelos russos; também luzes que acompanhavam os aparelhos de bombardeio aliados, em suas incursões à Alemanha; logo se seguiram as profusas observações de pós-guerra nos EUA, até chegar ao conhecido caso Adamsky, em 1952, que disse ter viajado à Lua em uma nave tripulada por venusianos. Jung estima que os OVNIs ou "discos voadores" são objetos de estrutura mandálica, de forma circular ou esférica - embora haja também com forma de "charutos", quer dizer, cilíndricos -; e que têm a propriedade de irradiar luz intensa de diferentes cores.

A mandala como símbolo de totalidade



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