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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 108 :: Junho/2007 :: -

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URANO EM PEIXES NA HISTÓRIA DO BRASIL

Ventania sobre Pindorama:
os antropófagos estão de volta

Fernando Fernandes

Com Urano em Peixes, nasce um novo continente

1500-1508
  • Expedições exploradoras - Américo Vespúcio.
  • Antropofagia - 1501 em diante.
  • Relatos fantásticos.
  • Mundo Novo - 1506.
  • América - 1507.
  • Brasil vira tema de best-seller.
  • Inspiração de utopias.

Comentários:

Este primeiro trânsito de Urano em Peixes inicia-se em 10 de maio de 1500, apenas dez dias após a partida da esquadra de Pedro Álvares Cabral. Num Brasil onde a presença européia ainda é quase inexistente, não é possível falar por enquanto em conflito de classes ou convulsão social. Mas é impressionante observar como, no decorrer deste trânsito, o imaginário do homem comum da Europa é poderosamente mobilizado pela chegada dos primeiros relatos sobre o novo continente. Em 1504 começam a circular cópias impressas da carta Mundus Novus, em que Américo Vespúcio (direita) faz relatos parcialmente verdadeiros, parcialmente fantásticos sobre suas viagens a terras brasileiras. Em 1505 publica-se outro relato, que ficou conhecido apenas como Lettera (carta). Em 1506 uma nova tradução de Mundus Novus vem à luz, com grande sucesso. Para os padrões da época, é um best-seller. Inspirado em Vespúcio, alguns editores alemães decidiram lançar, em 25 de abril de 1507, um panfleto intitulado Quattuor Americi navigationes ("Quatro Viagens de Américo"). Martin Waldseemüller, um profesor de cartografia, insere no panfleto um mapa do novo continente, aplicando-lhe pela primeira vez o nome América. Daí em diante, a perspectiva de um mundo novo, pleno de liberdade e de possibilidades ilimitadas, atiça de vez a imaginação do europeu comum. Daí em diante, também, a imigração para o Novo Mundo passará a ser uma perspectiva real que cada europeu oprimido e injustiçado passará a considerar. Cabe não esquecer que a principal fonte de inspiração para as cartas de Vespúcio foram suas viagens (reais ou inventadas) às terras brasileiras.

A obra-prima A Ilha da Utopia, a Melhor das Repúblicas, do filósofo Thomas Morus, lançada em 1516, é claramente inspirada na noção de um "novo mundo". Tudo isso - utopia (em grego: um não lugar), relatos fantásticos, atiçamento da imaginação - tem a ver com Urano em Peixes.

Enquanto isso, nem todos as tribos indígenas se deixam enganar por miçangas e espelhos. Muitos europeus, nestes primeiros anos, descobrem na própria carne a dura realidade do tratamento dado aos prisioneiros em terras brasileiras. A prática da antropofagia inspira terror e faz disseminar entre os europeus a visão dos índios como bárbaros. São eles, mais precisamente, os primeiros bárbaros de Urano em Peixes.

1584-1592
  • Guerra contra os bárbaros: extermínio sistemático de tribos nordestinas.
  • Denúncias sobre devassidão de costumes no Brasil (ameaça à Igreja e ao Estado).
  • "Demonização" do índio.
  • Visita da Inquisição.

Comentários:

Uma das marcas mais visíveis da segunda passagem de Urano em Peixes na história do Brasil é o acirramento dos combates entre os colonizadores, cada vez mais numerosos e ávidos de terras, e as tribos nativas, que se defendem com o máximo ardor. É um momento de radicalização das relações entre os dois povos, com a vulgarização da prática do extermínio sistemático de tribos inteiras. Como justificativa, o índio é apresentado como um selvagem, um bárbaro, um risco, enfim, para a civilização que se pretendia implantar.

Após oito décadas de exploração colonial, o Brasil começava pouco a pouco a distingüir-se da metrópole portuguesa em termos de composição populacional, valores sociais, hábitos e comportamento. Os relatos que chegavam à Europa davam conta de uma liberdade social e sexual que jamais poderia ser consentida pelos colonizadores, especialmente num momento em que a Europa reforçava seus valores morais em função da contra-reforma e da severa atuação da Inquisição. E mais: desde 1580, com a União Ibérica, Portugal estava submetido aos rigores da casa real espanhola, onde pontificava, naquele momento, a figura austera do rei Felipe II. Era inevitável que o braço da Inquisição viesse a alcançar o Brasil, especialmente porque a cana-de-açúcar vinha tornando ricas no nordeste algumas famílias de cristãos-novos (judeus convertidos ao cristianismo). Sempre era possível acusar tais famílias de manterem em segredo seu culto proibido. Os processos abertos na época foram muito lucrativos para alguns grupos de interesse, já que resultaram no confisco dos bens dos acusados e na transferência de seu patrimônio para o Estado, para a Igreja e para oportunistas de plantão.

A chegada do inquisidor Heitor Furtado de Mendonça causou grande impacto nas regiões visitadas. Recebido com grande autoridade e ostentação, (...) o visitador introduziu as formalidades características da prática inquisitorial: a afixação do edital da fé, obrigando todos a delatar ou confessar as heresias sabidas ou praticadas (...).

Nesse período, o domínio do tribunal ia além dos suspeitos de judaísmo: inserindo também os cristãos-velhos no rol de condenados, a Inquisição assumira as inquietações da Contra-Reforma com o avanço protestante e a tentativa de disciplinar o clero e os fiéis. O crime de heresia passa a incorporar, na altura, os desvios da fé, costumes e comportamentos, morais e sexuais, que contrariavam a ortodoxia da religião cristã. Afirmar que não havia pecado na fornicação, contestar a existência do purgatório, seguir a “seita de Lutero”, a prática da sodomia, a bigamia, a blasfêmia, a feitiçaria e o pacto com o diabo, ou mesmo contestar a pureza da Virgem Maria, a virtude dos Santos e da Santíssima Trindade eram “crimes” passíveis de serem julgados pelos inquisidores.

Durante a visitação, foram instaurados processos contra bígamos, feiticeiras, blasfemos e sodomitas, com a prisão e o envio de réus para Lisboa.

(Domingues, Evandro. O Tribunal da Inquisição no Brasil. In www.ciadaescola.com.br.)

O uso intensivo do terrorismo de Estado como forma de intimidação e conformação social, assim como o surgimento de comportamentos de resistência, dão o traço de radicalização que voltará a se repetir em todas as demais passagens de Urano em Peixes.

1668-1675
  • Auge da extensão do poder do quilombo dos Palmares.
  • 1668: Tratado da União Perpétua entre senhores de engenho.
  • Guerrilha - atos de terrorismo.
  • Em São Paulo: bandeirantes desistem do Sul e focalizam Minas Gerais.
  • Expedição de Fernão Dias.

Comentários:

Quando Urano entra mais uma vez em Peixes, em 1668, a situação político-militar no nordeste brasileiro chega também a um ponto crítico. O quilombo dos Palmares está em seu momento de apogeu, com força suficiente para manter uma guerrilha em plena região canavieira. Freqüentemente bandos armados de quilombolas invadem fazendas, matando os proprietários, incendiando tudo o que encontram pela frente e libertando os escravos. Vive-se um clima de terror, o que leva os senhores de engenho a buscar uma solução pelos seus próprios meios, firmando o Tratado de União Perpétua. Num primeiro momento, o que os senhores de engenho têm a opor aos quilombolas não é uma força militar oficial, mas uma milícia particular - o mesmo fenômeno que viria a surgir no Rio de Janeiro, nos dias de hoje, quando as milícias ocupam o espaço que deveria ser do Estado!

A guerra oficial do governo de Pernambuco contra Palmares começa em 1671. Nos anos seguintes, há uma sucessão de ataques a Palmares logo seguida de represálias dos quilombolas contra as vilas e engenhos de Pernambuco e Alagoas. O clima é de total insegurança, com reflexos na vida econômica e política.

(fotos: divulgação do filme Quilombo, de Cacá Diegues)

Apenas após Urano sair de Peixes a reação oficial começa a tornar-se mais organizada e conseqüente. Os momentos mais conhecidos do fenômeno de Palmares são exatamente esses anos finais, que começam com a passagem de Urano por Áries, quando Zumbi assume o poder e tenta organizar a defesa de Palmares. Terá pela frente o cruel sertanista Domingos Jorge Velho, que em 1695 conseguirá finalmente destruir o que ainda restava do quilombo. O fato, porém, é que o reino de Palmares jamais voltaria a ser tão poderoso e tão agressivo quanto naqueles anos em que Urano transitava no signo de Peixes.

Ao mesmo tempo em que senhores e escravos se enfrentam no nordeste, um grupo de aventureiros mestiços - os bandeirantes de Fernão Dias - abre picadas no sertão, desrespeitam fronteiras e normas para explorar novos territórios, e prepara as condições para a grande virada da vida colonial: o ciclo da mineração.

1752-1759
  • Pombal governa em Portugal: "déspota esclarecido".
  • Ouro de Minas - produção em queda.
  • Arrocho nos impostos (mais após 1755).
  • Esquemas de corrupção e contrabando.
  • Jesuítas: "façanhoso projeto" de "usurpação de todo o estado do Brasil".
  • Prisão e expulsão dos jesuítas.

Comentários:

Quando Urano chega mais uma vez a Peixes, Portugal vive uma situação peculiar. As colônias do Oriente estão perdidas, as reservas do reino, esgotadas. Durante o reinado de D. José I quem governa na prática é a figura forte do Marquês de Pombal, que toma uma série de medidas duras para recuperar a antiga glória lusitana. No Brasil, a produção do ouro de Minas Gerais está em franca decadência, com o esgotamento dos principais veios. A solução é um arrocho geral nos impostos, o que revoltará a colônia, criando a inquietação que levará à Inconfidência Mineira. Mas Pombal vai além, desmontando o poder dos jesuítas, poderosos a ponto de constituir uma espécie de Estado paralelo dentro do reino. No último ano da passagem de Urano em Peixes todos os jesuítas do Brasil são presos e deportados e seus bens confiscados pela Coroa. A conseqüência imediata é o desmonte do sistema educacional, até então sob exclusivo controle da Ordem, do que resultará um longo período de desorganização, mas, por outro, de menor influência da Igreja na formação da mentalidade colonial.

A cena de centenas de frades em fila, amarrados e conduzidos para as prisões (como no quadro à esquerda), deve ter causado, na época, um choque comparável ao da descoberta do envolvimento de grandes figuras da política nacional em escândalos como o do Mensalão ou da Operação Navalha. Escândalos e desmoralização pública envolvendo religião e ideologias é uma das marcas registradas de Urano em Peixes.

 

O "vulcão da anarquia"



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