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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 109 :: Julho/2007 :: -

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UMA LEITURA DE PAUL FEYERABEND

A relação de poder entre
Astrologia e Ciência

Cristina Machado

Feyerabend: l'enfant terrible da filosofia da ciência

O anarquismo de Feyerabend afirma que não há critérios absolutos de cientificidade, favorece uma metodologia pluralista e mostra a irracionalidade do racionalismo e a razoabilidade do irracionalismo. Aproxima-se, assim, do relativismo. No entanto, em sua autobiografia, após uma reflexão sobre as conseqüências políticas dessa posição relativista, ele admite que não só o relativismo, mas também o objetivismo, "são maus guias para uma colaboração cultural frutífera" [6] (Feyerabend, 1996, p.160). Ele passa a desconsiderar a idéia de que haja culturas fechadas com seus critérios e procedimentos, posto que elas interagem e se transformam, chegando "à conclusão de que toda cultura é potencialmente todas as culturas, e que as características culturais específicas são manifestações mutáveis de uma única natureza humana" (ibid., p.159). O anarquismo, por sua vez, continuou sendo defendido por Feyerabend, pois ele acreditava que a ciência é uma instituição extremamente complexa e dispersa para ser reduzida a teorias e regras simples [7].

Em sua obra mais conhecida, Contra o Método, ele afirma que o anarquismo pode estimular mais o progresso do que as metodologias tradicionais, que são estabelecidas previamente, por meio de uma educação científica adestradora, sem considerar as constantes transformações históricas, resultando numa "pasteurização", ou seja, os "germes" de intuição, imaginação, linguagem, opinião, crença e formação cultural são gradativamente neutralizados. Para ele, os resultados obtidos por outros métodos devem ser considerados, e é justamente isso que vai garantir a liberdade e a possibilidade de descobrir os segredos da natureza e do homem (Feyerabend, 1977, pp.21-22).

O problema do método torna-se óbvio ao se observar que, historicamente, só há progresso se as regras metodológicas forem violadas voluntária ou involuntariamente. Feyerabend afirma, então, que o que há em ciência é o "tudo vale". A vantagem desse "princípio" é que ele pode ser aplicado sempre, dado que mesmo uma ciência "bem ordenada" só tem êxito se, vez por outra, adotar procedimentos anárquicos. Nos termos de Feyerabend, "'tudo vale' não é um princípio que eu defendo, [...] mas a aterrorizada exclamação de um racionalista que olha mais de perto a história" (Feyerabend, 1993a, p.VII). Dessa maneira, defende o pluralismo por considerá-lo mais saudável para a ciência, já que a liberdade e a possibilidade de crítica são inerentes a tal princípio.

Alguns autores, como Roland Omnès, consideram justa, porém óbvia, a crítica de Feyerabend à existência de um método na construção da ciência:

De fato, é perfeitamente claro que a posse de um método que permitisse revelar a intimidade do Real pressuporia, de algum modo, um conhecimento do Real já quase perfeito. Não existe um método para traçar de antemão um itinerário em terra desconhecida. [...] O método a que nos referimos é o que permite compreender como podemos reconhecer retrospectivamente se uma ciência está firmemente estabelecida e se ela chegou a um conhecimento coerente (Omnès, 1997, pp.273-274).

Cabe destacar aqui que, quando Omnès fala de um método para "reconhecer retrospectivamente" a coerência de uma determinada ciência, o que está em jogo é a reconstrução racional dessa ciência, ou seja, trata-se de um método para a história da ciência e não para a ciência propriamente dita, assim como se vê em Laudan (1977) e também em Kuhn (1996) e Lakatos (1979). O que ele considera óbvio, mas talvez não seja tanto assim, é a crítica de Feyerabend à idéia de um método universal para a própria ciência, que era o ideal positivista, também adotado por Popper, para quem a filosofia forneceria um método que envolveria, entre outras coisas, um critério a priori para determinar se uma teoria é científica ou não.

Ainda no Contra o Método, Feyerabend faz uma análise minuciosa das observações de Galileu e dispara: "Galileu domina em razão de seu estilo e de suas mais aperfeiçoadas técnicas de persuasão, porque escreve em italiano e não em latim e porque recorre a pessoas hostis, por temperamento, às velhas idéias" (Feyerabend, 1977, p.221). Dessa maneira, para Feyerabend, a ciência moderna só pôde se desenvolver pois os métodos racionais foram postos de lado.

É importante destacar essa concepção de ciência proposta por Feyerabend. Para ele, a ciência é uma das formas de pensamento desenvolvidas pelo homem, não sendo melhor nem pior que nenhuma outra, por exemplo, o mito. Portanto, a querela entre mito e ciência não tem vencedores. Essa posição rendeu-lhe críticas, mas manteve-se fiel a ela até o fim de sua vida:

Não há um senso comum, mas vários [...]. Tampouco há somente uma forma de conhecimento - a ciência -, mas muitas outras e (antes de serem destruídas pela Civilização Ocidental) eram eficazes no sentido em que mantinham as pessoas vivas e tornavam compreensíveis suas existências. A própria ciência tem partes conflitantes com diferentes estratégias, resultados, ornamentos metafísicos. Ela é uma colagem, não um sistema (Feyerabend, 1996, p.111).

Feyerabend afirma que admitir a ciência como uma forma de pensamento superior só pode ser fruto de uma certa ideologia, e que a escolha de uma ideologia deve caber ao indivíduo. Logo, assim como Estado e Igreja se separaram, é necessário que Estado e Ciência também se separem, para que, dessa maneira, talvez alcancemos "a humanidade de que somos capazes, mas que jamais concretizamos" (Feyerabend, 1977, p.447). Ele ainda vai mais longe, questionando: se podemos escolher a formação religiosa dos nossos filhos, por que também não podemos escolher o que eles vão estudar na escola? Por que a física, a química e a biologia devem ser estudadas, e a astrologia, por exemplo, deve ser menosprezada (ibid., p.456)? Não há motivo para isso, dado que as idéias de neutralidade, independência do contexto etc. se revelaram um conto de fadas. O anúncio de uma lei científica se parece mais com um decreto jurídico, com a diferença que, numa democracia, supostamente se tenta esclarecer o processo, enquanto, na ciência, acaba havendo sectarismo e distorção. É claro que podemos considerar utópica essa visão de democracia, mas o ataque de Feyerabend contra o dogmatismo da ciência é bastante pertinente. Segundo ele, é possível notar que a concepção de ciência como um empreendimento livre e aberto tornou-se obsoleta quando ela "deixou de ser uma necessidade filosófica e converteu-se num negócio" (Feyerabend, 1993b, p.10). Como exemplo, ele cita a corrida para o Prêmio Nobel, que diminui a comunicação entre os cientistas. Para Feyerabend, a democracia é a forma de controle público à qual a ciência deve se submeter:

A ciência, diz-se com freqüência, é um processo de autocorreção que a interferência externa só pode perturbar. Mas a democracia também é um processo autocorretivo, e a ciência, sendo parte dela, pode portanto ser corrigida pelas correções na entidade mais abrangente (Feyerabend, 1996, p.154).

Chalmers faz uma síntese da posição de Feyerabend quanto ao estatuto epistemológico da ciência:

Paul Feyerabend é um dos filósofos mais lidos que se opõe a e zomba dessas venerações da ciência. Segundo algumas de suas formulações mais radicais, as atitudes atuais em relação à ciência equivalem a nada menos que uma ideologia representando um papel afim ao que desempenhou o cristianismo na sociedade ocidental, algumas centenas de anos atrás, e da qual devemos nos livrar (Chalmers, 1994, p.13).

É importante lembrar que Feyerabend não é contra a ciência, mas apenas um crítico contumaz da arrogância da comunidade científica. Além disso, para ele, não se trata de não haver métodos, regras ou critérios em ciência. O que ele diz é que "todas as regras têm os seus limites e que não existe uma 'racionalidade' englobante. Não sustento que devamos proceder sem regras nem critérios" (Feyerabend, 1993c, p.314).

[6] Por mais problemática e mal-entendida que seja essa afirmação, não me parece que ele esteja voltando à idéia de universalidade, mas apenas destacando a integração entre as culturas.

[7] É importante notar que Feyerabend distingue o anarquismo político do epistemológico, fazendo críticas ao anarquismo profissional, especialmente à sua aceitação dos severos padrões do suposto método científico.

Feyerabend contra 186 cientistas



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