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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 106 :: Abril/2007 :: -

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ASTROLOGIA E FILOSOFIA

As cartas de Saturno

Alexey Dodsworth

O estoicismo, corrente de pensamento largamente difundida no mundo greco-romano, pode ser definido como uma filosofia saturnina, como comprova a leitura das Cartas a Lucílio, de Sêneca. Com este trabalho de resgate e interpretação da obra do principal conselheiro do imperador Nero, Alexey Dodsworth conquistou o primeiro lugar do concurso de textos inéditos promovido pelo SINARJ, em 2006. O trabalho resultou em uma das palestras mais concorridas do Simpósio Nacional daquele ano.

As características simbólicas associadas ao planeta Saturno na astrologia são geralmente tidas como "maléficas". Não se trata, todavia, de um problema do planeta e de seus símbolos em si, e sim da relação que a sociedade ocidental mantém com os significados saturninos. Somos uma cultura enfraquecida, que valoriza os prazeres fáceis e busca debelar qualquer coisa que nos teste a fibra e o caráter. Ultrapassamos Saturno, nos orgulhamos disso, mas ficamos presos aos significados mais perigosos dos planetas transpessoais: a busca por resoluções instantâneas [Urano], a anestesia das drogas e da vida artificial e virtual [Netuno] e, em conseqüência, mergulhamos no vazio existencial que tanto nos angustia [Plutão]. É preciso, portanto, fazer uma viagem de volta: voltar até Saturno. Esta viagem não é apenas simbólica, mas também temporal. É preciso resgatar uma filosofia antiga que reflita toda a inteireza de Saturno. Deste modo, poderemos desenvolver – cada um a seu tempo – a consciência que nos permitirá estabelecer um poder duradouro, o poder que vem de um caráter bem formado, de um corpo sustentado por um sólido esqueleto [Saturno].

Ruínas da stoa poikilê de Atenas.

O termo "estoicismo" vem do grego stoa poikilê, o pórtico pintado de Atenas, onde o saber estóico era transmitido. A verdade estóica se baseia na phantasia kataleptikê [percepção apreensiva]. Segundo os estóicos, a vida e o próprio curso da existência passam por ciclos criativos repetitivos, o que nos remete sem dúvida à astrologia, ao estudo dos ciclos e, sobretudo, ao estudo das qualidades do tempo [Saturno]. É preciso compreender a qualidade do momento e compreender esta qualidade como uma "reedição" ou releitura de algo que já ocorreu antes. Aquele que esquece o passado está fadado a repeti-lo no futuro.

Uma vez que este trabalho foi apresentado no último congresso do SINARJ, cujo tema principal era "o poder", vale salientar que o verdadeiro poder é o poder enquanto verbo conjugado por um sujeito operante, e não o substantivo. "Eu posso", diz aquele que percebe o próprio edifício da vida sustentado sobre bases bem sólidas. Esta base é Saturno, vislumbrado não como um ponto "maléfico" no mapa, mas como porta para o desenvolvimento de uma consciência madura. O Saturno natal e os trânsitos de Saturno permitem compreender experiências que nos conduzem espontaneamente a uma atitude mais estóica diante da vida.

A ética estóica é uma ética que se pauta na compreensão reflexiva, na meditação que conduz a um estado de imperturbabilidade, de serenidade e de paciência: virtudes saturninas que, se integradas, conduzem a uma paz duradoura e permitem o exercício do verdadeiro poder, aquele que exercemos sobre nós mesmos, sobre nossos aspectos mais animalescos e primitivos.

É importante apresentar alguns conceitos fundamentais para a compreensão da filosofia estóica, e demonstrar sua relação com a simbologia saturnina:

Direita: Zenão (ou Zenon) de Cítio (333 a.C - 264 a.D.), precursor do pensamento estóico.

PREMEDITATUM MALORUM - Termo em latim, que significa "premeditar o mal". Não no sentido de querer fazer o mal, mas de considerar o que pode acontecer, antecipando as coisas e exercitando o poder das previsões. Trata-se de uma prática estóica: se eu espero o que de pior pode ocorrer, caso ocorra o melhor, ficarei feliz; caso ocorra o que eu pensei, eu já o esperava. Não se trata de uma "filosofia do pessimismo", e sim de uma consideração ativa a respeito das possibilidades futuras, com o objetivo de preparar-se para elas. Há quem discorde disso peremptoriamente, sobretudo no Brasil, onde o cultural determina que "pensar sobre o que de ruim pode ocorrer" significa "atrair" isso. A prática estóica do premeditatum malorum nada tem a ver com pessimismo, e sim com previdência, uma virtude eminentemente saturnina.

Os profissionais da astrologia ouvem constantemente de alguns consulentes o pedido "não me diga nada de ruim". De fato, há de se considerar que um dos papéis do astrólogo é ser um estimulante para o consulente. Todavia, ser um estimulante, mostrar alternativas viáveis e positivas, não significa ignorar imprudentemente o mal possível. Os estóicos não acreditavam que o mal poderia ser atraído por se pensar nele. Ao contrário: eles criam que pensar sobre o assunto o afastava, pois tal reflexão permitia a consideração de possíveis alternativas para caso o dito "mal" ocorresse.

Note-se que a filosofia estóica tem com meta a busca pela felicidade, e isso também é altamente saturnino: a busca por uma felicidade duradoura, neste mundo, uma felicidade imanente, refutando a busca por paraísos incorpóreos e outros mundos. Sêneca, um dos principais filósofos estóicos, chamava todavia a atenção para o "bom premeditatum" e para o "premeditatum tolo". Dizia ele que existem dois tipos de "malignitudes":

  • Aquelas que podemos evitar ou corrigir;
  • Aquelas sobre as quais não podemos fazer nada.

A astrologia seria, portanto, ótima para lidar com o primeiro tipo de problema. Para o segundo tipo [as coisas que não estão no nosso poder de evitar], seria totalmente inútil ou, melhor dizendo, desnecessária. Podemos lidar com a eventual possibilidade de um desemprego, a partir dos trabalhos astrológicos de previsão e, a partir desta sabedoria, traçar empregos outros como alternativas. Mas buscar, por exemplo, o conhecimento de coisas que estão além do nosso poder [como, por exemplo, a data da morte], não faz sentido. O estoicismo chama, portanto, a atenção para as coisas que temos o poder de mudar. Acerca daquelas que estão fora do alcance da nossa interferência, o estoicismo apresenta uma resposta igualmente saturnina: a prática da ataraxia.

ATARAXIA – Trata-se de um estado de imperturbabilidade decorrente da meditação e da resignação consciente de que existem coisas sobre as quais não temos o poder de mudar. O maior poder, para os estóicos, está em saber aceitar que não é possível controlar tudo. Tal virtude é oriunda da profunda meditação e do exercício da introspecção, conduzindo a um contato com o "Saturno interior". É objetivo deste trabalho demonstrar como todos os seres são apresentados à necessidade do exercício da ataraxia em determinados momentos cruciais da vida, e que estes momentos podem ser identificados a partir do estudo dos trânsitos saturninos.

Tal "estado de paz" só é alcançado quando aprendemos a diferença entre as coisas que podemos mudar e aquelas que estão além do nosso poder, e cessamos de querer que todas as coisas sejam do nosso jeito. O maior poder, para os estóicos, decorre da mais profunda humildade. Reportamo-nos, a partir daí, à regência capricorniana dos joelhos: aquele que alcança o topo é ao mesmo tempo aquele que cultiva a humildade. Vale aqui lembrar que "humildade" tem a mesma raiz que "húmus", e a associação com o elemento Terra [Capricórnio] é inevitável. Curioso é também lembrar que "humor" tem também a mesma raiz, e que o mais profundo senso de humor é aquele capaz de rir das próprias limitações. Enganam-se aqueles que não reconhecem em Saturno o humor. As saturnálias romanas são as ancestrais do nosso carnaval. Nas saturnálias, o nobre voluntariamente tornava-se pobre por um dia, como uma forma de exercitar uma máxima estóica: o que está no alto pode, a qualquer momento, cair. E ao ritualizar tal maléfica possibilidade, o romano antigo "exorcizava" a perspectiva de tal evento ocorrer. Rir de si mesmo é a melhor forma de afastar de si o mal.

A ataraxia estóica é eminentemente prática: se é possível mudar um evento maligno, somos instigados a erigir planos estrategicamente elaborados para as coisas, com possibilidades sobressalentes caso as principais falhem. Trata-se, obviamente, de uma prática deveras saturnina.

Sêneca e as Cartas de Saturno



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