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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 90 :: Dezembro/2005 :: -

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A ASTROLOGIA E OS NOMES

O batismo cristão dos deuses pagãos

Constantino K. Riemma

Ao associar os planetas não apenas com os mitos da cultura greco-romana mas também com as figuras mais relevantes do imaginário cristão, este estudo abre novas perspectivas para a compreensão de questões essenciais, como as qualidades do Cosmo e os caminhos da possível evolução do homem.

Quais seriam os nomes cristãos para os corpos celestes que foram personificados, entre nós, por deuses da mitologia greco-romana?

A Astrologia não depende tecnicamente de questões dessa natureza para exercer suas funções práticas. No entanto, as diferentes denominações, com tudo que implicam, permeiam nossas concepções, dão colorido específico à expressão e transmitem recados subjacentes. Mais ainda, os vários nomes são veículos para a expressão de fontes distintas de conhecimento que, em muitos casos, podem ter significativas diferenças de qualidade e de níveis de inspiração.

As designações astrológicas

Nem sempre precisamos recorrer aos mitos para designar as propriedades celestes. Para traduzirmos a força e o significado do Sol, na Astrologia, não temos necessidade de analogias mitológicas. Isso tanto é verdade que não vemos, nem nos livros nem nos cursos, algum autor ou professor dessa antiga ciência recorrer ao mito de Hélio ou de Apolo para explicar o papel do Sol numa carta astrológica. As propriedades tangíveis do Sol - luz, calor, vida - falam por si mesmas, e de modo tão veemente, que não nos faltam experiências diretas para estabelecer uma ponte com seu significado na Astrologia. E o mesmo acontece com a Lua, que, por seu impacto sensível sobre a vida na Terra, não exige o socorro de fontes mitológicas - a personificação de Selene ou Ártemis, por exemplo - para estabelecer um mínimo de relações analógicas, indispensáveis ao pensar astrológico.

A situação é totalmente diferente no caso dos planetas. Mesmo os que são visíveis a olho nu exigem algum treino para serem reconhecidos diretamente no céu e, afora pequenos detalhes, não induzem experiências que possam compor algum leque de significados. Nesse caso, mostra-se imprescindível a personificação das forças planetárias por meio de símbolos - usualmente deuses e mitos. E o mesmo ocorre com as constelações e signos correspondentes.

A Astrologia, por transitar pelo território de intersecção entre o mundo terrestre e o invisível, necessita de uma dupla referência: de um lado utiliza os recursos da ciência "racional", empírica e dedutiva, e de outro, a bagagem do conhecimento tradicional, simbólico e analógico. Não há outra maneira! Que o digam Freud e Jung, os fundadores da psicanálise e da psicologia analítica, áreas de conhecimento que também lidam com o espaço intermediário entre o que poderíamos chamar de mundo orgânico e mundo espiritual. Também eles tiveram que recorrer ao repertório mítico para traduzir suas percepções do plano psíquico do ser humano.

Nessa linha de considerações, a questão da relatividade ou parcialidade dos nomes atribuídos aos planetas e aos luminares ganha um interesse específico e permite algumas perguntas. De que modo o panteão de divindades que utilizamos para nomear os planetas enfatizam alguns de seus traços e diluem ou até mesmo ocultam outros? Qual era o colorido e a significação peculiar dos termos sumérios ou árabes? Será que não mudaríamos sensivelmente nosso entendimento das forças astrais se começássemos, por exemplo, a utilizar os nomes indianos, carregados de significado próprio? Ou os nomes astecas? Será que temos clareza do peso que tem em nossas avaliações o fato de associarmos as forças planetárias aos deuses da mitologia greco-romana?

Colocar essas questões não significa opor restrições ao repertório mítico ou simbólico, muito pelo contrário: como já ressaltamos, não existem recursos de linguagem mais apropriados para tratar de certos níveis de realidade que a nossa lógica só alcança até certo ponto. Mas os diferentes sistemas simbólicos, com os condicionamentos próprios a cada época, têm limites que devem ser levados em conta.

Não precisamos ir longe para exemplificar alguns paradoxos e condicionamentos que resultam dos nomes usados na Astrologia e na nossa vida diária. Damos, por exemplo, atributos masculinos ao Sol e femininos à Lua. No entanto, a língua alemã inverte essa polaridade: die Sonne (= a Sol) e der Monde (= o Lua). Esse fato deve ter algum efeito sobre o pensar e as impressões psicológicas dos falantes nativos da língua alemã. Algo similar acontece com a designação dos dias da semana entre nós, falantes nativos da língua portuguesa: utilizamos nomes vazios - segunda-feira, terça-feira... - enquanto que, por toda parte, as designações dos dias enunciam características e coloridos bastante específicos, de cunho astrológico e mitológico.

O dom de nomear

Os nomes que cada tradição atribui aos planetas não são gratuitos, ou pelo menos assim podemos afirmar se admitirmos que, na Idade de Ouro, dar nomes implicava em reconhecer a essência das coisas e dos seres nomeados.

No Gênesis, o privilégio de nomear foi atribuído pelo Criador a Adão Kadmon, o Homem Primordial: "Iahweh modelou então, do solo, todas as feras selvagens e todas as aves do céu e as conduziu ao homem para ver como ele as chamaria: cada qual deveria levar o nome que o homem lhe desse." Gn. 2-19

Os Santos Sábios, em cada corrente tradicional, ao atribuírem nomes aos planetas, seguramente recorriam ao acervo de símbolos e idéias revelados para aquele momento e para aquele povo. Por certo não "inventavam" nomes, como fazemos modernamente com as terminologias técnicas e científicas. E quando uma ciência era recebida de outro povo, os sábios traduziam os nomes de acordo com a própria tradição. Sumérios, hindus, chineses, egípcios, árabes, gregos e romanos, cada civilização por si mesma manteve a coerência entre as designações dos astros e o conjunto maior dos ensinamentos que as inspiravam. A astrologia praticada no mundo cristão, entretanto, manteve os nomes romanos dos planetas, deixando praticamente intocadas as significações do que hoje chamamos "mitos greco-romanos".

Duas linhas de argumentação comumente se apresentam nesse ponto:

De um lado, existem astrólogos que discutem as possíveis limitações, no âmbito do pensamento astrológico, decorrentes de um certo aprisionamento aos significados mitológicos que utilizamos. E seus argumentos tornam-se ainda mais dignos de consideração quando se discute a questão das designações atribuídas aos planetas e asteróides descobertos a partir do final do século XVIII. De fato, estamos longe de poder garantir que esses nomes foram atribuídos por "Santos Sábios", à luz de uma compreensão da natureza transcendente dos astros. O que sabemos, especialmente no mundo contemporâneo, é que astrônomos dão nomes aleatórios aos corpos celestes que descobrem, a partir de suas referências subjetivas, muitas vezes fortuitas.

A parcialidade dos nomes utilizados para os planetas trans-saturninos - os não visíveis a olho nu - evidencia-se sob mais de um aspecto. A prática astrológica, por exemplo no caso de Urano, descobriu um leque de significados funcionais desse planeta que não tem relação direta com o mito grego de Urano. Aliás, o nome usual de cada um dos cinco planetas que, ao lado do Sol e da Lua, compõem o setenário tradicional é, entre nós, o romano (a divindade da "mitologia latina") e não o grego, enquanto que os planetas trans-saturninos foram batizados, por seus descobridores, com nomes gregos, o que já indica uma ruptura de "linhagem", ainda que parcial. Outro ponto discutível do conteúdo simbólico do deus grego Urano, quando atribuído ao planeta que se encontra em órbita exterior à de Saturno, é que, no mito grego, ele é castrado e substituído por Cronos-Saturno, enquanto na nomeação astrológica moderna, Urano é quem substitui Cronos-Saturno na regência de Aquário... E comentários similares poderiam ser feitos com relação a Netuno, Plutão e assim por diante.

Nenhum nome é casual?



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