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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 102 :: Dezembro/2006 :: -

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ASTROLOGIA E FILOSOFIA

Confúcio ou o ideal de Libra

Silvia Ceres

O sistema de pensamento difundido na China por Confúcio é seguido ainda hoje por milhões de pessoas ao redor do mundo. Ao defender a eqüidade nas relações sociais, a consciência dos direitos e deveres e a bondade como fator instaurador da ordem, o que Confúcio propõe é um ideal libriano.

Conforme afirma W. E. Peuckert em seu livro L'astrologie: Son histoire, ses doctrines, o signo de Libra era desconhecido entre os assírios. Apenas no período babilônico será incorporado como um separador entre Virgem e Escorpião. Sua aparição coincide com as primeiras cidades que surgem na Mesopotâmia, constituídas por importantes massas camponesas que vão assimilando uma convivência urbana, assinalada pelo exercício do comércio, única atividade onde era possível ingressar em sociedades fortemente estratificadas. Para o autor, a balança que representa Libra é mais a do comércio que a da justiça. Utilizando seu olhar de antropólogo, acredita descobrir nas características vulgarmente atribuídas aos nativos deste signo mais semelhanças com a atitude puxa-saco de "o cliente sempre tem razão" do que com a função da senhora cega que tenta manter seus pratos em equilíbrio.

É interessante pensar na situação destes camponeses procedentes de pequenas aldeias, onde provavelmente grande parte da população mantinha laços sangüíneos mais ou menos próximos, convertidos em cidadãos, passando de um mundo conhecido, íntimo, a um mundo múltiplo, da endogamia a exogamia, do privado ao público, dos costumes ancestrais a uma rede de relações impessoais. Que melhor descrição da mudança de hemisfério implicada na passagem de Virgo para Libra? Se nos permitirmos uma certa ousadia teórica, poderíamos afirmar que quando uma sociedade sai de um estágio agrário de pequenas comunidades para começar a constituir um rudimento de estado, defronta-se com as dificuldades e os enigmas próprios do mundo libriano.

Assim, o universo intelectual de Confúcio, que tenta assentar as bases de um governo firme e justo para uma China convulsionada pelas lutas de clãs liderados por senhores, pareceu-nos um paradigma da temática do início da segunda metade do zodíaco, que mostra o envolvimento do indivíduo na vida social e coletiva.

"A filosofia chinesa antiga é basicamente um pensamento político. As grandes religiões se formarão em seguida ou virão de países estrangeiros, em momentos de menos crise política e espiritual", diz Lionello Lanciotti, um estudioso do tema [1]. Com base na Astrologia diríamos que uma religião (Sagitário) é a terceira instância do social, quando se superou a crise política e espiritual (Libra e Escorpião).

Percebe-se a acentuada afirmação do início do terceiro quadrante do zodíaco em uma frase de Confúcio respondendo a um discípulo: "Aqueles que não conhecem a vida, como poderiam conhecer a morte?", ou "Aqueles que não sabem servir aos homens, como podem servir aos espíritos?"

Durante toda sua vida combateu a irracionalidade das crenças, sem ser contrário ao religioso, só que estava decidido a encontrar soluções para os problemas terrestres. Por iguais motivos, sempre se preocupou mais com a sociedade do que com o indivíduo.

[1] LANCIOTTI, Lionello. Il libro della virtu e della via: il Te-tao-ching secondo il manoscritto di Ma-wang-tui. Milano, 1995.

K'ung Fu-tse, também chamado Confúcio no Ocidente

É o primeiro dos professores itinerantes que vão de uma região a outra oferecendo seus serviços aos chefes de estados e também aceitando alunos particulares. De acordo com a tradição viveu entre 551 e 479 A. C., embora sejam datas inseguras, que podem ter uma variação de aproximadamente 25 anos.

Nasceu no estado do Lu, de um pai ancião que o deixou órfão em tenra idade, e foi criado numa digna pobreza por sua mãe, embora a família dizia originar-se de uma prestigiosa casa real.

Serviu a vários primeiros ministros de Lu, e obteve um alto cargo de governo ao redor dos cinqüenta anos.

Caiu em desgraça por causa de uma intriga política e começou a ir de uma corte a outra com a esperança sempre frustrada de encontrar um príncipe capaz de realizar as condições de um estado ideal. Depois de treze anos de peregrinação, retornou a seu país, onde criou uma escola que alcançou considerável brilho e uma boa quantidade de discípulos. Três anos depois morreu.

Apesar de não escrever nada, renovou com suas interpretações o sentido dos velhos textos, expressando, ao comentá-los, idéias que lhe eram próprias. Reconhecia uma enorme perfeição nas primeiras épocas da dinastia e desejava que sua época retornasse àquela harmonia original, embora dia a dia observasse o aumento da desordem a seu redor. Não atribuía os males crescentes às instituições feudais, mas sim ao abandono das virtudes que tinham constituído sua força na época de ouro. Dizia: "Quem governa por meio de sua virtude é semelhante à Estrela Polar, que permanece fixa em seu lugar, enquanto todas as estrelas a saúdam".

Tal modelo de ordem está assegurado na terra pelas "Cinco relações sociais": entre soberano e súdito, entre pai e filho, entre irmão mais velho e irmão mais novo, entre marido e esposa, entre amigo e amigo. Ignorá-las é contradizer o "decreto do Céu". Mas para conhecer o dito "decreto do Céu" vale mais atuar que filosofar, e atuar significa que cada um cumpra com seu dever no lugar que lhe foi atribuído.

Para cooperar com o Céu o homem correto vigia sua conduta e faz o que deve fazer sem deixar-se perturbar pelo êxito ou o fracasso. O mestre ensinava através de exemplos práticos a discernir entre o bem e o mal; pretendia desenvolver em seus discípulos o raciocínio e a personalidade que os prepararia para seguir a via que o Céu lhes tinha esboçado.

Para realizar-se, para efetuar em si mesmo a ordem celeste, é necessário adquirir um conhecimento perfeito da natureza das coisas. Esta ciência permite a todo homem atuar com eqüidade (yi) em qualquer circunstância e compreender a significação íntima dos ritos (Li). Os ritos são apenas a expressão formal das relações normais entre os seres. As hierarquias e o respeito que elas implicam fundamentam a harmonia. Cada pessoa tem deveres em relação a sua família, a seu meio social e à sociedade toda, sendo eles proporcionais à posição ocupada pelo indivíduo. Estes deveres foram definidos pelos sábios e se expressam através dos rituais, e é aqui que reside o sentido profundo da etiqueta: a cada função social corresponde uma virtude especial.

Para conhecer as conveniências próprias de cada situação e não faltar à eqüidade em nenhuma circunstância é muito importante pôr as realidades de acordo com os termos que as designam. Uma sociedade está bem ordenada se cada um de seus membros atenta para o significado das palavras, como ensinava Confúcio:

Para governar um Estado o que se necessita em primeiro lugar é fazer uso das denominações corretas. Quando um príncipe se conduz como príncipe, um ministro como ministro, um pai como pai, um filho como filho, um país está bem governado.

A essência de um ser vem significada por um nome que ordena sua ação.

Dizia Confúcio: "Se os desejos do príncipe se encaminharem ao bem, o povo será bom. A virtude do príncipe é como o vento, e a da plebe como a erva. A erva deve curvar-se quando sopra sobre ela o vento." Um príncipe sábio deve, pois, "reformar-se a si mesmo e cumprir seus deveres para com seu próximo. Para cumprir seus deveres para com o próximo, deve conhecer os homens. Para conhecer os homens, deve conhecer o céu". Assim, a influência da virtude real se exerce sobre toda a sociedade. Uma íntima comunhão entre todos os membros do corpo social permite que cada um coopere para a integridade de todos.

O governo ideal é o do santo, como prova o reinado do rei Yu. A santidade é conhecimento inato dos símbolos, captação imediata do Bem e do Verdadeiro. Em épocas tumultuosas não aparecem santos, mas podem formar-se sábios que são "santos" por seu coração e seu espírito. O sábio adquire com o tempo o que o santo possui naturalmente. Nada constitui obstáculo para a sabedoria de um homem de boa vontade. A perfeição é inerente à natureza humana, é o fim e o começo de todas as coisas. Não há nada no mundo que não seja profundamente bom. Por isso o sábio coloca a perfeição acima de todas as coisas. "Para alcançar a sabedoria, é preciso elevar o coração com a leitura das odes, manter-se na retidão pela prática dos ritos e aperfeiçoar sua virtude com o cultivo da música." O estudo é necessário, mas não é suficiente se não for acompanhado de obras. Para crescer em virtude, é necessário examinar-se sem cessar, ser sincero consigo mesmo e reto com os outros.

O homem superior segue o caminho até o final, a fim de purificar a si mesmo, aos demais, ao mundo inteiro. O Bem é difusor de si mesmo, o sábio transforma o ambiente apenas com sua presença.

O sábio vence a si mesmo para conseguir manter seus poderes em equilíbrio. "A Virtude que se mantém no Invariável Meio, essa é a mais alta perfeição".

A moderação permite apreciar o que se deve fazer em cada circunstância. O sentido ritual (Li) permite estabelecer, entre os deveres, a ordem de importância que é eqüitativo observar. Mas o Yi (eqüidade) e o Li (cerimonial) não bastam se o sábio não acrescenta também o Jen (bondade). Quem não está motivado para a ação pela simpatia humana, não insufla em seus deveres o calor necessário e descuida do essencial, que é amar.

Se um filho não amar a seu pai, como poderia comportar-se como um filho? Se os homens não se amarem entre si como obter acordos eqüitativos acima das diferenças? O homem que possui o Jen é aquele cujo desejo de afirmar o próprio eu leva-o a afirmar os outros, e que desenvolve os outros ao desenvolver-se.

A aprendizagem do amor se realiza no círculo familiar: servindo aos pais se aprende a servir à comunidade, ao país e a todos os homens. A piedade filial e o respeito para os superiores são a raiz do Jen.

O Jen não é uma abstração, mas sim uma virtude que se fortifica com o exercício cotidiano e constitui a Virtude no sentido absoluto do termo. O sábio, que a possui em sua plenitude, sabe o que deve a seu próximo e o que deve a si mesmo. A regra de ouro para praticar as retidões: "Façam aos outros o que desejariam que lhes fizessem", e, para praticar o altruísmo: "Não façam aos outros o que não desejam que lhes façam". Quem adapta sua conduta a estes princípios é um sábio.

O Jen que as palavras bondade, benevolência, simpatia traduzem imperfeitamente é uma virtude transcendente que cria a seu redor a ordem e a harmonia. É uma virtude social que implica um conceito muito elevado da reciprocidade.

O que alguns confucionistas denominaram posteriormente "o princípio de aplicação do esquadro" consiste em medir o respeito devido ao próximo segundo o que alguém deve a si mesmo, e em aperfeiçoar-se de forma que os méritos do próximo resultem cada vez mais elevados. O sábio cultiva o homem porque confia na nobreza humana. "Os homens - dizia Confúcio - diferem menos por sua natureza que pela cultura que adquirem. Só quem não muda são os grandes sábios e os piores idiotas."

Retornando à Astrologia, e como síntese do pensamento de Confúcio, eis aqui uma enumeração de conceitos básicos, de seu ensino e do signo de Libra:

Yi: eqüidade.

Tao: caminho próprio, decoroso e equilibrado.

I: consciência dos direitos e dos deveres.

Li: regras de cerimonial.

Cheng-Ming: reconhecer o próprio lugar.

Hsiao: respeito para com os superiores (sábios e anciãos)

Li-Yueh: a música.

Jen: reciprocidade da conduta, bondade, simpatia.

Chun Tzu: pessoa ideal por seu valor pessoal.

Para concluir, deixemos falar o mestre, que dizia, referindo-se a sua própria vida:

Aos quinze anos meu coração se fixou com firmeza no estudo, aos trinta anos pude me manter em pé, aos quarenta anos a dúvida me abandonou, aos cinqüenta conheci o decreto do Céu. Aos sessenta anos meus ouvidos se abriram docilmente à Verdade, aos setenta pude seguir os desejos de meu coração sem transgredir nunca a regra.

Os "desejos de meu coração" (Vênus) e "sem transgredir nunca a regra" (Saturno): seria possível expressar com maior precisão o desejo último de um signo regido por Vênus e com Saturno exaltado?

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