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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 105 :: Março/2007 :: -

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ENTRE O MITO E A FILOSOFIA

Um dizer no rasgar da carne

Kátia Lins

A leitura astrológica de nossos dias descende da linguagem mítica dos oráculos? Ou é fruto da racionalidade do discurso filosófico inaugurado pelos gregos?

"O que o mito quer dizer?" Quando fazemos essa pergunta, é certo que partimos do pressuposto de que o mito quer dizer uma outra coisa para além do que diz, ou seja, que a sua fala é uma alegoria. Entretanto, o mito é uma narrativa instauradora porque conta a história de como uma realidade passou a existir e, como tal, o mito é "tautegórico" e não alegórico porque sempre diz o que diz. (Schelling in Ricoueur, 1988, p.11)

A astrologia que hoje praticamos no ocidente deve a sua sistematização aos gregos. Desse modo, trata-se de um saber bastante comprometido com o discurso racional, mais especificamente, com o discurso filosófico de Platão. Entretanto, as origens da astrologia nos levam a caminhos outros, isto é, nos levam a pensá-la no contexto de uma linguagem mítica e oracular.

Embora os mitos ainda sejam a maneira mais ampla de se compreenderem os simbolismos dos planetas e dos signos, não podemos fechar os ouvidos para o fato de que se a astrologia "fala grego", o discurso mítico tem uma importância secundária em relação ao discurso filosófico-metafísico, porque a história do pensamento ocidental demonstra que desde que os gregos inventaram a filosofia ou o discurso da Razão, fez-se uma fissura no âmbito do discurso que separou o Mythos e o Lógos.

No livro II de A República (in Ricoeur, 1988) Platão é categórico ao dizer que há de se fazer uma escolha entre o Mythos e o Lógos. Entretanto, a antiga etimologia une os dois termos ao designar Mythos enquanto palavra ou discurso. Sendo assim, podemos compreender que somente após feita a separação entre os dois termos e, principalmente, pela escolha feita a favor do segundo em detrimento do primeiro, é que o mito passou a ser concebido como um discurso não racional. Dito em outros termos, foi preciso que os gregos inventassem a Razão para que o ocidente concebesse o mito como um discurso irracional, ilusório, fantástico e, quando muito, uma alegoria ou "invólucro" que encobre "verdades" a serem descobertas. Uma vez descobertas, essas verdades, os invólucros tornam-se absolutamente desnecessários já que não podemos esquecer que a hostilidade da filosofia em relação ao mito é uma questão de princípio, pois "procurar pelo fundamento e a razão do ser exclui o contar de histórias". (Ricouer, 1988, p.15)

Existem diferenças importantes entre uma leitura astrológica fundamentada no discurso metafísico platônico e a que se faz sob a orientação de uma linguagem mítica - que aqui defendo como sendo a mesma linguagem dos oráculos - que incidem, principalmente, nas possíveis relações entre sentido e memória.

Em Platão, a memória é compreendida como reminiscência, isto é, como um conhecimento esquecido que pode, portanto, ser re-conhecido. Segundo Platão, as almas conhecem as verdades ou idéias metafísicas, ou as que habitam o mundo inteligível, e delas se esquecem ao encarnar. Desse modo, a sua filosofia pode ser compreendida como o discurso que conduz as almas à recuperação desse conhecimento. Diferentemente, a memória mítica é uma revelação das Musas, filhas de Mnemosyne, a deusa Memória, que contam aos poetas como foi que uma realidade passou a existir. Portanto, o mito é uma memória que se revela em ato; no ato de contar histórias.

Essa memória é que se revela tanto nos mitos quanto nos oráculos, incluindo a astrologia. A essa memória em ato vou chamá-la de "memória estética"(do grego aisthesis, faculdade de sentir) pelo seu poder de criar realidades no rasgar da carne, ou seja, pelo seu poder de marcar o corpo com seus significantes. Em outros termos, suas palavras ganham sentidos na experiência ou à medida que vão sendo decifradas e não interpretadas.

Mircea Eliade (1907-1986), filósofo romeno com importantes estudos sobre mitos e símbolos.

De acordo com Mircea Eliade, o mito é sempre a narrativa de como uma realidade passou a existir. Sendo assim, como é possível interpretar o que sempre se diz pela primeira vez?

"... o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do "princípio". Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de uma criação: ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser. (Mircea Eliade, 1986, 2ª. Edição, p.11).

A partir da definição de Eliade, torna-se mais compreensível o balizamento entre interpretação e decifração. A interpretação me parece ser propriedade de um discurso que supõe conhecimentos, a priori, supostamente encobertos pelo invólucro de um outro discurso. Voltamos, pois, à condição de que, sob o olhar metafísico, os mitos são alegorias que querem dizer uma outra coisa.

Jorge Luis Borges nos conta sobre um certo Pierre Mernard, autor do Quixote, que em muito se aproxima dessa "memória estética" tal como compreendo a linguagem oracular da astrologia. Pierre Mernard se vê tomado pelo dever de reconstruir, literalmente, o D. Quixote de Cervantes.

"Não queria compor outro Quixote - o que é fácil - mas o Quixote. Inútil acrescer que nunca visionou qualquer transcrição mecânica do original; não se propunha copiá-lo. Sua admirável ambição era produzir páginas que coincidissem - palavra por palavra e linha por linha - com as de Miguel de Cervantes" . "(...) Dedicou seus escrúpulos e vigílias a repetir num idioma alheio um livro preexistente. Multiplicou os apontamentos; corrigiu tenazmente e rasgou milhares de páginas manuscritas."

Uma vez terminada a tarefa de Mernard, Borges se propõe a uma comparação entre os dois autores. Primeiramente, o que escreveu Cervantes:

[...] a verdade, cuja mãe é a história, êmula do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do futuro"

A seguir, o texto de Mernard:

[...] a verdade, cuja mãe é a história, êmula do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do futuro"

De uma maneira genial, Borges comenta que o texto de Mernard, "é muito mais rico" porque o texto de Cervantes, escrito no século XVII, " é um mero elogio retórico da história" enquanto o de Mernard, "contemporâneo de William James, não define a história como uma indagação da realidade, mas como a sua origem." A verdade histórica, para Mernard, segundo Borges, "não é o que se sucedeu mas "é o que pensamos que sucedeu." (Jorge Luis Borges in Garcia-Roza, 1996, p.37)

Borges continua seus comentários que aqui não cabe o seu desenrolar, mas é deveras fascinante ver em Borges o poder de criação de sentidos a partir dos mesmos significantes. De maneira semelhante, a astrologia que faz do mito a sua linguagem diz respeito ao destino que se inscreve no decifrar de suas marcas significantes. Como conseqüência, a astrologia mítica ou oracular não nos remete a uma memória de reminiscências ou ao reconhecimento do ser, porque o contar de histórias tem o poder de criar ou revelar o sujeito em atos do dizer.

Referências Bibliográficas

ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. São Paulo: Perspectiva, 1986.
GARCIA-ROZA, Luis Alfredo. Acaso e Repetição em Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.
RICOEUR, Paul. Grécia e Mito. Lisboa: Gradiva, 1988.

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