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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 164 :: Fevereiro/2012 :: -

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ASTROLOGIA E CULTURA BRASILEIRA

Iemanjá, a mãe de todos os peixinhos

Fernando Fernandes

O culto a Iemanjá, cumprido nas praias brasileiras em diferentes datas, conforme a região, é mais do que uma forma de preservação simbólica da África distante: é também o último grande rito lunar da civilização ocidental.

IemanjáPara quem vinha ao Rio de Janeiro até o início dos anos noventa era surpreendente ver, na noite de Ano Novo, milhares de pessoas rumando para a praia, vestidas em trajes brancos e portando flores, velas e oferendas. Também não era raro presenciar a cena de respeitáveis senhores de classe média a tomar passes e receber conselhos de mães de santo incorporadas por suas entidades, enquanto espocavam os fogos anunciando a virada do calendário. Estas imagens revelavam algo que não é mais possível contemplar em nenhum outro lugar do mundo ocidental: o último grande rito lunar celebrado coletivamente.

Para entender a significação astrológica deste ritual festivo, é preciso recuar no tempo e buscar resposta para algumas perguntas: por que razão Iemanjá, orixá nigeriano dos rios e correntes, especialmente do Rio Ògùn (nenhuma relação com o orixá Ogum), transformou-se tão radicalmente no Brasil a ponto de receber o título de rainha do mar? E o que a fez transferir seu domínio das águas doces para as águas salgadas?

Um velho orixá esquecido

O culto dos orixás foi trazido para o Brasil pelos iorubás, um dos maiores grupos étnicos da África Ocidental, que habitava a região do Golfo da Guiné e que constitui ainda hoje uma parcela importante da população da Nigéria e da República Popular do Benim (ex-Daomé). Ao contrário do que pensavam os primeiros antropólogos europeus que estudaram sua religião, os iorubás não são politeístas: crêem em um deus único e muito além da realidade terrena, Olorum ou Olodumaré, cuja manifestação chega até o nível humano através de uma grande variedade de princípios, consubstanciados na forma dos orixás. Os orixás estão associados a uma série de mitos que, por sua vez, encerram toda a visão iorubá acerca do ayê (o mundo das formas sensíveis) e do orum (o mundo transcendental). Não existe, como nas religiões europeias, uma ideia de separação absoluta entre a Terra e o Céu, entre o visível e o invisível. O mundo espiritual não é um lugar, mas uma condição, ou, para usar uma linguagem mais moderna, um estado energético.

Território Iorubá

A etnia iorubá ocupa uma parte proporcionalmente reduzida do território
da Nigéria, país de maioria muçulmana e dividida em grande número de etnias, com destaque para os hauçás (ou haussás) e igbos. A região iorubá, no sudoeste, atravessa
fronteiras e se estende pelo território do Benim e do Togo.

Forma e energia estão em permanente interação. Tudo que existe no ayê tem sua contrapartida no orum. Desta forma, os orixás não são entendidos como deuses distantes a habitar um espaço celestial, mas sim como forças que permeiam todos os reinos da natureza, do mineral ao invisível, passando pelo vegetal e pelo hominal. Tudo que está ligado a determinado orixá transporta seu axé, ou energia vital. Na concepção iorubá, cada ser humano vincula-se à faixa de atuação de um ou mais orixás, estando, portanto, em ressonância também com as plantas e minerais que respondem ao mesmo princípio. Assim, a recomposição energética e psíquica do indivíduo é obtida pelo contato com o campo de força do orixá, seja diretamente, através do transe, seja indiretamente, através de trocas com a natureza.

Este princípio de correspondência simbólica entre os diversos reinos é equivalente ao da Astrologia praticada até o século XVII, que também investia de significado a natureza, atribuindo a cada um de seus elementos uma regência astrológica. E, apesar de diferenciados em sua roupagem, os sistemas de representação analógica da Astrologia e do culto dos orixás guardam entre si mais semelhanças do que poderia parecer à primeira vista.  

Para os iorubás, a divindade do mar é Olokun, entidade feminina na Nigéria e masculina no Benim, um orixá quase esquecido no Brasil. Porém, a relação dos povos da África Ocidental com o oceano não era das mais intensas. Exceto pela pesca de subsistência e a navegação litorânea, feita em pequenos barcos, decididamente os iorubás não eram um povo de marinheiros. Até para o comércio, preferiam-se as rotas terrestres que, atravessando o Sahara, atingiam os reinos islâmicos, ao norte do continente. Os rios, por outro lado, tinham uma importância que não pode ser subestimada: eram vias de comunicação, fonte de abastecimento e garantia para a atividade agrícola. Pode-se dizer que, apesar de habitarem uma região litorânea, os iorubás e seus vizinhos jejes viviam de costas para o mar, até a chegada dos portugueses. Basta lembrar que as principais cidades nativas, como Oió, Ifé, Ketu e Abomey, ficavam todas no interior. Já os entrepostos e fortalezas fundados pelos portugueses, como Lagos (maior cidade da Nigéria), Porto-Novo (atual capital do Benim), São João Baptista de Ajudá (atual Ouidah, no Benim) e São Jorge da Mina (na Costa do Ouro, atual Gana) eram todos portos marítimos.

Trazidos para o Brasil à força, na condição de escravos, o mar passou a representar para aqueles povos a imensidão misteriosa que os separava da África. Em algum lugar do outro lado do oceano estava a terra-mãe. E é natural que o orixá feminino por excelência, Iemanjá, passasse a ser identificado como a dona daquelas águas infinitas. O oceano significava a saudade da terra natal, e também a possibilidade do retorno. Era ao mesmo tempo o infinito e o limite. Para aquele povo acostumado a conviver com a natureza e a derrotar os inimigos, agora reduzido à escravidão, surgira finalmente o obstáculo intransponível.

Olokun, orixá das poucas comunidades que efetivamente viviam na costa, foi rapidamente esquecido. E, em seu lugar, Iemanjá, cultuada em toda parte, conhecida pelas muitas lendas em que aparece como a mãe de pelo menos quinze outros orixás, expande seus domínios, absorve o culto dedicado a orixás menores e torna-se a grande mãe de todos os escravos no exílio. Não é por acaso que seu culto predomina exatamente em duas metrópoles oceânicas, Rio de Janeiro e Salvador. A festa de Ano Novo, conforme era realizada nas praias cariocas até os anos noventa, com oferendas de flores e barquinhos contendo presentes, chegava a reunir dois milhões de participantes, sendo considerado o maior e mais impressionante ritual fetichista de todo o continente americano.

Filha de Iemanjá

O famoso sacerdote de cultos afro-brasileiros Joãozinho da Goméia incorpora Iemanjá. O registro é do fotógrafo, etnólogo, pesquisador e escritor francês Pierre Fatumbi Verger.
Devem-se a Verger alguns dos melhores estudos de religião comparada
sobre o culto de orixás dos dois lados do Atlântico.

A cultura popular afirma que água mole em pedra dura tanto bate até que fura, reconhecendo que a suavidade e a perseverança vencem qualquer resistência. O elemento Água está associado ao sentimento, à feminilidade, à compaixão e à misericórdia. Astrologicamente, os três signos de Água escondem sob a aparente fragilidade as qualidades da tenacidade (Câncer), da concentração da vontade (Escorpião) e da dissolução da matéria (Peixes). O advento do Cristianismo, com sua mensagem de amor e misericórdia, deu-se sob a égide do signo de Peixes. Na concepção cristã, o próprio Jesus – um pisciano – fez do ato que significaria sua derrota, na visão dos que o perseguiam, o símbolo da vitória permanente do espírito sobre a matéria: ao morrer na cruz, sobreviveu para sempre na memória da humanidade e transformou o calvário em caminho de libertação. Eis aí os recursos da água: ceder, recuar, abdicar da força bruta para poder agir outra vez mais adiante, com a mesma tenacidade, a mesma determinação. Não é de estranhar que alguns pontos cantados de Umbanda definam o povo d'água (as entidades vinculadas a Iemanjá) como o povo de força maior.

O papel agregador dos bantos

Com exceção da Bahia, os iorubás não constituíram a massa majoritária dos escravos transportados para o Brasil nos terríveis navios negreiros. No restante do país, o grupo numericamente predominante foi o dos bantos de Angola e do Congo.

Distribuição de etnias africanas no Brasil

Mapa da distribuição dos grupos sudaneses (entre os quais os iorubás
ou nagôs e os jejes) e os bantos (entre os quais os ambundos e
quimbundos de Angola) pelo continente americano.
Numericamente, predominou a imigração de grupos bantos.

Aqui, é preciso recordar a história da difusão do culto dos orixás no Brasil. Trazido pelos iorubás para a região do Recôncavo Baiano, foi rapidamente assimilado pelos bantos e transplantado para o Rio de Janeiro, onde desenvolveu-se no século XIX sob o nome de Omolocô, um culto que preserva os orixás iorubás, mas em cujos rituais predomina a influência da nação Angola. Como o Omolocô foi uma das fontes de que se nutriram a Macumba e a Umbanda Popular, é fácil entender porque existe tanta influência banta na linguagem, nos rituais e nos pontos cantados nos terreiros cariocas. A importância da contribuição banta é inestimável: foram eles os responsáveis pela mescla cultural que reuniu as influências indígena, cristã, iorubá, jeje e a sua própria, trazida das nações Angola e Congo. Enquanto o Candomblé baiano permaneceu mais fechado, ortodoxo, com cada terreiro tentando preservar a pureza de sua nação de origem, a Umbanda, especialmente no Rio de Janeiro, abriu-se para todas as culturas, incorporou elementos de todas as nações e construiu um ritual e uma história que são um espelho da própria diversidade étnica do povo brasileiro.

Os bantos foram os grandes artífices desse trabalho de unificação, a ponte viva que ligou todos os povos. Sua herança estendeu-se também pela música popular (o samba), pela linguagem, pelos hábitos de alimentação e pelas formas de organização comunitária. O Brasil é muito mais angolano do que poderia imaginar.

Se no contexto da cultura brasileira os iorubás desempenharam um papel Lua-Saturno (fundamento, origem, ancestralidade, raiz), os bantos foram o fator Mercúrio: a troca, o leva-e-traz, o deslocamento cultural, a disseminação da informação, com todas as perdas, acréscimos e sínteses que esse processo implica.

Os bantos também tinham suas divindades da água. É possível ver na popularização do culto de Iemanjá uma influência das religiões de Angola que faziam referência à kalunga, o lugar das grandes águas tão vitais para as comunidades agrícolas. Se em Angola esse lugar mítico dizia respeito à chuva e à nascente dos rios, no Brasil passou a ser a calunga grande (o mar). A tudo isso podem-se somar ainda os míticos seres aquáticos presentes no imaginário indígena e jamais completamente esquecidos.

Afinal, qual a correspondência astrológica de Iemanjá?

Já sabemos que Iemanjá está relacionada aos signos de Água. Mas a qual deles, mais especificamente? E a que planetas? Para investigar é preciso ir um pouco mais fundo:

Do Cristianismo medieval à Iemanjá carioca


Pontos são os cânticos rituais dos cultos afro-brasileiros. Sua finalidade é, numa leitura superficial, saudar os orixás e atraí-los para o terreiro, ou local de culto. Na verdade, o ponto é um recurso de harmonização rítmica da comunidade de fiéis e da concentração grupal em torno de algumas imagens simbólicas e de alto valor evocativo, facilitando a sintonia do grupo. Neste sentido, o objetivo do ponto não é fazer com que o orixá “baixe”, mas sim que seus fiéis se elevem até ele.

Nação – Este termo, quando aplicado aos cultos afro-brasileiros, indica sua origem étnica. Os terreiros de nação são, portanto, aqueles que mantêm as características de uma das inúmeras etnias em que se distribuíam os grandes grupos iorubá (ou nagô), jeje e bantos de Angola-Congo.

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