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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 07 - Janeiro/1999 [republicado em janeiro/2009] :: -

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ASTROLOGIA E CULTURA DE MASSA

Manchete: a revista, a TV, o homem

Fernando Fernandes

A revista Manchete e a Rede Manchete de Televisão marcaram época na cultura de massa. Entenda os mapas do fundador Adolpho Bloch e do império de comunicação que lançou Xuxa, produziu o sucesso Pantanal e desapareceu tragado num oceano de dívidas.

Logomarca Rede MancheteVeículos de comunicação de massa são organismos sociais que, tal como um ser humano, podem ter seus mapas astrológicos levantados e analisados. A carta de nascimento de um veículo de comunicação deve ser levantada para o cidade e o momento em que ocorre o primeiro contato com o público. No caso de uma TV, é o momento do início da primeira transmissão. No caso de jornais e revistas, há dúvidas: pode ser o momento em que o primeiro exemplar sai das rotativas ou em que a edição chega às bancas. Pode ainda ser o do lançamento oficial, numa festa ou coquetel. Por esta razão, poucos jornais e revistas têm cartas astrológicas precisas.

O mapa do lançamento expressa um conjunto de características que representam a natureza básica do veículo de comunicação, sua identidade própria, sua finalidade e seu potencial de relacionamento com o público. Pode-se submeter esta carta ao mesmo tratamento das cartas de seres humanos, com aplicação de técnicas de trânsito, progressões secundárias, sinastrias etc. É útil também confrontar o mapa de veículos de comunicação com o de seus criadores ou com os mapas determinantes do público a que se destinam. As possibilidades são praticamente inesgotáveis. Algumas delas são exploradas a seguir, na análise das cartas da revista Manchete e da Rede Manchete de Televisão.

Da revolução russa ao império do Russel

Adolpho BlochRua do Russel, bairro da Glória, Rio de Janeiro: ali, na sede das Empresas Bloch, surgia, às 19h do dia 5 de junho de 1983, a TV Manchete. Era a última conquista do império construído por Adolpho Bloch, imigrante judeu que chegara com toda a família ao Brasil em 1922, na condição de refugiado da revolução russa, e criara a revista semanal de maior sucesso no Brasil dos anos 50 a 70.

O mapa natal de Adolpho Bloch (8.10.1908, Jitomir (ou Zhytomyr), Ucrânia, horário desconhecido) revela-o como um homem criativo e visionário, com um forte componente pisciano. O Sol, em Libra, está em quadratura com a oposição entre Urano em Capricórnio e Netuno em Câncer; Plutão, no final de Gêmeos, é o foco de outra quadratura T, envolvendo também Marte em Virgem em oposição com a Lua em Peixes (considerando para o nascimento o horário do meio-dia). Metade dos planetas encontra-se em signos mutáveis, sendo Virgem o signo mais enfatizado, dada a presença de Vênus, Júpiter e Marte.

Adolpho Bloch - carta solar

Adolpho Bloch - 8.10.1908 - Zhytomir, Ucrânia - carta solar calculada para o meio-dia.

A quadratura Sol-Netuno, envolvendo o estético signo de Libra e o sensível signo de Câncer, coloca em evidência valores ligados à arte e à inspiração. Urano, também quadrando o Sol, responde pela impulsividade e por uma certa tendência a agir de forma independente, com base na própria intuição. Bloch era por vezes impulsivo e sujeito a arroubos passionais, especialmente quando se tratava de questões ligadas à arte. Outro aspecto tenso é a oposição Marte-Lua, indicadora de impaciência, enquanto o aspecto Lua-Plutão mostra-o como uma pessoa tenaz e obsessiva no afã de exercer controle direto sobre tudo que lhe importasse. Adolpho Bloch era um autocrata, um empresário à moda antiga, que jamais se desvinculou emocionalmente de seu trabalho e cujas opiniões apaixonadas muitas vezes se sobrepuseram ao parecer técnico dos executivos da organização.

Os Bloch fogem dos pogroms

A família Bloch já era dona de uma gráfica em Jitomir, e o menino Adolpho viveu até os nove anos num ambiente culto e confortável. Contudo, a revolução russa de 1917 trouxe reflexos terríveis para a comunidade judaica da região. Com o país mergulhado no caos e dez milhões de soldados voltando das frentes de batalha da Primeira Grande Guerra, começa um ciclo de pogroms (perseguições e atos de violência contra judeus) promovidos, na maioria, por tropas de cossacos. O próprio Adolpho Bloch conta:

A violência contra os judeus foi inaudita. A matança foi geral. (...) Quando os cossacos surgiram, desembainhando seus sabres e exigindo ouro, (...) quase não podia respirar de tanto ódio. E pensava: se eu pudesse fazer faltar o ar, por um minuto que fosse, os cossacos morreriam e pagariam caro a violência que cometiam. Deste episódio surgiu-me uma idéia que me acompanha desde aquele dia: o ar representa Deus. Está em toda parte, é invisível, tem vida. (...) Deus é onipresente. O ar também.

Esta concepção de Deus remete imediatamente à quadratura T do mapa de Adolpho, envolvendo o Sol libriano, Urano e Netuno. Urano rege Aquário, signo mental e do elemento Ar, assim como Libra. Netuno agrega ao aspecto uma dimensão mística e visionária, assim como um interesse pelo invisível. É bastante provável que uma das pontas desta configuração esteja na casa 9, das crenças religiosas.

Adolpho Bloch nos anos 30O período 1917-1921 é fértil em acontecimentos na vida de Adolpho Bloch. A família, correndo riscos cada vez maiores, decide mudar-se para Kiev. Lá, porém, continuam os pogroms e a instabilidade política. A família empobrece, o apartamento e a litotipografia dos Bloch são desapropriados pelo Estado. Em 1920, Kiev é invadida por 700 mil cavalarianos do marechal polonês Pilsudski, postos em fuga pelas tropas de Trotski algumas semanas depois. Em meados de 1921, os Bloch decidem emigrar. Havia um parente morando na Bahia, e o projeto era chegar ao Brasil para daqui obter o visto para os Estados Unidos. A viagem para Odessa, num trem de carga, traz novos riscos: patrulhas levam os últimos bens da família, a irmã de Adolpho quase é fuzilada e a travessia do Rio Dniester, em direção à Romênia, é feita numa noite escura, depois de muitos dias à espera de uma ocasião em que a guarda dos soldados pudesse ser burlada. A família Bloch chega a Constantinopla no dia que Adolpho faz treze anos. O passo seguinte é Nápoles, onde o agora adolescente chega a trabalhar como vagalume num cinema local. A viagem para o Brasil, na terceira classe de um navio, começa em dezembro de 1921. No início de 1922 a família está morando no Andaraí, tentando descobrir alguma forma de manter-se e tendo contato com um país absolutamente novo.

O estudo detalhado dos trânsitos, progressões secundárias e arcos solares deste período de turbulência pode ser uma chave preciosa para a retificação do mapa de Adolpho Bloch. Como tal análise foge ao escopo deste artigo, vale ressaltar apenas que a fase de mudanças de Jitomir para Kiev e daí para o Brasil ocorre exatamente sob uma ativação de Vênus e Júpiter natais por uma oposição de Urano em trânsito. O aspecto exato Urano-Júpiter – um índice de libertação e de abertura de horizontes – coincide com sua chegada ao Rio de Janeiro, o que mostra a importância de Urano no mapa deste imigrante que acabou por tornar-se um dos maiores empresários do setor de comunicação.

Foto: Adolpho Bloch e seu amigo, o presidente Juscelino Kubtischek, examinando uma maquete de Brasília.

Adolpho Bloch e JuscelinoAos poucos, já no Rio, a família volta ao ramo das gráficas, sendo que o jovem Adolpho logo estará à frente dos negócios, buscando ampliá-lo de todas as formas. Ao longo de trinta anos, desenvolve intensa atividade, sempre prestando serviços para terceiros, até que, em 1952, decide lançar sua própria revista de variedades. A energia voltada para o trabalho e a ambição agressiva estão presentes nos aspectos formados por Plutão, Marte e Lua; o gosto pelo perfeccionismo técnico, na ênfase em Virgem; e a necessidade de participar da vida cultural do país, não apenas como gráfico, mas como editor, define-se pela quadratura T entre Sol, Urano e Netuno. Estes últimos são planetas de âmbito coletivo que, em contato com o Sol, parecem ter dado a Adolpho Bloch a capacidade de sintonizar com as expectativas da massa e desenvolver uma linguagem jornalística adequada às necessidades do momento. A prova disso é que o mapa solar do lançamento de Manchete, em 23 de abril de 1952 (não temos a hora exata), apresenta uma fortíssima quadratura T envolvendo Saturno e Mercúrio em oposição, ambos fazendo quadratura a Urano, sendo que esta configuração ativa por trânsitos a configuração Urano-Sol-Netuno da carta de Bloch.

Aconteceu, virou Manchete

O que melhor define o mapa da revista Manchete é a presença de oito planetas em signos regidos por Marte e Vênus: o Sol está em Touro enquanto Netuno e Saturno ocupam Libra. Os três têm, portanto, o mesmo dispositor – Vênus que, com outros três planetas, ocupa o signo de Áries. Marte, em Escorpião, está em domicílio e é o dispositor final de toda a carta. Marte está retrógrado, tendência comum em escritores e em mapas de veículos de comunicação.

A ênfase Áries-Escorpião define Manchete como uma revista competitiva, marcial, vigorosa, objetiva, pioneira sob vários aspectos. Numa época em que a televisão apenas engatinhava, a revista ilustrada era ainda o grande veículo de comunicação popular, situação que só seria revertida nos primeiros anos da década de setenta, com o advento da TV a cores.

Notícias e informações, assim como revistas, de uma forma geral, são regidas por Mercúrio e Gêmeos. Entretanto, há uma diferença entre o título – a chamada, a manchete – e o corpo de uma matéria jornalística. O texto articulado, explicado, informativo, logicamente ordenado, é tipicamente mercuriano. Já o título é uma mensagem sintética, aquilo que vem “na frente” da notícia, algo cuja função é despertar o leitor, mobilizar sua atenção, impactá-lo com o apelo imediato de uma ou outra palavra-chave. Despertar, mobilizar, aumentar o fluxo de adrenalina são funções de Marte e Urano. Manchete é um termo que tem exatamente este sentido, podendo ser considerado um conceito ariano. Em inglês, temos a expressão header que vem de head, cabeça, que em português gera também a expressão cabeçalho. Cabeças são regidas por Marte. E Manchete é uma revista cujo nome encontra plena justificativa na carta astrológica de seu lançamento.

Revista Manchete - solar

Revista Manchete, lançamento - 23.4.1952 - carta solar - Rio de Janeiro, RJ

Contudo, a identidade gráfica de Manchete só foi plenamente definida em 1959-60. Até então, tratava-se de uma publicação de diagramação convencional, pesada, lembrando um jornal semanal – e eram extremamente feios os jornais da época, com a louvável exceção da Última Hora, de Samuel Weiner. Manchete pouco se distinguia de sua concorrente e líder de mercado O Cruzeiro, editada pelos Diários Associados de Assis Chateaubriand.

Manchete, 1973Dois momentos da revista Manchete: o número 2, de maio de 1952 (abaixo), com a foto de uma ave tropical na capa; e uma famosa edição de 1973 (à direita), trazendo na capa a modelo Rose di Primo sobre uma motocicleta.

A revolução visual veio na esteira do trânsito de Netuno sobre o Marte radical da revista. Netuno, planeta-chave para a compreensão da natureza da cultura de massa, é significador de formas de comunicação não verbais, inclusive a fotografia. No mapa natal de Manchete, este planeta está em Libra e recebe a oposição de Vênus, já simbolizando a futura preocupação que a revista teria com sua concepção estética e com a força sugestiva da imagem. O trânsito de Netuno sobre Marte desencadeia o “casamento” entre texto e fotografia num nível de sofisticação visual que deixaria rapidamente para trás a concorrente O Cruzeiro e faria Manchete reinar sozinha por quase uma década, até a entrada em cena das revistas semanais da Editora Abril.

Manchete n. 2Aos poucos, as empresas Bloch foram diversificando atividades e entrando no mercado das revistas especializadas, revistas infantis, livros e emissoras de rádio. Faltava a rede de televisão. Adolpho Bloch não demonstrava maior interesse pela idéia. No início dos anos oitenta, sua preferência era pela implantação de uma fábrica de latas de alumínio sem emendas, uma novidade promissora. Achava que a implantação de uma emissora de TV seria uma aventura arriscada e que desviaria as Empresas Bloch de sua vocação natural: o setor gráfico. Sua intuição estava correta. Mas acabou contaminado pelo entusiasmo dos executivos do grupo e embarcando numa aventura que seria a última de sua vida. E a mais desastrosa.

Uma rede de alto risco



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