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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 123 :: Setembro/2008 :: -

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A ASTROLOGIA COMO CAMINHO ESPIRITUAL

Os signos fixos, a esfinge e os mitos do apego

Divani Terçarolli

Touro, Leão, Escorpião e Aquário expressam diferentes formas de apego que precisam ser superadas para que o ser humano reencontre sua ligação com o Todo. A esfinge de Gizé e a simbologia dos mitos fornecem pistas para ilustrar esta caminhada.

Aprendi Astrologia ouvindo meu velho mestre, o prof. Waldyr Fücher, dizer que a Bíblia é o livro mais astrológico do mundo. E ele sabia o que estava dizendo, como nesta passagem do Antigo Testamento: “O brilho das estrelas faz a beleza do céu, adornam de luz as alturas do Senhor. À palavra do Santo, prontas a executar-Lhe as ordens, como sentinelas incansáveis se mantêm” (Eclesiastes, 43. 10 -11).  Nesta outra, temos o princípio dos trânsitos astrológicos: “Para tudo há um tempo debaixo do Sol” (Eclesiastes 3. 1-8). A referência ao eixo Virgem/Peixes pode ser observada na passagem em que Jesus abençoa cinco pães e dois peixes, alimenta a multidão que o seguia, e ainda faz seus discípulos encherem 12 (!) cestos com as sobras (Mateus 14. 18-20).

Multiplicação dos pães

Mosaico representando a multiplicação dos pães e dos peixes na
Igreja da Multiplicação - Tabgha, ao norte do Mar da Galiléia.

O Livro de Jó, homem justo que sofreu até o limite de suas forças, mas não perdeu sua fé, nos remete aos duros trânsitos de Saturno, ou até mesmo de Plutão. Carl Gustav Jung escreveu seu livro “Resposta a Jó” durante um trânsito difícil de Saturno, segundo sua filha Gret B. Jung. Não só as histórias da Bíblia judaico-cristã começam a fazer sentido, mas os textos sagrados, filosóficos e mitos de diversas tradições, chaves para o autoconhecimento, afirmam as mesmas verdades. Começamos a ver similaridades entre as palavras de Buda, Lao Tsé, Cristo, Krishna,  e a entender que tudo enfim provém da mesma fonte. 

A Astrologia é uma das mais antigas chaves para o autoconhecimento, talvez a mais adequada delas disponível ao homem moderno. No axioma hermético "O que está acima é como o que está embaixo“, nesta analogia entre Macrocosmos e Microcosmos, vemos similaridade com a mais conhecida oração cristã: “Seja feita a Sua vontade, assim na terra como no céu.” E assim, acredito que a Astrologia tem um tremendo potencial para desempenhar um papel importante na busca do ser humano pela totalidade, que nada mais é do que a nossa re-união ao Todo.

Um dos livros mais misteriosos e ricos em simbolismo astrológico da Bíblia é, com certeza, o Apocalipse de João. Vejamos:

Havia diante do trono um mar límpido como cristal. Diante do trono e ao redor, quatro Animais vivos cheios de olhos na frente e atrás. O primeiro animal vivo se assemelhava a um leão; o segundo a um touro; o terceiro tinha um rosto como o de um homem; e o quarto era semelhante a uma águia em pleno vôo. (Apocalipse 4. 6-7)

Os mesmos animais citados no livro bíblico podem ser vistos no monumento egípcio conhecido como Esfinge de Gizé, uma estranha figura formada por partes de quatro diferentes animais:  cabeça  humana,  cauda e garras de leão,  corpo de bezerro e  asas de águia. Um enigma! Mas qualquer astrólogo pode reconhecer aqui os quatro signos fixos: Leão, Aquário, Touro e Escorpião.

Historiadores têm discordado com relação à idade desse monumento. Até alguns anos atrás se pensava que tinha a mesma idade das pirâmides que ela parece "guardar", mas, recentemente, novos estudos indicaram que a Esfinge pode ter dez mil e quinhentos anos - mais do que o dobro da idade das pirâmides.

EsfingeAcredito que a Esfinge é uma síntese. Talvez, seus construtores, com certeza conhecedores da Astrologia, tenham desejado fazer chegar à Humanidade do futuro a mensagem contida nos elementos e qualidades desses quatro signos: Leão, Aquário, Touro e Escorpião.

Enquanto os signos fixos representam qualidades como estabilidade, segurança, preservação e manutenção do status quo, a doutrina Budista afirma que todas as coisas materiais são transitórias, impermanentes, e que todo sofrimento presente no mundo deriva de nossa tendência de apego às formas fixas, sejam objetos, pessoas ou coisas, em lugar de aceitarmos o mundo à medida que ele se move e se transforma. No Budismo, o mundo material é Samsara: o movimento incessante. A insatisfação e o sofrimento são o resultado de anseios ou desejos que não podem ser plenamente realizados, e estão atrelados ao nosso desejo de poder.

O físico Fritjof Capra, em seu livro O Tao da Física, nos fala:

Buda não estava interessado em satisfazer a curiosidade humana acerca da origem do mundo, da natureza do Divino ou questões desse gênero. Ele estava preocupado exclusivamente com a situação humana, com o sofrimento e frustrações dos seres humanos. Sua doutrina, portanto, não era metafísica: era uma psicoterapia. Buda mostrava a origem das frustrações humanas e a forma de superá-las.

Segundo ele, a única maneira de nos livrarmos do sofrimento é controlar os desejos, o que não significa exterminá-los, mas sim, não ser controlado por eles, nem acreditar que a felicidade está atrelada à sua satisfação. Desapego é a palavra-chave. O ideal budista é a moderação: em tudo devemos seguir o “dourado caminho do meio.”

Sempre ouvi meu mestre se referir à cruz dos signos fixos como o Caminho do Discipulado. Estabilidade, segurança, preservação e manutenção do status quo, os fixos não gostam de mudança, e nem querem ouvir falar desse tal movimento incessante...

Quando tentamos reter, segurar coisas, pessoas e situações para sempre conosco, sofremos, pois estamos contrariando a ordem natural. Isso é apego. Portanto, a chave para nos libertarmos do sofrimento é o desapego.

Em Leão, signo de Fogo, o apego à essência, à identidade (personalidade), a ilusão de auto-importância e seus derivados, como o orgulho, é que deve ser abandonado. Em Touro, signo de Terra, o apego material, aos bens, dinheiro, ao prazer e conquistas materiais. Em Aquário, signo de Ar, o apego intelectual e social, às idéias preconceitos e conceitos de honra e desonra, a necessidade de aceitação social, dos amigos, nos fazem sofrer, enquanto em Escorpião, signo de Água, o apego emocional e sentimental, apego às pessoas e coisas que amamos e situações a que nos habituamos é o que nos tortura mais intensamente.

Enfim, sofremos toda vez que perdemos alguma dessas coisas às quais temos apego, toda vez que algum desses objetos de nossos desejos é removido, tirado de nós.

A escritora e clarividente inglesa Joan Cooke enumera as lições dos elementos que a alma precisa aprender para evoluir: as pessoas de Fogo precisam aprender o amor; as pessoas de Água, a paz; as pessoas de Ar, a fraternidade; e as pessoas de Terra, o serviço.

Vamos agora tentar compreender melhor cada tipo de apego através dos mitos e de textos sagrados de várias procedências.

Touro: o mito de Teseu e o Minotauro

Minos, rei de Creta, pediu a Poseidon deus do mar, que o ajudasse a conseguir a supremacia dos mares e a fazer Creta prosperar. Em troca ele sacrificaria seu mais belo touro branco em honra do deus. Poseidon, que era representado em forma de touro, atendeu ao pedido de Minos, mas este se esqueceu da promessa e sacrificou um touro de qualidade inferior. Ofendido, o deus fez com que Afrodite, deusa do amor, insuflasse em Pasífae, esposa de Minos, uma ardente paixão pelo touro branco. Pasífae uniu-se ao touro e desta união nasceu o monstruoso Minotauro, metade homem, metade touro, que só se alimentava de carne humana.

MinotauroTeseu, Ariadne e o Minotauro, em cerâmica grega do período clássico (aproximadamente 550 a.C.).

Minos, com medo e vergonha, mandou construir o labirinto para esconder o monstro. Jovens eram deixados ali para que o Minotauro os devorasse. Teseu, filho de Poseidon com a princesa Etra, noiva de Egeu, rei de Atenas, resolveu enfrentar o monstro e parar com o sacrifício dos inocentes. Assim que chegou a Creta, Ariadne, filha de Minos,  apaixonou-se  por ele e se ofereceu para ajudá-lo se, em troca, ele se casasse com ela e a levasse com ele para Atenas. Então ela lhe deu um novelo de fio de ouro para guiá-lo no labirinto. Ele penetrou no labirinto, encontrou o Minotauro e o matou com sua clava, saindo de lá vitorioso.

Minos pecou ao reter para si o que não lhe pertencia, ele é o tirano que se apropria dos bens coletivos e por isso, a nação fica estagnada. O touro é um símbolo do poder que provém de deus e tem que ser a ele dedicado. É uma investidura. O touro não pode dirigir o homem assim como as paixões não podem dominar o Eu. Tem de haver um ponto de equilíbrio na relação entre o ego e os instintos, a grosseria e a graça. O mito destaca o poder do desejo como a força dominante - desejo por comida, bebida, conforto, sexo, status, dinheiro etc. O labirinto significa o inconsciente, o turbilhão das emoções humanas e a fera que habita em seu interior. O fio de Ariadne representa  a sabedoria.  

Pilatos então lhe disse: Tu não me respondes? Não sabes que tenho poder para te soltar e para te crucificar? Respondeu Jesus: Não terias poder algum sobre mim, se de cima não te fora dado. Por isso, quem me entregou a ti tem pecado maior.  (João 19. 10-11)

Touro, signo de Terra, é a matéria. Rege a boca, por onde falamos e nos alimentamos. É o Verbo Divino que traz à existência, que materializa  tudo o que a mente, divina ou humana, concebe.

No princípio era o Verbo... (João 1.1)

Ouvi e compreendei. Não é aquilo que entra pela boca que mancha (faz o homem impuro) o homem, mas aquilo que sai pela boca, isso é que faz o homem impuro. (Mateus 15. 11)

O que importa é o que vem de dentro do coração, e não o que entra dentro de nós. Viver e usar a matéria não contamina o espírito.

O verbo relacionado a Touro é calar, controlar, estar no comando, ou dominar a natureza  material, é a tarefa mais difícil que o ser humano deve realizar, pois a posse material gera o apego, donde provém o ciúme, a inveja, a cobiça etc. 

Escorpião: o mito de Hércules e a Hidra de Lerna



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