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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 3 :: Setembro/1998 :: -

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AS BASES FILOSÓFICAS DA ASTROLOGIA

Estrelas Fixas

Barbara Abramo

A Precessão dos Equinócios na análise das Estrelas Fixas

A incorporação da precessão dos equinócios na prática profissional tem sido, na astrologia contemporânea, um dos eixos principais de debate entre os astrólogos, siderais ou tropicais - esta última modalidade muito mais difundida e conhecida no Brasil do que a anterior.

Da idade moderna em diante, o estudo e a observação das estrelas fixas foi sendo relegado a segundo plano e ocupou, até bem pouco tempo, a atenção de poucos astrólogos e pesquisadores, dentre eles os astrólogos uranianos e cosmobiólogos. Embora a discussão escape do objetivo deste texto, ela merece atenção adequada, pois dela depende a linha metodológica - e, em conseqüência, as práticas adotadas. Para compreensão mais clara do tema, recomendo artigo da profª. Paula Falcão, que explicou de modo cristalino a questão neste site [10].

Os astrólogos tropicais utilizam como padrão de referência as estações do ano e a relação Sol-Lua, como indicadores mais próximos de nosso campo de consciência e esfera de ação. Sideralistas, por outro lado, têm como base a galáxia e as estrelas, a Via Láctea; trabalham, portanto, com um campo mais genérico e coletivo, ainda que mais indireto, e por isso talvez tendam a prestar atenção às estrelas fixas - até mesmo as da Sphaera Barbarica.

As conseqüências práticas da decisão de precessionar ou não as estrelas fixas levanta também a lebre sobre a possibilidade de se precessionar também as progressões secundárias ou direções e revoluções solares. No limite, fica a questão: incluir ou não e até que ponto, estrelas fixas, Via Láctea, nebulosas e buracos negros em análises astrológicas? Como fazer isso?

Alguns incorporam todas as estrelas em seus trabalhos de pesquisa, elevando seu número para mais de 2 mil; outros apenas as estrelas da Sphaera Graeca. Uns utilizam os paranatellon, outros só utilizam as estrelas precessionadas próximas da eclíptica. A experiência pessoal neste sentido é o que mais interessa, pois somente submetendo à prática do trabalho cotidiano é que criaremos uma massa de informação ao longo do tempo capaz de esclarecer certas controvérsias [11].

[10] V. Falcão, na Bibliografia. Adiciono que, como se sabe, os astrônomos não usam limites das constelações como referência à eclíptica e nem os astrólogos usam os limites das constelações dos astrônomos. Os astrólogos tropicais medem um corpo celeste pela sua posição com relação à eclíptica, calculada a partir do ponto vernal; os astrônomos medem a ascensão reta e a declinação a partir do ponto vernal e os siderais, apesar de usarem as coordenadas eclípticas, usam o Zodíaco mantendo a posição em que os signos se encontravam há dois mil anos atrás, quando esse Zodíaco coincidia com as constelações.

[11] As revoluções solares precessionadas, por exemplo, levaram-me a fazer as pazes com esta técnica, revelando-se como um instrumento muito mais interessante; o mesmo com relação a progressões secundárias ou direções do arco solar. Algumas estrelas fixas da Sphaera Barbarica têm sentido em análises coletivas, enquanto as da Sphaera Graeca lançam muita luz nas situações individuais.

Estrelas Fixas - como usá-las na análise astrológica

Como uma coisa puxa a outra, a incorporação ou não da precessão dos equinócios às estrelas fixas da Sphaera Barbarica e da Sphaera Graeca terminou por criar algumas modalidades metodológicas importantes.

Com relação à precessão dos equinócios, algumas escolas utilizam as estrelas fixas nos seus graus fixos de 2000 anos atrás, enquanto outros incorporam a diferença progressiva. Atualmente, por exemplo, metade das estrelas da grande maioria das constelações zodiacais "adentrou" a área de outra.

Com relação às estrelas fixas que estão além da eclíptica, as orientações também variam:

  1. ignoram-se as distantes, prestando-se atenção às longitudes sem levar em conta a latitude;
  2. utilizam-se aspectos formados no grande círculo [12] no qual uma estrela e um planeta (aspectado) se encontram e que ambos definem;
  3. utilização apenas das estrelas que estão fisicamente nos grandes círculos do meridiano e do horizonte.

Num Tratado sobre as Estrelas Fixas brilhantes, datado de 379 d. C., e escrito por um autor grego desconhecido, há a exposição metodológica mais antiga de duas técnicas de análise das estrelas fixas: uma para as constelações da Sphaera Graeca e outra diferente, empregada com relação às estrelas extra-zodiacais, acima apontada. O Anônimo de 379, como é conhecido, propõe que as estrelas fixas próximas da eclíptica sejam tratadas como o são os planetas, à moda de seu tempo, e que as extra-zodiacais sejam incorporadas na análise astrológica quando aspectam ângulos e ao mesmo tempo ascendam, se ponham, culminem ou anti-culminem, como em uma versão simples dos paranatellon [13]. Para o Anônimo, os ângulos da esfera local eram o único veículo possível capaz de fazer com que uma estrela fixa, fora do zodíaco, pudesse se conectar com um planeta na carta natal, o que tem lógica em um sistema tropical. O autor testou suas afirmações [14]. A lista de estrelas e constelações classificadas no tratado do Anônimo divergem um pouco com relação à lista das Fases de Ptolomeu (imagem no topo da página). Nesta listagem, Ptolomeu elenca 30 estrelas, sendo 15 de primeira grandeza e a outra metade de segunda grandeza.

Outras fontes de registro estelar e sua contraparte simbólica e mitológica podem ser encontrados em Firmicus Maternus e Marcus Manilius. Ambos repetem as tradições anteriores.

No 1º capítulo d' O início da Sabedoria do pensador judeu Avraham ibn Ezra (imagem à direita), nascido na Espanha (1089-1164 d. C.), há uma relação pormenorizada das estrelas, as zodiacais e as extra-zodiacais, separadas pela sua posição norte ou sul com relação à eclíptica. A base de seu trabalho foi a astrologia árabe e há várias citações de Ptolomeu, aos "sábios da Índia, aos egípcios, com relação às estrelas". Assim, ibn Ezra afirma existirem 48 imagens, sendo 1022 o número de estrelas "de acordo com todos os antigos, incluindo Ptolomeu"; destas, 346 estrelas fazem parte dos signos zodiacais [15].

Há um interesse adicional nesta obra de ibn Ezra para estudiosos das estrelas fixas: grande parte das imagens associadas aos graus das faces - uma das cinco dignidades essenciais - são muito semelhantes às conhecidas Mansões Lunares, cuja história é um romance detetivesco que se perde na noite dos tempos. Estas imagens, compiladas por ibn Ezra e comparadas às do lendário Picatrix e às imagens elencadas no Filosofia Oculta de Cornelius Agrippa, mostram muita semelhança.

[12] Horizonte, Equador e Eclíptica.

[13] O termo grego originou os parans definidos por Fagan e Bradley da escola sideral, onde um corpo celeste X ascende, põe-se, culmina ou anti-culmina enquanto, no mesmo tempo, o corpo celeste Y ascende, põe-se, culmina ou anti-culmina. O emprego do termo pelos antigos era diferente e só designava a co-ascensão da estrela com um planeta. (V. Schmidt, na Bibliografia)

[14] Este tratado, posterior a Ptolomeu, foi citado por astrólogos da Idade Média e nele há referências claras aos conteúdos astrológicos das estrelas fixas e às conotações simbólicas das co-ascensões e co-culminações, contidas nas Fases, de Ptolomeu, mas esta parte está desaparecida. Assim, um planeta só aspecta uma estrela quando aspecta o grau de um ângulo, e se houver uma estrela no grande círculo daquele mesmo ângulo. (V. Schmidt na Bibliografia.)

[15] V. Ezra, Avraham ibn, na Bibliografia.

Estrelas Fixas e Mansões Lunares

Como se sabe, as mansões são baseadas em um ciclo lunar de 28 "casas" cuja delimitação normalmente leva o nome da estrela fixa mais importante de uma determinada constelação zodiacal; cada intervalo tem 12 graus, 51 minutos e 26 segundos. Sua origem remonta provavelmente aos cultos religiosos do Oriente Próximo e das escolas herméticas greco-egípcias, tendo sido mais tarde compiladas por algum hermético árabe ou neoplatônico que viveu antes do século XIII. Evidências indiretas mostram que o seu conhecimento era passado por mulheres - uma associação direta à Lua e ao feminino.

As mansões são divididas em quatro grupos de sete intervalos cada um. Semelhantes aos nakshatras da India e aos sieu da China, sua posição inicial começa no equinócio vernal, utilizando o zodíaco tropical ocidental, embora suas posições derivem das siderais anteriores. Com respeito às mansões lunares, existem dois estudos pormenorizados: o de Vivian Robson e A. Volguine - este último autor refere-se as mesmas imagens de Agrippa (imagem ao lado) e Picatrix acima nomeadas.

Da Idade Moderna aos dias de hoje

Os astrólogos do século 18, notadamente os europeus, utilizavam algumas estrelas fixas em suas análises e sempre com relação a um padrão já estabelecido por outros itens; na classificação das dignidades acidentais usadas na astrologia horária, poucas eram as estrelas fixas que realmente entravam no cômputo final: Algol era a mais maléfica e Spica a mais benéfica, e a significação e peso de Regulus dependia da situação. Apesar disso, na edição de 1675 do Animae Astrologica de Guido Bonattus, o astrólogo inglês William Lilly anexa um "catálogo de 50 das mais principais estrelas fixas", "mostrando sua verdadeira Longitude, Latitude, magnitude e Naturezas, para 1º de Janeiro do Ano de Cristo 1700". Por Naturezas ele entende simbolismo planetário atribuído a cada uma das estrelas citadas. Uma de suas estrelas prediletas, Regulus, a estrela mais brilhante da constelação do Leão, Cor Leonis, estava, àquela altura, a 25°20' Leo e outra de suas estrelas preferidas, Spica, estava a 19°38' Libra. Lilly atribui a Regulus a natureza de Marte e a Spica a natureza de Vênus.

No Almagesto de Ptolomeu, Spica faz parte das estrelas "que são a mistura de Afrodite e Hermes" [16]. (Em 2000 cada uma delas estará cerca de 3 graus e 40 minutos aproximadamente adiante da posição dada por Lilly). Com respeito à astrologia horária e às dignidades acidentais, os astrólogos da linha de Lilly atribuem pontos favoráveis a um planeta em conjunção, trígono ou sextil com Spica, notadamente a Lua, a Roda da Fortuna, a Cabeça do Dragão ou o Sol. O contrário ocorria com relação às estrelas de má reputação, como Algol.

Não há muito acordo entre os autores a respeito das "naturezas" atribuídas às estrelas fixas. Tudo é uma questão de pesquisa. Algumas obras de referência, escritas no século XX, são importantes para os estudiosos: a compilação feita pelo astrólogo R. Ebertin, e a listagem realizada por Vivian Robson nos anos 20 [17].

[16] V. Anonymous of 379, na Bibliografia.

[17] Ebertin, R. - The Combination of the Stellar Influences.
Robson, V. - The Fixed Stars and Constelations in Astrology.

Conclusão

O estudo das estrelas fixas é um tema apaixonante mas merece a escolha de uma técnica, e muito trabalho. Estrelas podem informar um pouco mais a respeito de uma condição já potencialmente sugerida pela configuração do Céu, esta é uma regra de ouro de Vivian Robson. O conhecimento do simbolismo da estrela e do aspecto mitológico da constelação é importante também.

A técnica que venho adotando com sucesso é a mais comum de todas: prestar atenção às estrelas colocadas nos ângulos principais da carta, principalmente quando em conjunção com um planeta ali posicionado - conjunções, oposições e paralelas de declinação com uma órbita não superior a um grau.

Bibliografia

ANONYMOUS of 379 - The Treatise on The Bright Fixed Stars - trad: R Schmidt, P.Hindsight, EUA, 1993
ARATUS - Phaenomena - Loeb Classical Libray - trad: Mair & Mair, Harvard U. Press, 1989
BAIGENT, M, CAMPION, N & HARVEY, C - Mundane Astrology - Thorsons, UK, 1995
BONATUS, Guido - Animae Astrologiae - ed: W Lilly (1676) - reimp: Just Us & Co, EUA, 1996
CAMPION, N - The Great Year - Penguin, col Arkana, EUA/UK, 1994
CHEVALIER, J & GHEERBRANT, A - Dictionnaire des Symboles - Ed R Lafont, Paris, 1982
EZRA, Avraham ibn- The Beginning of the Wisdom - trad.: Meira Epstein, ed Arhat, EUA, 1998
FALCÃO, Paula - A origem do Zodíaco in Revista Constelar n° 2, RJ, 1998
FILBEY, J & FILBEY, P - The Astrologers Companion - Aquarian Press, UK, 1986
FREER, Ian - The Picatrix: Lunar Mansions in Western Astrology - AAJ jan-feb 1996, vol 37, no 5
FRIAÇA, Amâncio - curso Origens - SP, 1998
KINGLEY, Peter - Ancient Philosophy Mystery, and Magic - Oxford U.P, UK, 1995
KITSON, Annabella, ed - History and Astrology: Clio and Urania confer - London, 1989
LILLY, W - A catalogue of Fifty of the most principal fixed stars, in Bonatus, G - op cit.
MATERNUS, Firmicus - Matheseos Libri VIII - trad. J R Bram, Noyes P, EUA, reimp: Just Us, EUA,s/d
ROBSON, V - The Fixed Stars & Constellations in Astrology (1923)- reimp.: Ascella Bks, UK, 1997
TESTER, J - A History of Western Astrology - Boydell, EUA, 1987
VOLGUINE, A - Astrologia Lunar - Ed Kier, Argentina, 1977
WALKER, C B F - A sketch of the development of mesopotamian astrology and horoscopes, in Kitson, A - op.cit

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