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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 134 :: Agosto/2009 :: -

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A TRAJETÓRIA DE PLUTÃO DE CÂNCER A CAPRICÓRNIO

Pai, uma espécie em extinção

Lúcia D. Torres

Os sucessivos trânsitos de Plutão pelos signos cardinais pontuam a evolução da crise que pode acabar com a espécie humana: a feminilização em massa, que atinge hoje todas as espécies vivas. Plutão em Câncer trouxe o estrogênio sintético e seus efeitos teratogênicos; com Plutão em Libra veio a consciência do risco ambiental. Plutão em Capricórnio pode trazer a falência da função de pai, já prefigurada no nível simbólico pela obra de Franz Kafka.

A profecia Kakfiana

Franz Kafka, 1883-1924

Certas pessoas (e, por extensão, suas obras) são ícones de seu tempo. Suas vidas, aparentemente banais e ordinárias, desvelam os grandes dramas do coletivo. Alguns são porta-vozes de algo maior do que eles mesmos, de algo que transcende suas meras existências porque este algo ecoa no íntimo de tudo e de todos. Alguns, corajosamente, enfrentam desde cedo o que, um dia, todos teremos de enfrentar na nossa busca por consciência e individuação. Neles (ou em suas obras), os símbolos, os arquétipos se expressam de maneira quase literal. Abençoados sejam estes seres que, na sua busca tormentosa de ser, auxiliam-nos a aceitar o imponderável.

“A função transcendente do símbolo possibilita uma passagem de uma atitude para a outra”. (Carl Jung)

Os símbolos nos acompanham desde sempre. Agem sobre nós. São como sementes de percepção, revelando o que ainda se encontra oculto aos nossos olhos desatentos.

Sem que nos demos conta disto, estimulam o dar-se conta, o vir-a-ser, atuam como pontes entre a realidade ordinária (comumente fragmentada e reducionista) e novos estados de consciência, mais abertos, amplos e profundos, que nos conectam com circunstâncias pessoais e coletivas, que traduzem o que a razão deixou de reconhecer.

Por isso são considerados instrumentos de passagem, de mediação. Despertam-nos. Nas palavras de Erich Fromm,

a linguagem simbólica é aquela por meio da qual exprimimos experiências interiores como se fossem experiências sensoriais, como se fosse algo que estivéssemos fazendo ou que fosse feito em relação a nós no mundo dos objetos. A linguagem simbólica é uma língua onde o mundo exterior é um símbolo do mundo interior, um símbolo de nossas almas e de nossas mentes.

Kafka caminhandoSabemos que a linguagem simbólica é universal porque é aberta, atemporal e multívoca. É importante ressaltar que a nossa compreensão e competência em dialogar com o símbolo se fazem de acordo com a nossa visão de mundo, dos paradigmas que nos orientam. E, por isto, não há garantia de que sejamos bem sucedidos nesta aventura hermenêutica. Afinal, ninguém pode atuar num nível superior ao da sua consciência...

Na mitologia, Plutão é o senhor das profundezas, deus das coisas invisíveis cujas leis não podem ser contrariadas. Representa as necessidades emocionais e impulsos mais sombrios, compulsivos, selvagens, incontroláveis e irracionais. Se observamos atentamente, não obstante as variações encontradas em cada cultura, há sempre uma divindade que rege a alma dos mortos em todas as civilizações (e suas atribuições são as mesmas). Assim, associa-se Plutão, também, aos processos dolorosos de morte e renascimento, de perdas, destruição, quebra ou fim de formas e estruturas. Ele leva embora tudo o que não é essencial.

Como já assinalou Liz Greene:

Saturno e Plutão têm várias coisas em comum, e, muitas vezes, se superpõem nas suas correspondências mitológicas e religiosas. (...) Na hierarquia planetária, Plutão é o único amigo verdadeiro de Saturno, embora, como diz o ditado, com um amigo como este, ninguém precisa de inimigos. Ambos estão relacionados com o processo do desenvolvimento da consciência que sempre é acompanhado por uma luta. (Saturno, p. 143. Pensamento)

Este artigo é um recorte de minha pesquisa que se debruça sobre a trajetória descrita por Plutão no século XX até os dias atuais. Apesar de o seu descobrimento ter sido em 1930, quando transitava no signo de Câncer, nos primeiros anos do século, ainda no signo de Gêmeos, Franz Kafka já tinha profetizado o que nos aguardaria quando Plutão entrasse em Capricórnio.

“Seja como paródia ou profecia, o fato é que as insuperáveis imagens kafkianas anteciparam os excessos da burocracia, os regimes totalitários do século XX, a angústia do homem moderno”, nas palavras do escritor e crítico literário gaúcho, Marcelo Backes. Eu acrescento: “abordando os aspectos sombrios da função paterna de forma profunda e contundente”.

Franz Kafka, carta natal

Fig. 01 - Franz Kafka - 3.7.1883, 7h UT
Praga, Império Austro-Húngaro - 014e26, 50n05.

Franz Kakfa nasceu em 03 de julho de 1883, em Praga. (Fig. 01). Canceriano, com Escorpião na casa IV e uma conjunção Plutão / Quíron / Saturno em Gêmeos na casa X, sentiu na própria pele “a depressão, o sentimento de desespero e a auto-análise incessante” descritas por Liz Greene como características da conjunção Saturno/Plutão.

Franz Kafka, Museu de Cera de PragaDa atormentada vida deste escritor, bem documentada em várias biografias, ressalto algumas de suas obras que ilustram as consequências multifacetadas e fatais do desenvolvimento de uma tecnologia pós-guerra, fundamentada num paradigma mecanicista.

[À esquerda: a estátua de Kafka no Museu de Cera de Praga.]

Em novembro de 1912, Kafka começa a escrever Metamorfose e a conclui em apenas 20 dias. O livro narra a história de um homem que acorda transformado em um inseto, e a obra denuncia a frieza e a impessoalidade das relações familiares.

Na segunda semana de agosto de 1914, escreve O Processo, onde um homem é condenado à morte sem saber exatamente por quê e o que fez para isto. Toda a narrativa é a sua busca de sentido onde, aparentemente, não há sentido algum.

E, por fim, Carta ao pai foi escrita aos 36 anos, provavelmente entre 10 e 19 de novembro de 1919. Nesta obra, claramente autobiográfica, Kafka põe a nu toda a sua mágoa em relação a um pai autoritário que ele chama, alternadamente, de “tirano”, de “rei” e de “Deus”.

Kafka - Retorno de Saturno, 1913

Fig. 02 - Franz Kafka - Primeiro retorno de Saturno
Praga, 9.5.1913, 4h12 UT.

Observemos o momento astrológico do autor nestes sete anos em que escreveu estes livros (entre 1912 e 1919). Interessante observar que estas três obras foram escritas no advento da primeira revolução de Saturno de Kafka (Fig. 02), deflagradas na revolução solar de 1912 pela própria conjunção de Saturno em trânsito com Plutão natal (Fig. 03) e pelo trânsito de Plutão conjunto ao Sol (Fig. 04) – sabemos, através de sua biografia, que o pai (que era temido tanto pela sua mãe quanto pelas suas irmãs) o proibiu três vezes de se casar (com diferentes mulheres com as quais se envolveu).

Kafka, Revolução Solar 1912

Fig. 03 - Revolução Solar de Franz Kafka para 1912 - 3.7.1912, 7h18 UT.

Kafka pensou em reunir suas obras O veredicto, A metamorfose e O foguista num livro intitulado “Filhos”. Mais tarde, pensou em pôr O Veredicto, A metamorfose e A colônia penal num mesmo livro, intitulado “Punições”. Apesar de nunca ter realizado estes intuitos, há algo mais literal para a expressão da sua conjunção Saturno / Quíron / Plutão em Gêmeos ?

O pai de KafkaAs imagens kafkianas são recorrentes: o pai, o Estado, a burocracia, a punição, o julgamento, a condenação, o isolamento... Todos símbolos capricornianos/saturninos; o poder, a sexualidade, as emoções mais viscerais, aquilo que está fora do controle, a morte... Várias faces de Plutão.

Esquerda: o pai de Franz Kafka.

Decantada por introduzir o absurdo na narrativa literária, os críticos materialistas viram em sua obra “a decadência tardia do mundo burguês” (Lukács), ou “a gênese social da esquizofrenia” (Adorno) ou ainda “a vingança contra Deus” (Freud).

Kafka - trânsito de Plutão sobre o Sol natal

Fig. 04 - Franz Kafka - Trânsito de Plutão sobre o Sol natal
(exato em 6.9.1922)

Percorrendo seus livros, simplesmente vivendo o que o texto transpira, encontramos um menino sufocado no homem, atormentado pela relação fria, silente e tirânica imposta pelo pai (conjunção Saturno/Plutão). Toda a sua obra busca a redenção de um conflito existencial – o sentimento de exclusão e do abandono paterno.

Mas de um certo modo, escrevendo no advento do século XX, Kafka havia prenunciado o que estaria por vir. De uma maneira alegórica, alertou que pagaríamos caro tanto pela nossa inconsciência quanto pela nossa cupidez.

No meu olhar, a obra de Kafka, catarse de um indivíduo para a dor e o sofrimento oriundos de suas relações viscerais com um pai ausente (sob o ponto de vista emocional) e autoritário, é uma boa metáfora que profetizou o que nos aguardava ao final do século XX, inicio do século XXI: os aspectos masculinos de nossa psique - calcados na racionalidade fria e lógica, no pragmatismo existencial, na negação dos sentimentos e da intuição, na exclusão da transcendência e da espiritualidade, na busca incessante e voraz do lucro -, estão inviabilizando a própria continuidade das espécies. Sofremos, enquanto civilização, as consequências sombrias desta disfunção.

Diz Neumann:

Ele (o Pai Terrível) age, por assim dizer, como um sistema espiritual que prende e destrói a consciência do filho por trás e por cima. Esse sistema espiritual aparece como a força constrangedora da velha lei, da velha religião, da velha moralidade, da velha ordem; como consciência, convenção, tradição ou qualquer outro fenômeno espiritual que se apodera do filho e obstrui seu progresso em direção ao futuro. Qualquer conteúdo que opere através da dinâmica emocional, tal como a garra paralisante da inércia ou a invasão do instinto, pertence à esfera da mãe, da natureza. Porém todos os conteúdos passíveis de percepção consciente, um valor, uma idéia, um cânone moral, ou alguma força espiritual, se relacionam com o sistema do pai, nunca com o sistema da mãe. (Origens da consciência. Pág. 176 – apud in Greene – Astrologia do destino).

Kafka escreveu: “o poeta tem a tarefa de levar aquilo que é mortal e isolado à vida infinita, o acaso ao legítimo. Ele tem uma tarefa profética”. E é com esta profecia que convido vocês a uma reflexão sobre a passagem de Plutão nos signos cardinais, ao longo do século XX e agora XXI, desde Câncer a Capricórnio.

Áries – a grande sombra plutônica do século XX

Em minha pesquisa, observo o ingresso de Plutão em cada signo e os acontecimentos mundiais (com ênfase na política/economia, artes, ciência e ecologia). Mas, aqui, meu recorte é a passagem deste planeta pelos signos cardinais, uma vez que sua descoberta deu-se no signo de Câncer e o objetivo deste artigo é refletir sobre a ameaça de extinção (literal) de nossa espécie.

Vivemos num mundo holográfico onde tudo está interligado a ponto de “a vida imitar a arte”. Plutão vem descrevendo uma trajetória que culmina, agora, no signo de Capricórnio – polaridade oposta à sua localização 78 anos atrás, quando foi descoberto. Neste momento, nos encontramos um pouco perplexos diante da nossa completa incapacidade, enquanto membros de uma grande família planetária, de priorizar a Vida e o Bem Comum.

Enquanto coletivo, humanidade, estávamos completamente desorientados pelos efeitos da Primeira Grande Guerra quando vislumbramos Plutão pela primeira vez, e, contudo, rumávamos, de forma inexorável, em direção à Segunda Grande Guerra e outras tantas que se seguiram.

Guernica, de Pablo Picasso - detalhe

Guernica, de Pablo Picasso - detalhe. A obra retrata um dos episódios
mais sangrentos da Guerra Civil Espanhola, que antecedeu
a Segunda Guerra Mundial.

Sem dúvida, o século XX foi um dos mais sangrentos de que temos notícia:

No século anterior, não houve guerras mundiais. (...) Locais, regionais ou globais, as guerras do século XX iram dar-se numa escala muito mais vasta do que qualquer coisa experimentada antes. (...) As maiores crueldades de nosso século foram crueldades impessoais, decididas à distância, de sistema e rotina, sobretudo quando podiam ser justificadas como lamentáveis necessidades operacionais. Assim, o mundo acostumou-se à expulsão e matança compulsórias em escala astronômica. (cf. Eric Hobsbawm - A era dos extremos - o breve século XX – Cia. Das Letras – pág. 22 a 57).

O eixo dos signos cardinais foi perpassado por Plutão ao longo deste último século – no dia 10/07/1913, ingressou em Câncer; no dia 06 de outubro de 1971, em Libra, e no dia 26/01/08 em Capricórnio. Há um axioma astrológico que refere que, cada vez que um planeta transitar num determinado signo, estarão acionados, também, os temas relacionados à cruz do ritmo daquele signo. A partir de 2008, será a terceira vez que Plutão vai acionar o eixo dos signos cardinais, pois, ingressando no signo de Capricórnio, por aí vai transitar até 2024. Desde seu descobrimento, temos observado as transformações sociais que vêm ocorrendo na família (Câncer) e nas relações conjugais (Libra), muitas delas em decorrência das múltiplas guerras (Áries) e do próprio sistema estatal e econômico (Capricórnio).

No alvorecer do século XXI, Plutão transita nos primeiros graus em Capricórnio e nunca, até onde temos notícia, a Vida e a continuidade de todas as espécies estiveram tão ameaçadas. Contudo, neste momento, a ameaça deixou de ser o fuzil ou mesmo o “botão vermelho” tão temido nos tempos da Guerra Fria. Hoje, a ameaça se encontra dentro das nossas células masculinas e femininas, simultaneamente nos ventres maternos e na falta de potencialidade fecundante dos machos em geral, incluindo, principalmente, os humanos. Sabe-se que, atualmente, a contagem de espermatozóides de um jovem de vinte anos é 50% inferior a de um adulto da década de 1950. (Colborn, Theo – O futuro roubado – L&PM)

Sopa plástica no Oceano Pacífico

A "sopa plástica", grande mancha formada por dejetos não biodegradáveis
que se espalha por vasta área do Oceano Pacífico, colocando em risco
a vida marinha e as populações que dela dependem.

Olhamos, aterrorizados, para os oceanos de plástico que flutuam em nossas águas, destruindo a fauna e flora marinhas; sentimos os efeitos dos buracos de ozônio e do efeito estufa ao nosso redor; escondemos, da população em geral, a informação de que, a cada cento e vinte e cinco crianças (do sexo masculino) que nascem, nos EUA, uma tem deformidades e/ou anomalias nos órgãos reprodutivos como a hipospadia (anomalia congênita relativamente frequente, caracterizada por abertura anormal do meato uretral em diferentes locais da superfície ventral do pênis, ou mais raramente na bolsa escrotal ou até mesmo no períneo. É acompanhada por alteração da pele prepucial que recobre a glande, adquirindo um formato de capuz. Assim, na grande maioria dos casos, a glande é descoberta, podendo ter algum grau de rotação, ou mesmo o pênis apresentar uma curvatura ventral).

Durante todo o século passado, tivemos o signo de Áries como a grande “sombra” do eixo cardinal, manifestando-se nas crueldades sangrentas das guerras que experimentamos. E, sem que pudéssemos crer, imaginar ou supor, também estávamos aniquilando a possibilidade de a espécie humana continuar a existir, uma vez que a capacidade de fecundar a partir da qualidade do sêmen masculino começou a ser gravemente deteriorada. Lembremos que o arquétipo deste signo é justamente o poder viril do macho, a semente que fecunda, a vida que se perpetua no potencial criador.

Como Liz Greene acentua,

esta antiga deidade de cabeça de carneiro, dizia-se, era a força por trás do vento invisível. Era também chamado ”aquele que habita em todas as coisas”, imaginado como a alma de todos os fenômenos terrenos. Os gregos associavam Amon, deus criador, com o seu Pai Zeus, pois o Amon fálico personificava as forças da geração e da fertilização, iniciando e depois mantendo a continuidade da vida criativa. O numinoso poder procriativo do deus egípcio de cabeça de carneiro sugere que em Áries existe mais do que o mero combate. Essa divindade é uma imagem do poder fálico, quer no homem, quer na mulher, pois Amon é o espírito criativo original que gera o universo manifesto a partir de si mesmo. (Astrologia do destino, pag. 162).

O que não se comenta, e nos causa apreensão, é que, no advento do século XXI, com o ingresso de Plutão no signo de Capricórnio, a figura do pai (tradicionalmente associada a este signo) é a próxima espécie ameaçada de extinção (tanto sob o ponto de vista psicológico quanto biológico).

A gênese da extinção (Plutão em Câncer)



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