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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 164 :: Fevereiro/2012 :: -

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ENTREVISTA

Ipanema, urgente:
a astrologia passou no vestibular

Redação

Carlos Hollanda, em entrevista ao editor de Constelar, fala sobre os fundamentos transdisciplinares do Curso de Extensão em Astrologia que ele e Márcia Mattos coordenam a partir de março de 2012 na unidade Ipanema da Universidade Cândido Mendes.

CONSTELAR - Que motivos levaram a Cândido Mendes a abrir as portas para um curso de Astrologia?

CARLOS HOLLANDA - Não tenho como responder com toda precisão, pois seria o caso de contactar a própria diretoria da Unidade Ipanema para que eles mesmos pudessem participar da resposta. O que posso assegurar é que a Cândido Mendes Ipanema possui um Núcleo Transdisciplinar de pesquisas e cursos, bem afinado com a visão de pesquisadores como Edgar Morin e as mais avançadas linhas da Teoria da Complexidade. Eles aplicam essa filosofia em cursos desde os de graduação até os de extensão e pós.

Carlos Hollanda no Obelisco

A astrologia é um estudo essencialmente transdisciplinar e várias de suas dificuldades epistemológicas são atenuadas, outras resolvidas, diante da visão da Complexidade. Isso já foi uma abertura para um curso como o nosso. Junto a isso, uma parte do grupo que compõe a diretoria esteve entre meus alunos em cursos livres. Eles também foram meus clientes e, diante dos resultados das aulas e dos atendimentos, cogitaram um curso mais denso, com formação mais completa e sequenciada, diferente dos vários cursos esporádicos e curtos, muito específicos, que os astrólogos se vêem obrigados a montar nos último anos para fazer quórum. A proposta que fizeram era a de retomar o modelo de um grande curso de formação, como os que proliferavam nos anos 1980/90, mas então com base epistemológica mais afinada com o meio acadêmico e em conformidade com as bases teóricas que lhes eram caras.

Durante meus cursos em que os diretores estiveram presentes demonstrei que tenho um viés muito moriniano (de Edgar Morin) e feyerabendiano (do filósofo Paul Feyerabend), o que lhes chamou a atenção. Não sou o único. Aliás, vários astrólogos (e não-astrólogos) hoje buscam respostas nas proposições desses pensadores a respeito dos modelos científicos, sobre o que é ou não é ciência, sobre como diferentes saberes podem contribuir para visões mais consistentes e, acima de tudo, como formas aparentemente incompatíveis de saber ou percepção podem completar-se num todo coerente. A astrologia se encaixa nesses quesitos, sobretudo pela possibilidade que oferece de fazer coexistir racionalidade e elementos irracionais em sua lógica interna.

Pouco tempo após essa proposta inicial, e sem ainda estar com todo o projeto do curso pronto, passei integrar a diretoria do Sinarj - Sindicato dos Astrólogos do Rio de Janeiro. Entrei como diretor técnico, justamente a área de co-elaboração da parte de temas de eventos, avaliação de propostas de participantes, os elementos acadêmicos que porventura estivessem em pauta e outras funções ligadas à promoção de conhecimento e integração de associados. Uma das idéias aprovadas entre o grupo do Sinarj era a de apresentarmos alguns eventos menores antes do já aclamado Simpósio anual. Precisávamos de um espaço adequado e de um apoio sólido. Entrei em contato com a Cândido Mendes para saber se a eles interessava formar uma parceria conosco nesse sentido e eles concordaram, reforçando, ainda, a proposta anterior que me fora feita quanto ao curso de formação. A partir dali, começamos uma parceria com a Universidade para uso de seu auditório em eventos trimestrais do Sinarj. Desse relacionamento, da necessidade de dividir o trabalho com profissionais do mais alto gabarito, chegou a idéia de Márcia Mattos dividir comigo a tarefa de coordenar o curso. Era quase natural que isso ocorresse, já que ela estava também procurando reativar o sistema que utilizara há muitos anos na escola Astroscientia. Nesse caso, passamos a sintetizar nossos sistemas, aproveitando o que de melhor a experiência em cursos e escolas de astrologia cada um possuía.

Por fim, o fato de termos, eu e Márcia, pós-graduação stricto sensu, pesou na decisão de abrir o curso. A universidade não pode abrir mão do título de mestre e doutor para formar um curso de peso. E o melhor de tudo foi o contato com profissionais astrólogos excelentes que também tinham currículo acadêmico que poderiam compor o corpo docente. De qualquer forma, os resultados dos trabalhos falaram alto nisso tudo.

CONSTELAR - Normalmente a resistência à Astrologia dentro do meio acadêmico se concentra nas áreas de Astronomia e de Ciências da Saúde, especialmente Psicologia. Os cursos mais influentes dentro da Cândido Mendes são Economia e Direito. Isso contribuiu para que os velhos preconceitos não se manifestassem?

CARLOS HOLLANDA - Na verdade há mais áreas de resistência à Astrologia. Em História, Antropologia, Sociologia costuma-se crer que aquilo que os astrólogos julgam ser resultados não passa de uma crença de que esses resultados aconteceram. No máximo, se há qualquer eficácia, para tal visão, ela não passa da chamada "eficácia simbólica", algo que Lévi-Strauss explicara em seus textos mais célebres. Se o coletivo acredita que há uma "maldição", por exemplo, no caso de tribos indígenas pesquisadas, o indivíduo amaldiçoado realmente adoece e morre, pois vê-se excluído, deprimido etc., etc. Ocorre que essa visão é estereotipada com relação à prática astrológica. Não digo que a eficácia simbólica não possa estar presente em alguns casos de previsões que se autocumprem, mas falta uma verdadeira imersão desses pesquisadores no objeto que rotulam como ultrapassado e "mania" (como é o título do dossiê da Revista de História da Biblioteca Nacional de dezembro de 2011).

A visão é a de que a astrologia não passa de um modismo, uma mania (como trocar figurinhas) e uma credulidade infantil das pessoas. Os velhos preconceitos e estereotipagens se manifestaram sim, mas desta vez, com o apoio da diretoria da Unidade Ipanema, logo a resistência foi dissipada. Entretanto, ainda percebemos uma certa dificuldade, por exemplo, em encontrar a divulgação do curso no site principal da Universidade. Ela está lá, mas é preciso navegar um pouco mais para achá-la.

CONSTELAR - Quais as semelhanças e diferenças entre os projetos de vocês e da antiga Astroscientia, que funcionou no Rio de Janeiro nos anos 80/90? E com relação aos cursos de Astrologia dentro da Universidade de Brasilia e de extensão em Astrologia promovidos pelo prof. Raul Varella Martinez na UNESP?

CARLOS HOLLANDA - A base técnica em astrologia do curso é semelhante às que você mencionou. Como disse antes, nosso curso é uma síntese de estruturas entre as da Astroscientia, vindas pelo lado de Márcia Mattos, e aquelas das quais participei e ajudei a montar, como a Astro-Síntese (eu e Paulo Duboc) e a nossa (eu e Fernando Fernandes), em Astroletiva. Sendo uma estrutura sintética do ponto de vista da prática astrológica, acabamos por formar uma terceira coisa que não é nem a primeira nem a segunda e ficou bem amarrado. Mas talvez o principal diferencial esteja no elemento histórico, antropológico, mitológico e filosófico que agregamos. Apesar de isso sempre estar presente na maioria dos cursos, adotamos a já referida visão transdisciplinar e a da Complexidade, com um modelo que, apesar do viés acadêmico, não perde de vista os objetivos, entre eles o de formar bons intérpretes. Diferentemente, porém, dos demais cursos, nosso tempo está limitado em três anos: um ano e meio de formação e mais outro ano e meio de especialização. Foi preciso reduzir a quantidade de períodos para algumas disciplinas. O ideal seriam uns três períodos só para a área de Humanas (e na Inglaterra, no curso de Nicholas Campion na Universidade de Wales, são quatro anos para tudo), mas devido às necessidades do formato, optamos por oferecer aquilo que é fundamental para a prática da astrologia e o pensar epistemológico, para a argumentação diante de questionamentos acerca das bases astrológicas.

O curso da UnB e o da Unesp eram excelentes, e conheci melhor especialmente este último, via Raul Martinez. O da UnB, no entanto, enquadrava-se no núcleo de pesquisas sobre paranormalidade e, pelas informações que recebi, possuía um bom arsenal técnico para testar premissas, previsões e análises de mapas. O da Unesp tinha todo o rigor e precisão de Martinez, mas houve uma severa pressão acadêmica para seu fechamento na época. O nosso é mais voltado para a área de Humanas, dado que eu e Márcia pertencemos a este campo. O corpo de professores, no entanto, pertence às mais variadas áreas do saber, desde a Engenharia até as Artes. A idéia é sempre gerar opções e compensações mútuas.

Também há a questão do respeito ao Currículo Referencial de Formação do Astrólogo, daí termos optado pela síntese entre o que eu e Márcia já conhecíamos, pois é basicamente o que se encontra no atual consenso. Na época dos cursos da Unesp e da UnB não sei se já estava mais ou menos consolidada entre os astrólogos essa visão do Currículo Referencial. Se hoje ele ainda pode estar em discussão, ao menos já temos uma bela idéia do que é imprescindível em nossa formação e numa sequência relativamente fixa.

O curso ganha o título de "extensão", "curso especial" e coisa parecida, de modo a satisfazer as exigências do Ministério da Educação e a outras burocracias, mas no final das contas é um curso de graduação comprimido em formato de tecnólogo. Se tudo andar como planejamos, pode ser que isso se altere no futuro e ganha um outro título e se expanda.

Os tempos também são outros e o preparo dos profissionais perante a resistência do meio acadêmico, isto é, o preconceito e argumentações depreciativas sem fundamento, é maior. Graças, em parte, aos esforços dos astrólogos que tiveram aquelas iniciativas, mas graças igualmente à cada vez maior formação dos atuais.

CONSTELAR - Vemos, entre astrólogos que já tiveram ou ainda mantém um forte vínculo acadêmico, duas atitudes diametralmente opostas com relação à universidade: para defini-las de forma quase caricatural, digamos que a primeira é de adesão irrestrita e total entusiasmo com o modelo universitário convencional. Para estes, o reconhecimento da Astrologia passa por sua transformação em curso de graduação, com toda a sua sistemática de vestibular, créditos, pré-requisitos e monografia final. Na outra ponta, estão os que consideram o modelo universitário irremediavelmente obsoleto e comprometido com interesses do "establishment". Para estes, a atitude mais sábia seria implodir a universidade e repensá-la do zero. Na escala entre os dois extremos, em que ponto vocês se situam?

CARLOS HOLLANDA - Não sei exatamente em que ponto poderíamos nos situar entre esses dois extremos. Há um longo caminho a ser percorrido entre a prática da astrologia e o ensino universitário tradicional. Como temos entre os referenciais, na Cândido Mendes Ipanema, a transdisciplinaridade e a experimentação desse campo relativamente novo, creio que nos flexibilizamos o suficiente por enquanto. O modelo universitário está definitivamente passando por severas modificações, mas não acho que tudo tenha que ser implodido. Nem poderia, sem causar um caos total no modelo educacional, correndo-se o risco de inviabilizar por um bom tempo o acesso à universidade mesmo para quem tem acesso aos melhores colégios. Imagine para quem não teve essa oportunidade! Quantos profissionais e professores conheço hoje que não tiveram acesso a escolas particulares e cursinhos pré-vestibulares, que nasceram em famílias problemáticas, que passaram dificuldades financeiras, nunca foram considerados alunos "nota 10", mas que com esforço estão aí fazendo a diferença! Nesse ponto acho que sou meio japonês, valorizo o esforço e o empenho. O estudante que vem do zero, mas consegue se mover dali já é de grande importância. Tanto ele quanto o que teve tudo pode devolver à sociedade aquilo de que dela se beneficiou com relativa facilidade se se propuser ao envolvimento com diferentes realidades que não aquela à qual se habituou.

Nessa altura do campeonato, não vejo como necessária qualquer convencionalidade para a astrologia no meio universitário. Ainda estamos numa espécie de proposta, vamos conhecer o terreno, que certamente é um campo minado, mas temos bons desativadores de bombas. Talvez no futuro, diante de um modelo de ciência que difira radicalmente do atual, aí sim pensaremos numa "convencionalização". No entanto, caso isso aconteça, qualquer convenção será muito diferente da que estamos habituados hoje e uma eventual insersão definitiva da astrologia na universidade muito provavelmente não terá que se enquadrar tão restritamente como o teria agora.

CONSTELAR - Outros saberes que, nas últimas décadas, ganharam status universitário só o fizeram à custa de algumas pesadas concessões a influentes grupos de pressão. Por exemplo: até os anos 70, os cursos de Teatro só ensinavam Interpretação, Dicção, Expressão Corporal e algumas matérias correlatas, como História da Arte. Quando o curso de Ator passou a ser de nível superior, passou a ter, como matérias obrigatórias, Psicologia, Anatomia e Fisiologia, Filosofia, Epistemologia, Ética etc. O tempo dedicado às matérias específicas chegou a ficar abaixo de 50% da carga horária total. Se o curso de Astrologia for um sucesso, não há um risco de investidas semelhantes? Qual a estratégia de vocês para lidar com os especialistas de outras áreas que tentarão impor suas matérias ao currículo astrológico?

CARLOS HOLLANDA - Riscos sempre há, mas, como disse, mesmo diante de um curso de sucesso, vejo um longo percurso entre o estado atual e um suposto reconhecimento e apropriação do curso por vias acadêmicas. A Astrologia não se enquadra com facilidade em nenhum campo. Ela é sintética por excelência. Mas se houver pressão para aumentar a carga de matérias não-astrológicas, a despeito da necessidade de ajustarmos quaisquer imposições, isso será bem vindo. Por que? Porque aí teremos uma formação muito sólida, como é nossa proposta inicial, em campos variados que dão sustentação à visão astrológica. Você mesmo, Fernando, e eu, quando abrimos a Astroletiva, tínhamos essa percepção da necessidade de estruturas fortes em outros saberes que não os estritamente astrológicos e nossa formação em Humanas contribuiu muito para a Astroletiva ser o que é. Imagine uma estrutura que permita o trânsito direto pelos campos como Psicologia, Filosofia, Astronomia, História, Antropologia etc.

Hollanda entre livrosA estratégia é a de demonstrar que Astrologia não é Psicologia, mas se beneficia dela, que não é Filosofia, mas sem ela é frágil, que depende dos conhecimentos científicos variados para manter a autocrítica, mas que possui um corpo estrutural próprio, que não tem como ser substituído, do contrário ficará esvaziado. Astrologia é, antes de tudo, um saber técnico, uma aplicação composta de muitas vias. Uma das exigências que faríamos nesse caso é a de que o Currículo Referencial de Formação do Astrólogo, aquele que mencionei acima e que chegou a ser discutido por um tempo entre grupos de discussão e assembléias de profissionais da área, fosse mantido. Sem ele é perda de tempo. E se for preciso, a diretoria da Cândido Mendes é composta por educadores e advogados com uma formação extraordinária. Teremos defensores.

CONSTELAR - Vocês trocaram alguma experiência com o pessoal da Faculdade Kepler, nos Estados Unidos? Dentre as experiências estrangeiras, alguma outra serviu de modelo?

CARLOS HOLLANDA - Trocamos muitas experiências com a coordenação do curso Cultural Astronomy and Astrology, do Nicholas Campion, em Wales, e tivemos contato com o Patrick Curry, da Universidade de Kent, que é um dos organizadores de estudos sobre astrologia, entre eles o "Seeing with different eyes", lançado pela própria universidade. Atualmente estamos contactando Liz Greene, Ray Merryman e Robert Hand, todos voltados para estudos acadêmicos ligados à astrologia, graças ao apoio de Renato Chebar, vice-presidente do Sinarj, que os conhece pessoalmente e volta e meia está fazendo algum curso lá fora. Hand, há pouco tempo, por exemplo, esteve apresentado um trabalho em Oxford. Entretanto, temos um modelo próprio. Pegamos referências com eles, mas mantivemos uma linguagem e um formato bem adaptado às nossas realidades tupiniquins.

CONSTELAR - Vocês levantaram uma carta eletiva para definir o dia de abertura do curso?

CARLOS HOLLANDA - Sim, dentro das possibilidades do calendário de todos os envolvidos, a melhor escolha recaiu no dia 5 de março de 2012, às 20h. Não tínhamos uma faixa ampla de escolha, bem ao contrário. Também tivemos que considerar, claro, as questões logísticas e o trânsito (dos carros) da cidade, que anda caótico. Sirius ficou no Meio do Céu, Mercúrio conjunto a Urano, o dispositor do Ascendente está em domicílio e conjunto a Júpiter, que estará no grande trígono com Marte e Plutão. Vamos ver o que acontece.

A Astrologia Eletiva, que é essa técnica que permite calcular um mapa relativamente propício para o início de uma atividade, é uma das várias formas de aplicação da astrologia. Foi pensando nisso que também montei duas palestras a ocorrerem nos dias 9 de fevereiro e 1º de março, mas então falando de outras formas de abordagem em mapas de nascimento e em previsões. Trata-se de:

a) Astrologia: entre a escolha vocacional e os relacionamentos afetivos

b) Previsões astrológicas com os trânsitos de Marte e Júpiter para 2012

Veja informações detalhadas sobre essas palestras

As sinopses e os detalhes podem ser vistos também em: http://astro-sintese.blogspot.com/, assim como no próprio site da Universidade Cândido Mendes.

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