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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 182 :: Agosto/2013

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ASTROLOGIA E CULTURA DE MASSA

Amor à vida: a novela do quincunce
e das estranhas relações

Vanessa Tuleski

Amor à Vida estreou em 20 de maio de 2013, com bons índices de audiência. Vem trazendo à baila um grande debate sobre a aceitação da homossexualidade, através de dois de seus protagonistas, pai e filho, César e Félix. Amor à Vida se desenrola em momento social de muita reforma e discussão. O que teria a Astrologia a dizer a respeito desta novela, de acordo com o mapa de estreia?

Personagens de Amor à Vida

Personagens Bruno, Ninho, Pilar e Paulinha. Apenas a menina Paulinha não fez nada de condenável na trama (por enquanto). Fonte das imagens: site de divulgação da novela no portal Globo.com.

Filmes, livros, peças de teatro costumam estar em sintonia com a época que são produzidos. Para a Astrologia, o pano de fundo cultural pode ser compreendido pelos planetas que transitam no mínimo um ano em cada signo, no caso, de Júpiter em diante, sendo que a atual novela das nove (estamos em agosto de 2013) está espelhando bastante o trânsito de Saturno, que ingressou em Escorpião em outubro de 2012.

O próprio nome Amor à Vida é a cara de um Saturno que transita pelo signo que fala da morte. Não há signo que seja mais obcecado pela vida do que aquele que não esquece jamais a morte, e a tem como parâmetro. A trama espelha temas escorpianos diversos, como traições, temáticas de sexualidade, rejeição, desvios de dinheiro, herança, noivas que morrem no altar, etc. Mas ela tem uma particularidade interessante, também: não soa pesada, o que poderia acontecer com temas desta natureza. A que atribuir? É apenas um das características da novela que este artigo pretende desvendar.

Félix, o representante escorpiano

FélixDesde a sua estreia, um personagem se destacou: o vilão Félix, vivido pelo excelente Mateus Solano. No início da novela, Félix era um homossexual não assumido, casado com uma estilista, pai de um filho adolescente. Com figurino de roupas escuras, bem ao gosto do oitavo signo, logo atraiu a atenção do público por outras características que também podem ser escorpianas: o gosto pelo poder e a desconcertante (e às vezes hilariante) língua ferina.

Escorpião é um signo de sentimentos intensos, seja de amor, aversão ou qualquer outro, e em Félix dois deles aparecem declaradamente: a inveja da irmã Paloma e o ciúme pela atenção que a linda "garoto de ouro", médica, ganha ora do pai, ora da mãe. Paloma é para ele uma sombra e uma ameaça tão grande que Félix conseguiu separá-la da filha, só para que a menina não se tornasse uma possível herdeira do hospital que pertence ao pai dos dois irmãos.

A discussão da sexualidade de Félix

Nas últimas semanas, o personagem trouxe à baila outro tema escorpiano: a discussão sobre a sua sexualidade, no caso, homossexualidade, que gerou um grande antagonismo com o pai, machão de carteirinha. Estes capítulos, porém, expuseram o lado oculto da maldade exalada pelo personagem: a rejeição. Não que a última justifique a primeira, mas sem dúvida a agrava. É notório que muitos condenados tiveram passado de sérios abusos físico e verbal em suas infâncias – e que isto pode ter ajudado a tirar deles os limites de até onde ir. O vilão da novela das nove sempre se ressentiu de não ter tido sentimentos de admiração e validação da parte do pai, o que é uma lacuna séria para um menino. Não importava o que ele fizesse, a sua condição de homossexual sempre provocou aversão em César, que tinha uma clara predileção pela filha.

A novela ainda está acontecendo, por isto não sabemos qual será o destino do personagem, se existe alguma possibilidade de se humanizar. Nos capítulos em que a sua homossexualidade foi exposta por uma esposa insatisfeita (que, por sua vez, também se sentia rejeitada), o vilão vivenciou uma fragilidade temporária que o aproximou de todos os membros da sua família, com exceção do pai. Este, até então visto como um bom médico e até boa pessoa (ainda que com um não tão louvável passado de marido infiel), foi quem mostrou a sua face intolerante e implacável: rejeitou o filho e pisou nele tantas vezes quanto pôde.

O personagem, por sua vez, que estava começando a experimentar a sensação de compreensão com o afago e carinho da família, vivendo com ela uma conexão até então inédita, e quem sabe próximo de realizar mudanças na sua forma de ser e agir, teve de voltar o mais rapidamente possível à luta por sobrevivência (outro tema escorpiano), pois este pai, fixado nas aparências, o ameaçou expulsar do hospital – a razão da vida de Félix desde o início da novela – caso ele não implorasse de joelhos o retorno para a ex-esposa. Da rejeição à humilhação em um pulo.

Os desdobramentos da rejeição

O tema rejeição dá o que pensar. É de se perguntar quantos crimes e barbaridades já foram cometidos por causa da cortante frieza que ela acaba por perpetuar. Há, é claro, as atrocidades que não podem ser explicadas por este motivo, mas é provável que muitos comportamentos tortos e desvirtuados tenham nascido desta ferida de desamor, indiferença e desrespeito. Quantos por aí não têm uma ganância exacerbada de poder e de dinheiro que, no fundo, é uma forma de se validarem e de subirem acima da linha humilhante em que foram repetidamente colocados, e que não buscaram outro modo de resolver?

Os rejeitados podem ser também excelentes reprodutores do que receberam. Félix é tão pouco empático com seu filho quanto seu pai é com ele. Ele não quer saber da identidade e interesses do rapaz, assim como o pai nunca quis se aproximar dele. Quer obrigar o adolescente a ser médico da mesma forma que seu pai deseja que ele deixe de ser homossexual. Só que Félix é incapaz de enxergar esta conexão. Ele quer receber uma compreensão que não fornece. Muitas vezes, é grosseiro com os empregados e com quem quer que se apresente como mais fraco (um defeito, aliás, que também pode ser uma característica deste signo): Félix só respeita os fortes. E é o seu pai, um forte, que o humilha – e jamais dá uma chance.

No auge do desmascaramento da sua sexualidade (um tema escorpiano por excelência, e por isto não é de se estranhar que esteja sendo tão discutido pela mídia nos últimos tempos, com Saturno transitando por este signo), nosso vilão chegou a procurar a médica Glauce, com quem já tinha trocado várias farpas e que conseguiu ter a seu lado por causa de chantagens. Foi ela que o fez lembrar-se de quem ele era e atiçou seu impulso de destruir, como forma de defender-se de um pai que estava disposto a passar por cima dele como um trator.

O troca-troca de filhos

A rejeição é um tema tão forte em Amor à Vida que conseguiu produzir um número excepcional de 'não filhos' biológicos. Paloma não é filha de Pilar, e, o pior, sempre desconfiou disso, devido aos constantes atritos com a mãe adotiva. Talvez nem Félix seja. Jonathan, por sua vez, não é filho verdadeiro de Félix, e sim, de César. A menina Paulinha foi tirada da mãe Paloma, e o pai, Ninho, fez até um esforço recente para se aproximar da pré-adolescente, mas até este momento não houve continuidade. A rejeição também aparece na uma personagem autista que é constantemente pisada pela irmã. Já a moça rica, que é órfã, é enganada pelo noivo e pela funcionária de confiança.

MárciaAs relações escabrosas continuam. Márcia, ex-chacrete [foto], vive empurrando a filha para um marido rico. É uma forma de prostituição que é tratada como se fosse engraçada, já que a filha, por mais que se esforce, tem muita dificuldade no intento.

Há confusão também no que diz respeito a um casal homossexual que leva uma amiga para morar com eles porque ela será a barriga de aluguel. Um dos rapazes deste casamento estável se sente atraído pela amiga, por já ter tido um passado heterossexual.

A duplicidade também aparece no caso de Atílio, no início da novela um executivo sério e fiel, que sofre uma perda de memória que o faz desenvolver uma outra identidade e envolver-se com outra mulher. Quando a memória retorna, ele quer manter a vida dupla.

Todas estas situações bem podem lembrar as complexidades tortuosas de Saturno em Escorpião, que com frequência desafiam limites éticos. Este é um dos efeitos do trânsito, que não raro revela as dificuldades emocionais entre as pessoas, acirra-as, pede que sejam trabalhadas ou então faz com que tenham que ser esclarecidas através de discussões e conversas.

Parasitas do dinheiro alheio

Escorpianamente, a novela também gira bastante em torno do dinheiro do outro, um dos clássicos significados da oitava casa, com um grande número de parasitas. A então sogra de Félix fazia numerosas plásticas às expensas da família Khoury, morando sem qualquer constrangimento na mansão.

Também vovó Bernarda tinha uma vida própria e agora habita o casarão. A ex-mulher de Félix foi expulsa, mas retorna, regiamente paga para não fazer um escândalo. Uma mãe empurra a filha para um casamento rico, que garanta o futuro das duas. A ex-esposa de Atílio [abaixo, ao centro] vive acima das suas posses, mas constantemente consegue dinheiro para manter um estilo de vida que há muito tempo acabou. Um casal tenta tirar proveito de uma moça rica com uma doença grave. De onde se conclui que dinheiro dos outros é uma verdadeira festa em Amor à Vida.

Personagens complicados

Todo mundo guarda esqueletos no armário nesta novela.

O verniz da leveza

Conforme já foi mencionado, a novela, apesar de ter tantos desvios, não soa pesada. A explicação talvez esteja no mapa da estreia, marcado por uma concentração de planetas em Gêmeos, signo famoso pela leveza e humor. A Lua, por sua vez, que rege a reação do público, estava no charmoso e elegante Libra, outro signo de Ar, o mais leve dos elementos. Mas isto é só fachada. Assim como era a heterossexualidade de Félix. Na prática, o cardápio é bem indigesto, com numerosas relações confusas, como se muitas coisas estivessem fora do lugar. Assim como os filhos "trocados" da novela. Mas Gêmeos consegue dar a impressão de que nada é tão pesado e estranho assim.

Pelo horário de início, o Ascendente da novela é Capricórnio, regido por Saturno em Escorpião. No entanto, o mapa é dominado pelo stellium em Gêmeos, signo que forma quincunce com Escorpião. A novela é, portanto, um ótimo exemplo da incongruência deste aspecto, frequentemente subestimado e mal compreendido. Um mapa fortemente tensionado por um quincunce como este contém um padrão muito sério de inconsciência e inconsistências. Citemos dois bons exemplos disso na novela.

Amor à Vida - mapa de estreia

Amor à Vida - mapa de estreia - 20.5.2013, 21h - Rio de Janeiro, RJ - 043w14, 22s54.

A inconsistência do quincunce

O primeiro já foi mencionado: há uma mãe que empurra a filha para a prostituição (que é o ato de casar-se somente por dinheiro), sendo que a moça já ama um rapaz humilde. Como a menina é muito exagerada na forma como faz seu papel (talvez por não estar realmente convicta, mas só tentando agradar a mãe), tudo o que ela faz parece engraçado. Mas não há nada engraçado no velho golpe do baú e em uma mãe usar a filha para isto.

Um outro exemplo da dicotomia Gêmeos-Escorpião foi a própria revelação da homossexualidade de Félix. Mateus Solano chamou a atenção para o personagem porque desde o início conseguiu personificar um homem casado e pai de família, mas que dava sinais de ter outra orientação sexual. Qualquer telespectador que não soubesse nada da novela (como era o meu caso, então), poderia assistir e perceber. E, no entanto, toda a família de Félix supostamente ignorava e acreditava na sua encenação. A mãe, que é a sua maior defensora e quem mais o ama, revelou depois que fora avisada na infância das inclinações do filho. Se é tão amantíssima, por que não teve uma de suas famosas conversas íntimas antes que ele consumasse um casamento heterossexual? A avó também disse que sempre soube. No capítulo sobre a revelação da homossexualidade de Félix, pareceu que todo mundo sempre soube e não fez e não falou nada. Jogaram tudo para debaixo do tapete. Justamente um possível problema da combinação Gêmeos-Escorpião, que pode ser resumido como "algo me incomoda, mas eu não quero ver e nem falar sobre o assunto", uma vez que Gêmeos tem franca preferência pela leveza.

A polêmica da cabeleira ruiva

O conflito Gêmeos-Escorpião, contudo, foi além da própria ficção. Foi geminiana a reação da atriz Marina Ruy Barbosa, que, escalada para interpretar uma doente terminal, havia prometido ao autor sacrificar a famosa cabeleira em prol de um papel de grande dramaticidade (Escorpião). A atriz chegou a dar declarações desta intenção, de que por um bom papel seria capaz de tal gesto extremado, mas, na hora H, sua juventude (geminiana, afinal) predominou, e ela conseguiu um defensor de peso, o também autor de novelas Aguinaldo Silva, tão famoso quanto Félix pela língua afiada. O resultado é que os cabelos continuaram no lugar e o personagem, que iria sobreviver ao câncer (um tema escorpiano), teve seu destino também alterado, bem na base geminiana/escorpiana do "você não fez, eu também não faço; você não foi até o final, eu também não vou". Enquanto Escorpião faz pactos profundos, Gêmeos não consegue mergulhar. Se Escorpião é realidade, Gêmeos é faz de conta, e é este paradoxo que ronda o tempo inteiro Amor à Vida.

Gêmeos: vai e volta

Este "vou, não vou" geminiano também aparece no personagem Thales, médico ambicioso que se insinua para Félix para ascender no hospital, mas que na hora de ir até o final (Escorpião) enrola, se dizendo inseguro e novato (Gêmeos).

São muitas, aliás, as situações não concretizadas na novela, um reflexo da ênfase geminiana e da indecisa lua libriana. A periguete que não consegue agarrar um ricaço, apesar das várias tentativas. A gordinha que tenta vários expedientes para perder a virgindade, e que é sempre rechaçada (mas que, geminianamente, não parece sentir tanto isto, tentando novamente). O jovem casal "moderninho" que está sempre em um ata não desata, até porque o médico mais tarde revelou ter uma mulher (mais uma ambiguidade para uma novela repleta delas).

AtílioAmor à Vida tem também um núcleo bem inexpressivo, formado pela família de Bruno. São personagens que simplesmente não têm vida própria e que nunca disseram a que vieram, expressando uma falta de personalidade e consistência que também pode ser uma das expressões imputáveis ao signo de Gêmeos (que, obviamente, não tem apenas esta característica, mas pode ser uma delas). O núcleo familiar da ex-esposa de Atílio [foto], Gigi, é tão sem sentido quanto. Ambos são uma embolada de personagens-cardume, que seguem outros mais fortes, sem muita direção ou sentido.

É por isto que nesta novela Félix se destaca. Suas emoções de inveja, ciúme e rejeição são mais verdadeiras do que as lágrimas em geral açucaradas da sua boa irmã. É ele quem tem o perfil mais rico e complexo da novela, pois foi um homossexual competente em cumprir suas funções na cama com uma mulher, no fundo espera um dia o amor do pai e, apesar de frio e perigoso em vários momentos, aprecia verdadeiramente a mãe. E, com todas estas contradições, ou talvez por causa delas, acaba sendo o personagem mais tridimensional, profundo e verdadeiro da trama. Nem sua mãe o é, pois, afinal, faz vistas grossas a um marido cronicamente infiel, que já aprontou várias coisas graves (inclusive tê-la feito adotar uma criança proveniente de uma infidelidade), e nunca pareceu notar as constantes alfinetadas do filho como um sintoma de problemas sérios que se passam dentro dele, em parte razão de ter que sustentar uma vida de aparências a custa de sua inteireza.

Nem ódio, nem amor

Para completar, há outra coisa estranha nesta novela marcada pelo quincunce, o aspecto do não encaixe, que liga signos de diferentes polaridades, elementos e ritmos. Se os vilões das outras novelas muitas vezes conseguem tirar o público do sério e serem odiados, isto não acontece com nenhum em Amor à Vida. É como se cada um tivesse seus motivos racionais, como é o caso de Aline, a secretária que dorme com César a fim de apunhalá-lo por causa de algum assunto do passado. Este viés de racionalidade é algo característico do Ar, que é o elemento que predomina no mapa da novela. E da mesma forma que os vilões não são tão odiáveis, a dor dos mocinhos, como a heroína Paloma, irmã de Félix, também nunca é muito crível. Falta dramaticidade. Ficam na superfície (Gêmeos).

Eis, portanto, uma novela com temas em geral bem confusos, densos e pesados (Saturno em Escorpião), mas embalada no mais dourado papel de entretenimento (Gêmeos). O contraste do quincunce. O lado bom, a meu ver, é a mais madura discussão sobre homossexualidade até hoje vista em horário nobre, mostrando um pouco o "outro lado" do que é ter a sua sexualidade não aceita, refletindo o intenso questionamento social que vem ocorrendo sobre este assunto. Não por acaso a Lua da novela aspecta a quadratura Urano/Plutão, responsável por uma série de mexidas e reformas de todos os tipos nos últimos anos. E aí Gêmeos poderá cair bem, gerando algum tipo de debate ou discussão em torno de um tema, como é do seu feitio.

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