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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 120 :: Junho/2008 :: -

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NOVAS PROPOSTAS

As qualidades primitivas
e o cerne movente da vida

Gregório José Pereira de Queiroz

Um astrólogo que saiba mais ou menos como são as "substâncias disponíveis" na vida de uma pessoa é capaz de, com algum bom senso e inteligência, predizer como estas serão organizadas pelas linhas de força indicadas pela carta astrológica. Daí nasce um diagnóstico ou um prognóstico em Astrologia. Um astrólogo tarimbado faz isso cotidianamente, a ponto de as pessoas acharem que ele tem poderes divinatórios, percebendo o que pareceria impossível perceber por meios convencionais. Um astrólogo sabe das linhas de força atuantes em uma dada entidade, ou em uma situação. Se ele souber também das "substâncias" disponíveis em torno dessa entidade, poderá dizer, ou predizer, como ela se organiza ou se organizará num dado momento do tempo, passado, presente ou futuro.

selvagemDo que se depreende a importância de o astrólogo conhecer não apenas a sua matéria específica, a Astrologia, mas também as condições de vida em sua época, as condições sociais e culturais das pessoas ou entidades cujas cartas irá interpretar. Um astrólogo que se dispuser a interpretar a carta astrológica de alguém de uma cultura distante, de uma condição social muito diferente da sua e de uma idade cronológica a qual ainda não viveu, terá dificuldade para retratar as situações e os eventos que poderão ocorrer na vida dessa pessoa. Se um astrólogo brasileiro, classe média, 30 anos de idade, se dispuser a interpretar a carta astrológica de um mandarim ou um camponês chinês de 70 anos, e pressupondo que este astrólogo não tenha conhecimentos especiais das condições de vida na China, terá dificuldade em delinear as situações de vida e as motivações mentais e emocionais desse chinês. Embora tenha condições de, por meio da carta astrológica, predizer em termos gerais, em palavras que expressem “dinâmicas” e não “formas definidas”, o que se passa com o chinês, sua descrição deixará a desejar, pois que falta o elemento que completa a interpretação astrológica: o conhecimento das substâncias que serão movidas pelas forças dinâmicas.

As forças dinâmicas retratadas pela carta astrológica formam um pólo; as substâncias ambientais (condições biológicas, sociais etc.) formam outro pólo na composição de forças da existência. O terceiro fator entre estes dois poderia ser o próprio homem e os valores com os quais aciona sua existência. Contudo, na grande maioria das vezes o homem ignora as forças que compõem seu viver, e as coisas acabam se ajeitando simplesmente pela pressão com que as condições ambientais se impõem.

Sendo as substâncias ambientais responsáveis pela inércia e cristalização dos processos, estas tendem a se impor de modo visível e concreto, com o que o homem atual reconhece sua presença e importância com mais facilidade do que reconhece o pólo das forças dinâmicas. Este não é visível em manifestações diretas, não pode ser explicado pelas relações de causa e efeito materiais. Praticamente, só é reconhecido quando a pessoa é avisada de sua existência e passa a lhe dar atenção, e a conhecer como são seu funcionamento e leis.

Aquilo que a Astrologia representa, estuda e dá a conhecer pode perfeitamente passar desapercebido ou mesmo ser considerado inexistente, fruto de fantasia de pessoas imaginativas, que não sabem que a realidade se resume ao que é visível e tangível, às ações de causa e efeito da materialidade. A realidade parece mesmo ser formada apenas pelo que foi denominado aqui de substâncias formatórias, o que inclui tudo o que as ciências atuais estudam e conhecem, desde a biologia à sociologia, das leis de mercado à meteorologia e à geopolítica. E talvez estas ciências sejam bastante suficientes para o ser humano se relacionar de maneira satisfatória com o mundo à sua volta.

O ser humano que crê existirem somente as substâncias externas a si mesmo, poderá, com base apenas nos fatores externos e físicos, visíveis e tangíveis, passar muito bem sem reconhecer a natureza da dinâmica vital que o anima. A existência continuará a fazer sentido com base apenas nas leis naturais, físico-químicas, sociais e biológicas que regem esses fatores externos. Daí a Astrologia ser perfeitamente dispensável.

A exceção é quando o ser humano se interessa por compreender o que anima sua interioridade. A Astrologia, aparentemente, não faz falta para o entendimento do mundo: embora ela possa nos ajudar a entender o mundo, entender suas linhas de força, por assim dizer, sua ausência é real e somente sentida quando queremos conhecer a natureza da vida em particular que nos faz vivos, o fator que nos confere uma unidade integrada (e diferenciada da soma dos fatores ambientais) e a possível destinação dessa vida, pois aí a Astrologia é referência única.

Alguém que se aproxime do estudo das forças dinâmicas se aproxima ao mesmo tempo de seu próprio fluxo vital, daquilo que o anima e lhe dá coesão enquanto entidade viva. Esta talvez seja uma liberdade significativa em relação às condições dadas pelo ambiente: viver preponderantemente a vida que nos faz vivos.

Assim como as pessoas em suas vidas se aproximam mais da percepção das dinâmicas ou das substâncias, talvez pudéssemos também classificar os astrólogos entre aqueles que dão ênfase maior às dinâmicas puras, à leitura do cerne movente que põe a pessoa em ação em sua vida, e aqueles que dão ênfase maior às substâncias ambientais.

Os primeiros farão descrições mais abstratas, utilizando-se de palavras que ilustram condições dinâmicas, tais como “instabilidade ou estabilidade, rigor ou plasticidade, veemência, submissão, obstinação, versatilidade, entusiasmo, iniciativa, reserva, lentidão, retraimento, expansão” etc.. Os segundos farão descrições fatuais, ilustrando o evento que pode acontecer e não sua dinâmica interior; descreverá situações parecidas que já tenham lhe acontecido, ou acontecido em casos dos quais tomou conhecimento, ou mesmo delineará o evento como acha que virá a ser (ou terá sido, no caso de interpretar algo do passado ou um comportamento presente), com base em seu conhecimento das condições de vida da pessoa em questão. Este segundo tipo de astrólogo corre mais riscos em sua interpretação, na medida em que a carta espelha com exatidão as dinâmicas que precedem a forma, mas não descreve completamente a forma; contudo, suas imagens e descrições fatuais podem fazer com que a pessoa em questão reconheça mais facilmente o que o astrólogo quer dizer. O primeiro tipo de astrólogo corre menor risco, pois se atém ao estrito indicado pela carta; contudo, sua descrição abstrata encontra menos eco no imaginário da pessoa em questão, ainda mais se esta não é acostumada a lidar com a dinâmica pura dos eventos; o que é a grande maioria dos casos. 

O que a Astrologia nos leva a conhecer é o cerne movente das coisas. Olhos acostumados a enxergar o cerne movente por dentro da forma são raros. O exemplo de minha filha percebendo a dinâmica do besouro e do bovino é um caso isolado, um momento ocasional na vida dela ou de qualquer outra criança ou adulto, muito mais do que uma regra ou tendência. Não estamos acostumados a olhar o mundo desta forma. Se este tipo de olhar foi mais comum em alguma civilização ou antiguidade, não é este o caso dos olhos ocidentais contemporâneos: ao que parece, a forma fascina e fascinará cada vez mais.

Os próprios astrólogos não se referem ao seu conhecimento nestes termos, parecem desconhecer o cerne de sua própria arte. A parte da Astrologia que lida diretamente com esta questão, as qualidades primitivas (quente, frio, úmido e seco), é pouco utilizada, e até é mesmo, muitas vezes, desconhecida por astrólogos.

Não obstante, este modo de percepção está presente na relação do ser humano com algumas coisas à sua volta.

cristaisQuando vemos um cristal de quartzo, ou uma ametista, por exemplo, sabemos de algum modo reconhecer quando é um, quando é outro. Embora cada formação de quartzo e de ametista tenha uma forma única diferente de todos os demais quartzos e ametistas, quem tenha lidado algum tempo com estas pedras reconhecerá em diferentes ametistas que elas são “ametista”, e em diferentes cristais de quartzo que são “quartzo”.

Não é a forma estrita da formação do cristal que se está lendo e na qual se reconhece sua natureza, seu “tipo”: formações cristalinas são muito diferentes sempre, a depender das substâncias (físico-químicas) e das condições (geológicas) nas quais se formaram. Contudo, há algo comum a todos os quartzos, assim como há algo comum a todas as ametistas: cada tipo de cristal possui um sistema axial, um sistema de eixos e linhas de tensão (físico-químicas) de proporções geométricas invariáveis. Há algo “por trás” da sua forma variável que nos diz isso. Esse algo comum não é reconhecível apenas por especialistas. Nosso olhar rapidamente se apercebe de traços comuns a essas pedras, que não apenas as colorações características translúcida ou violeta respectivamente.

Esta é uma percepção semelhante àquela capaz de perceber o que estrutura o conhecimento astrológico. É o olhar de minha filha discernindo a presença de uma mesma força dinâmica operando através do inseto e do bovino. Pode ser um olhar pouco utilizado, mas ainda assim o ser humano está capacitado para ele e o utiliza, por exemplo, para reconhecer as formações dos cristais. Mas é um olhar que também se fez presente em campo bem distante do das formações geológicas.

Também as linhas de energia vital que percorrem o corpo humano, denominadas meridianos pela Acupuntura, e utilizadas para uma série de ações de cura e equilíbrio do organismo humano, estão para o corpo físico na mesma relação em que o cerne dinâmico está para a forma. Assim como os meridianos são utilizáveis para ações definidas e de conseqüências materiais, modificando o funcionamento de órgãos físicos e tendo efeitos mensuráveis, mas não podem ser trazidos inteiramente para o nível material (não são encontrados leitos físicos percorridos pela energia vital), também as qualidades dinâmicas a que se referem a Astrologia acionam o mundo das formas sem pertencer a este mundo.

Isto diferencia o sistema axial dos cristais, que é visível e tangível por meio de instrumentos que mensuram o mundo físico, dos meridianos da Acupuntura e do cerne vital indicado pelos dados astrológicos, os quais não podem ser vistos ou medidos diretamente. A “firmeza decidida” não pode ser mensurada diretamente a partir das ações do boi ou do besouro, embora possa ser percebida através destes. Nem tudo o que é perceptível é mensurável. O fato de algo ser percebido mas não poder ser medido torna-o não uma abstração ou ilusão, mas algo de uma natureza distinta do físico e do subjetivo.

A abrangência de um conceito, como o de um sistema de linhas de força a organizar a forma manifestada, que faz com que este sirva tão bem para definir coisas do mundo físico quanto do mundo psicológico, concede base à Astrologia. As linhas de força nas manifestações da forma têm suas determinantes para além dos dados físicos, mas podem ser lidas nas posições planetárias. As leis dos cristais podem ser lidas e reconhecidas na matéria física, são leis físico-químicas, ao contrário das leis astrológicas que não têm correspondência no plano material.

VacaA Astrologia trabalha com leis determinantes cujas causas não são localizáveis no plano material, mas cujas conseqüências afetam o plano material. Em outras palavras, a materialidade é afetada por forças imateriais. O pensamento corrente no Ocidente coloca a imaterialidade, automaticamente, no campo da subjetividade humana, no campo da psique: algo imaterial “só pode” existir enquanto subjetividade humana, é o que afirma o conhecimento destes nossos tempos. Para tal conhecimento só existem dois campos e somente estes dois: o palco material dos fenômenos externos e o palco subjetivo da psique. A Astrologia postula um terceiro palco como existente e tendo realidade, não sendo apenas fantasia imaginativa ou recurso retórico. O terceiro palco não é feito de fenômenos materiais nem de estados subjetivos; é ocupado por forças e qualidades dinâmicas. [5]

Um besouro subindo pela parede caiada, um boi parado em contraste com o crepúsculo pode ser a porta de entrada para este terceiro palco, no qual não estamos lidando com forças materiais, nem com reações subjetivas da psique nem com poderes misteriosos; lidamos com forças vitais cujas dinâmicas a Astrologia nos dá a conhecer.

NOTAS

[5] O conceito de “terceiro palco” é apresentado por Zuckerkandl em seu livro Sound and Symbol: music and the external world, como sendo postulado pela música; contudo, ele é igualmente postulado pela Astrologia.

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