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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 125 :: Novembro/2008 :: -

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SIMBOLISMO ASTROLÓGICO NO CINEMA

I can't get no satisfaction

Vanessa Tuleski

PARTE III:
O que VOCÊ está fazendo da sua vida?

Tenho uma condescendência com a humanidade, pois dela faço parte. Eu creio que quem dorme um dia acorda. Que quem está louco um dia fica lúcido. Um dia, não sei quando, mas um dia.

Voltando, finalmente, ao nosso filme, Lanie é um ótimo exemplo do automatismo a que estamos sujeitos. Toda a vida dela, assim como a de milhares de pessoas, é construída em cima da aparência e da necessidade de se provar frente aos outros. A diferença entre obter sucesso ou não é pequena, porque qualquer conquista humana é instável e relativa, pelo simples motivo de que acaba no túmulo.

Satisfaction

I cant't get no satisfaction, um rock que fala de insatisfação e frustração, foi o grande sucesso dos Rolling Stones em 1966.

Eu posso ter sido Alexandre, o Grande, e um dia morri. Deixei meu nome nos anais da história, mas eu morri. Só a morte (regida, diga-se de passagem, por Escorpião) percebida em vida pode dar a exata proporção [3] das coisas, a de nem minimizar obras e conquistas, nem tampouco supervalorizá-las. Tudo do tamanho que tem de ser. Individual e coletivo a um só tempo. Michelangelo deixou um lindíssimo Davi. Se o mundo não for destruído, Michelangelo será lembrado. Todavia, mais do que ser lembrado, ele fez, ele realizou. Podem tomar de Michelangelo a notoriedade, mas não é possível tirar o que ele fez naquele tempo e espaço. Assim como não é possível tirar o que você está fazendo exatamente agora, ainda que o que você esteja fazendo venha a ser esquecido e sequer notado. Entretanto, nascidos do impulso individual (Áries), o que mais tememos é o esquecimento e o anonimato, pois isto nos anula, nega a nossa existência única. Quando nossa vida cotidiana está caminhando para algum grau de anonimato, desintegração ou esquecimento, isto é para nós pior que a morte, é causa da mais suprema angústia.

É o que Lanie experimenta no filme e é o que, quer saiba, quer não, você já experimentou ‘n’ vezes. Com o vaticínio de morte, a vida de Lanie, tão belamente construída, começa a se desintegrar. Quantas vezes você não se desintegrou e se refez quando perdeu algo ou alguém, quando foi duramente golpeado, quando sofreu uma mudança brusca? E quantas vezes não o consome o medo de se desintegrar, de perder uma posição, dinheiro, segurança, afeto? Quantas vezes você não morre, em pensamento, em sentimentos, em temores, em acontecimentos da sua vida?

Estranhamente, momentos assim, tão repelidos e afastados, muitas vezes parecem nos aproximar um pouco mais da nossa essência e nos tirar da loucura robotizada que socialmente nos acomete. Em um primeiro momento, quando Lanie descobre que o vidente não erra e que ela vai, de fato, morrer, ela resolve destruir um pouco. No caso dela, isto se traduz em encher a cara, comer à vontade, deixar de lado o fardo da aparência perfeita e da incrível compulsão em agradar os outros. Ela passa a buscar algum tipo de satisfação interna (prazer), ao invés de apenas externa (aprovação e reconhecimento). Finalmente outra forma de experimentar Touro! Pois os signos não possuem uma só representação e uso.

Angelina Jolie como Lanie

Tendemos a achar que depois do caos só pode haver mais caos. De fato, é o que aparenta ser. Quando um artista da mídia é descontrolado, mais descontrolado vai ficando, conforme os exemplos de duas mulheres notórias, Britney Spears e Amy Winehouse. Mas se a pessoa conseguir procurar algo em meio ao caos parece haver uma saída. Assim, ao mesmo tempo em que destrói, Lanie tenta fazer algo de válido. Aproxima-se mais da sua família, tem um diálogo mais franco com sua irmã. Tenta conhecer melhor seu colega de trabalho, por quem sempre se sentiu atraída. Ao invés de ficar somente na aparência, Lanie começa a buscar um pouco a essência. Suas posses, sua beleza, sua fama infelizmente serão inúteis até a quinta-feira em que irá morrer. A única coisa que será real para ela será o que ela viver, o que disser, o que experimentar. A marca que imprimir em si mesma e nas pessoas ao redor.

 Lanie não faz nada de notável. Não sai para fazer nenhuma loucura, não vai curtir seus últimos momentos em alto estilo. Não tem intenção alguma, a não ser aproveitar o tempo que lhe resta com alguma coisa que acrescente algo a ela, ou em que ela possa acrescentar algo a alguém. É, portanto, o processo de morrer que faz algo nela. Isto contraria a idéia de que tudo tem de ser acionado por nós. Estamos, atualmente, muito yang, isto é, voltados para a ação. Em um certo nível, Escorpião, o caos e a angústia, é a ligação com a natureza. Tem um componente intuitivo e instintivo, e, portanto, também passivo (yin) muito forte. Na vida, não só fazemos, como somos feitos, afetamos e somos afetados, deixamos obras e absorvemos as alheias, nos lapidamos e somos lapidados.

A partir do contato com a morte iminente, vai emergindo lentamente uma outra Lanie, completamente desconhecida para a própria protagonista, e até para o espectador. Não é nenhuma Lanie sensacional, grandiosa, boa ou inspirada. É apenas uma Lanie real, interessante, “viva”, mais profunda do que a rígida caricatura em que ela se transformara nos últimos anos.

Talvez seja mais uma mensagem de que não precisamos ser ‘super’. De que o que somos já é suficientemente bom, ainda que não reconheçamos isto. Ainda que as mensagens sejam sempre o contrário: seja mais, prove-se, supere os outros, seja melhor do que eles. O filme também fala sobre perfeccionismo, e o quanto ele pode ser uma doença. A doença de querer construir tudo segundo um padrão externo, para os outros verem. Nós nos vigiamos mutuamente segundo estes modelos: não estou tão bom, o outro está melhor, eu estou melhor do que o outro, etc.

O novo ‘eu’ de Lanie não emerge de um esforço deliberado de ser outra pessoa. Ela já fracassou (ao ter esta sentença de morte) tentando ser a Lanie montada e perfeita. Que outra personalidade poderia forjar? O afrouxamento que ela faz é um sintoma depressivo e de perda de sentido, que contraditoriamente, sem que ela perceba, a lapida, a reinventa e a devolve para si mesma. Quando ela desiste de ser qualquer coisa, passa a ser Lanie. Quando  desiste de querer controlar os resultados, ela começa a acertar. Interessantes estas mensagens, não? Quanto delas poderíamos aplicar em nossa vida? Não estaríamos todos nós em correrias desabaladas tentando alcançar algo fora de nós mesmos, como Lanie? Por que nunca achamos que a resposta para os nossos dilemas está exatamente dentro de nós, agora, na forma de nossos sentimentos e instintos (Escorpião)? Quando seremos realmente felizes, e o que é ser feliz? Do que depende a felicidade? Quando você responderá a estas perguntas para si mesmo?

A cena mais marcante do filme é quando, bêbada, Lanie lidera operários grevistas a cantarem a música dos Rolling Stones, Satisfaction. É um paradoxo que ela cante, até então, o que era a real história da sua vida (“I can’t get no satisfaction”), mas de uma forma repleta de prazer e satisfação. Isto é o Touro real. Achamos que Touro são as coisas forjadas, montadas, perfeitas. Touro é o prazer real. Touro só existe, de fato, a partir de Escorpião, que representaria a verdade, a autenticidade. Uma Lanie cheia de prazer canta que não tem satisfação... e está cheia dela. A anterior dizia que tinha satisfação, e não tinha praticamente nenhuma. Está próxima da morte e está linda, ainda que não esteja maquiada ou produzida. Algo (e que não é apenas álcool!) a anima a partir de dentro e faz com que, finalmente, sorria abertamente. Sorria com os olhos, e a alma.

greve

Jogar com opostos é algo típico de Escorpião, signo da morte, dos videntes, das coisas ditas estranhas (talvez como este texto, que viaja em cima de vários conceitos, como um tapete voador feito de retalhos). Para Escorpião, a crise pode ser a redenção. A morte, a vida. O caos é, ainda, a intervenção da ordem. Quando você perder, poderá ganhar. Um dia, um vidente mendigo poderá bater na sua porta e anunciar o seu fim. E o seu fim poderá ser o seu começo...

NOTAS:

[1] Hades é um outro nome para Plutão, que na astrologia é o planeta relacionado à morte e às grandes transformações.

[2] Áries é um signo regido por Marte, tanto quanto Escorpião. Ambos os signos são, portanto, criativos, pois Marte é energia, dinamismo, ação.

[3] Proporção, por sua vez, é um conceito venusiano. Vênus é o regente de Touro e Libra. Vênus rege a beleza, a harmonia, a proporção.

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