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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 108 :: Junho/2007 :: -

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ASTROLOGIA, LITERATURA E PSICOLOGIA

Um Pequeno Príncipe entre Marte e Júpiter

Ricardo D. Coplán

Tradução: Fernando Fernandes

O menininho de cabelos dourados que veio das estrelas, imortal personagem de Saint-Exupéry, é o tema deste estudo, apresentado em Buenos Aires no IXº Congresso Gente de Astrologia. Reunindo a análise do mapa do autor, conceitos de psicologia junguiana e interpretação de asteróides, o artigo constitui uma originalíssima contribuição à abordagem astrológica das obras literárias.

Oh! Ultrapassei as imperiosas
fronteiras da terra,
E dancei nos céus
com alegres asas de prata;
Em direção ao sol subi,
e com o coração leve fui parte das
alturas, das nuvens entre as quais passa o sol
e fiz muitas coisas
Que você nunca sonharia
- girei e subi direto
E balancei-me no ar,
Bem alto no silêncio iluminado pelo sol.
Planando lá,
Persegui o vento que assobiava,
e bruscamente virei e levei
Meu ansioso aparelho através
de corredores no ar suspensos.

Vôo Alto, John Magee. (1)

Introdução

É difícil dizer se é lícito interpretar uma obra artística através de seu autor, ainda mais num caso como O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry, cuja repercussão foi tão grande a ponto de converter-se em pouco tempo num clássico da literatura.

Segundo a a psicologia Junguiana todo artista é como o leito de uma correnteza da alma coletiva. Mas o próprio artista, em sua consciência, é marcado por esta inundação. Como diz Jung, "dificilmente haverá um homem criativo que não tenha que pagar caro pela divina centelha do poder" (2).

Partindo desta premissa, podemos dizer que O Pequeno Príncipe é certamente um personagem que, apesar de possuir elementos da psicologia pessoal do autor, ultrapassa-o e configura uma mensagem à humanidade.(A).

Vamos agora tentar desvendar alguns aspectos da relação individual/coletiva entre Saint-Exupéry e O Pequeno Príncipe através da astrologia.

Antoine de Saint-Exupéry, 29/6/1900, Lyon, França, 9:15 AM

O emergir

O romance O Pequeno Príncipe coloca em evidência, logo de início, a disparidade entre o pensamento infantil e o pensamento adulto, cada um com a esfera de interesses que lhe é própria, como dois mundos de difícil conciliação. Tanto que o narrador é tomado por um profundo sentimento de solidão, como ele mesmo declara: "Vivi assim, sozinho, sem ninguém com quem verdadeiramente falar ..."(3). De fato, parece que não encontrava com quem compartilhar sua vivência pessoal. Isto posto, era de se esperar que algo acontecesse. E logo o autor acrescenta: "...até que tive uma avaria no deserto do Saara, faz 6 anos" (4)."Era uma questão de vida ou morte" (5). Desta maneira inicia-se O Pequeno Príncipe, que Saint-Exupéry começou a escrever no verão de 1942 (6) e que está baseado em um fato que lhe ocorrera seis anos antes, no Ano Novo de 1936. Naquela ocasião seu avião caiu no deserto, e "tanto o tanque de água quanto o tanque de combustível foram perfurados. Tínhamos por toda provisão uma laranja, algumas uvas passas, um quarto de litro de vinho branco num recipiente térmico, um pouco de café em outro". (7) "Estávamos privados de água por destruição de nossas reservas e incapazes de nos localizarmos no deserto com uma margem de precisão de 300 quilômetros", de acordo com o que o próprio Saint-Exupéry descreve em relatório (8). Esteve quase quatro dias perdido até que foi encontrado por um beduíno (9). "Tinham visto miragens magníficas: oásis, camelos, cidades. Prévot, seu companheiro de aventura, tinha ouvido um galo cantar. Saint-Exupéry tinha visto em sua alucinação três cães que se perseguiam mutuamente" (10).

Em 26 de abril de 1934 Saint-Exupéry ingressa na Air France como piloto. Já fora recusado no ano anterior.

Vejamos a configuração astrológica daquele momento: Saint-Exupéry tem Marte em 1° 25' de Gêmeos na casa X a pouco mais de 3° da cúspide da IX, o que significa uma tremenda energia posta a serviço de atividades muito dinâmicas e rápidas, que implicam em parte a ampliação de horizontes intelectuais ou vivenciais. Este homem foi um pioneiro da aviação, que trabalhou fazendo correio (Gêmeos) aéreo em diversas partes do mundo, tendo aberto, inclusive, a primeira linha aeropostal da Patagônia. Também tem Júpiter em seu domicílio sagitariano, a dois graus da cúspide de casa IV, e em oposição aplicativa a Marte, do que costuma resultar um lar suntuoso ao estilo de Senhor do Olimpo ou muito amplo, ou com muitos integrantes. Em outro nível de análise, pode ser alguém com presunções aristocráticas ou de auto-importância, pois nosso herói procedia de família nobre e herdou o título de conde de seu pai, mas, certamente por seu ascendente Virgem, nunca fez alarde disso.

No momento do acidente, a noite de 29 para 30 de dezembro de 1935, Júpiter transitava pelos 11° de Sagitário. Em meados de novembro havia transitado em conjunção a Júpiter natal e em oposição a Marte natal. Esta oposição se caracteriza por uma excessiva audácia, por um sentimento exagerado de confiança, levando às vezes a realizar atos imprudentes. De fato, seu biógrafo (11) relata o contexto da realização da acidentada viagem. Apesar de sua situação econômica não andar muito boa, Exupéry não resistiu à tentação de comprar um avião, se bem que esperasse tirar proveito disso: o Ministério da Aeronáutica da França oferecia um prêmio de 150.000 francos a quem batesse o recorde de tempo no trajeto Paris-Saigon. Exupéry conseguiu inclusive que um periódico aceitasse publicar uma reportagem sobre o vôo. Mas sua situação econômica piorou tanto que não pôde pagar o aluguel do apartamento onde vivia com a esposa Consuelo, e ainda lhe cortaram a luz e o gás. "Nunca havia passado por uma situação semelhante. Não restava mais do que um modo de sair dela: bater o recorde Paris-Saigon" (12).

"Saint-Exupéry se encontrava visivelmente num estado nervoso pouco propício para embarcar numa experiência fisicamente exaustiva" (13)

Em 1935, tentado pela possibilidade de ganhar 150 mil francos,
Saint-Exupéry se lança à corrida Paris-Saïgon. O desafio era ligar as duas capitais
em menos de cinco dias e quatro horas. A partida acontece em 29 de dezembro.
Em 30 de dezembro, às 2h45 da madrugada, a aeronave se espatifa ao atingir
a crista de um planalto. Durante três dias o piloto e o mecânico
Jean Prévot caminham pelo deserto, sofrendo de sede, até serem resgatados
por um beduíno.

Nestas condições empreendeu a aventura que quase o levou a morrer de sede no deserto. É óbvio que existem outros fatores astrológicos a levar em conta, como a conjunção que naquele momento Júpiter em trânsito fazia à posição natal de Urano, o imprevisível deus do céu. É um aspecto que adiciona nervosismo, impaciência e uma sensação permanente de instabilidade. Esta conjunção afetava também o Nodo Norte, indicando possivelmente o sentido desta energia, tendo em conta que toda a configuração se encontra na casa 4 - a da queda no ventre da mãe-terra, como indicado não apenas por este acidente como também por várias outras ocorrências do mesmo gênero que colocaram em risco a curta vida deste escritor. Mas há outra interpretação indicada pelo sentido do eixo nodal (B): é a introversão da energia para o mundo emocional interno (Casa IV), coisa que, como depois veremos, foi uma conseqüência mediata do acidente, o qual seria artisticamente elaborado quando Exupery escreveu, seis anos depois, O Pequeno Príncipe.

Sabemos, por Jung, que quando faltam estímulos exteriores, tal como ocorre num deserto, o inconsciente começa a produzir seus próprios conteúdos, que se extrovertem na tela de projeção vazia que é o próprio deserto. Daí aparecem as alucinações - miragens. Além disso, a ciência médica diz que as extremas condições decorrentes do calor excessivo do deserto e da falta de água, combinados, dão como resultado diversos sintomas físicos: disfunção neurológica, conduta psicótica, delírios e alterações mentais. (C) (D).

Imagino que O Pequeno Príncipe seja um produto tardio desta experiência.

"Estava mais isolado que um náufrago sobre uma balsa no meio do oceano. Imagine, pois, minha surpresa quando, ao romper o dia, despertou uma estranha vozinha que dizia: - Por favor... me desenhe um cordeiro!" (14)

Como uma miragem, surgiu do deserto este homenzinho das estrelas. Desta maneira o inconsciente irrompeu como um fantasma.

Puer Aeternus

Voltemos para Saint-Exupéry, o aviador, escritor e aventureiro. Se observarmos sua carta natal, vemos que tem vários fatores que Chislovsky (15) considera relevantes para poder falar de uma personalidade Puer Aeternus:

1) Os quatro ângulos em signos comuns (Ascendente Virgo);
2) A metade dos planetas em signos comuns;
3) O eixo Aquário-Leão ocupado, com o regente Mercúrio no brincalhão Leão;
4) Câncer ocupado por Sol e Vênus.

E a que se refere este termo, Puer Aeternus? Trata-se do nome de um deus da antigüidade. Procede da Metamorfose de Ovídio, onde se aplica ao menino-deus dos mistérios Eleusinos (16) e, do ponto de vista da psicologia profunda de Carl Jung, representa um arquétipo relacionado com a mudança e a renovação.

Conforme Marie-Louise Von Franz, o homem que se identifica com o Puer Aeternus permanece muito tempo na psicologia adolescente "com uma dependência excessiva da mãe" (17).

Jung diz: "o Puer Aeternus só tem uma vida breve, pois sempre é uma mera antecipação de algo desejável e desejado. Isto é tão real que certo tipo de menino mimado ostenta também in concreto as propriedades do adolescente divino que floresce prematuramente, e inclusive sucumbe de morte precoce" (18). Recordemos que Saint-Exupéry morreu aos 44 anos. Sempre teve medo de ver-se colhido por uma situação da qual "poderia ser impossível escapar" (19). Além disso, tinha "uma fascinação por esportes perigosos, especialmente o vôo e o alpinismo". (20)

Seu pai morreu quando ele tinha quatro anos. Manteve pela vida inteira uma prolífica correspondência com a mãe que foi recolhida e publicada, em francês, em 1955. E Jung (21) diz, em uma nota de pé de página, que "o complexo materno deste autor foi abundantemente confirmado por informação de primeira mão".

Um príncipe de um asteróide, e além disso, apaixonado

N'O Pequeno Príncipe, diz o narrador: "tenho sérias razões para pensar que o planeta de onde vem O Pequeno Príncipe é o asteróide B612" (22).

A grande maioria dos asteróides descobertos até agora está numa região exatamente entre as órbitas de Marte e Júpiter. E como vimos, a carta de nosso escritor apresenta estes dois planetas em oposição, entre as casas IV e X, marcando um eixo entre a terra e o céu.

Na verdade não existe um asteróide B612, mas sim o 612, cujo nome é Verônica (22) e cuja posição era, para a data de nascimento de Saint-Exupéry, aproximadamente 23° de Capricórnio (23), a apenas dois graus e alguns minutos de sua oposição à Vênus natal.

Obviamente Verônica é um nome de mulher, e, além disso, é também uma planta herbácea de flores azuis (24).

Na obra, o Pequeno Príncipe tem uma relação intensa com uma flor que "havia germinado de uma semente trazida de sabe-se lá onde" (25) - de outro planeta? Na carta de Saint-Exupéry, Vênus está na casa XI, a casa aquariana das utopias, cabendo recordar que o significado etimológico desta última palavra é "não lugar". Podemos relacionar a flor com uma Vênus que vem de um não lugar. Isto se vê também em indivíduos com pouco enraizamento na Terra, cuja consciência está em algum não lugar fora da terra, ou seja, extraterrestre. Assim temos, por um lado, a Vênus natal do escritor e, por outro, a Vênus-Verônica do asteróide, em oposição entre a utópica casa XI e a casa da identidade, a V. As oposições se manifestam, geralmente, como o que em psicologia se chama projeção, quer dizer, o ver em outra pessoa características que nos são próprias, sejam estas consideradas boas ou más. O importante é o jogo de espelhos que se estabelece e que, astrologicamente, está simbolizado pela relação I-VII. Neste caso vemos que a Vênus-Verônica é a imagem refletida da Vênus do Saint-Exupéry. Além disso, Mercúrio, regente do Ascendente, está também na casa XI, em Leão, enquanto o Sol em Câncer, no final da casa X, encontra-se a apenas três graus da cúspide dessa mesma casa XI. O menino-adolescente Mercúrio, vindo de um local não determinado das estrelas (Casa XI), e em Leão - um príncipe. Recordemos que um príncipe é também o filho de um rei, com direitos de sucedê-lo no trono, e neste sentido nosso personagem é um rei em estado latente. Mas deste tema voltaremos a falar mais adiante.

Uma flor muito exigente



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