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A POLÊMICA DO MAPA DO GRITO DO IPIRANGA

Urano chegou ao Ascendente?

Raul V. Martinez

 

Este texto é, basicamente, um acréscimo ao estudo apresentado
em Constelar número 22, com o título O Grito do Ipiranga.

Volto a falar do local da Proclamação da Independência do Brasil e do quadro O Grito do Ipiranga, de Pedro Américo, após ter tomado conhecimento do livro História da Independência do Brasil (Editado pela Casa do Livro, em 1972) e de uma planta da cidade de São Paulo, da segunda metade do século 19. Nessa planta aparece além de projeto de canalização do Tamanduatey a localização de construções então existentes, inclusive de uma que deve ser o antigo "Pouso do Ipiranga", lugar onde foi proclamada a Independência do país.

Como foi visto no estudo anterior, o professor José Murilo de Carvalho, titular do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro, publicou no Caderno Mais da Folha de S. Paulo em 26.12.1999 um texto intitulado Os esplendores da imortalidade, onde transcreve explicações dadas por Pedro Américo sobre as razões que o levaram a retratar n'O Grito do Ipiranga imagens que sabia não serem concordantes com a realidade dos fatos acontecidos naquela tarde de 7 de setembro de 1822, às margens do córrego do Ipiranga, quando Pedro I proclamou a Independência do Brasil.

Relembrando trechos desse artigo do professor Murilo de Carvalho:

"Um pintor de história deve restaurar com a linguagem da arte um acontecimento que não presenciou e que 'todos desejam contemplar revestido dos esplendores da imortalidade'. Assim escreveu Pedro Américo em texto explicativo sobre o quadro conhecido como 'O Grito do Ipiranga', completado em Florença em 1888 por encomenda da comissão de construção do monumento do Ipiranga. A tela tornou-se ícone nacional, representação maior da Independência. O texto descreve o grande cuidado do pintor em reproduzir de maneira exata o acontecimento. Leu, pesquisou, entrevistou testemunhas oculares, visitou o local. No entanto, por razões estéticas, teria sido obrigado a fazer mudanças nas personagens e no cenário afim de produzir os esplendores de imortalidade.

  De início, D. Pedro não podia montar a besta gateada de que falam as testemunhas. O pedestre animal, apesar de ter arcado com o peso imperial, teve o desgosto de se ver substituído no quadro pela nobreza de um cavalo. Com maior razão, prossegue o pintor, o augusto moço não podia ser representado com os traços fisionômicos de quem sofria as incômodas cólicas de uma diarréia. Como se sabe, a diarréia fora o motivo da parada da comitiva às margens do Ipiranga."

Notas que não constam do texto do professor Murilo de Carvalho:

(1) - A alteração do cenário levou à alteração do próprio local da proclamação. O lugar onde D. Pedro parou devido ao desarranjo intestinal e onde tomou conhecimento das cartas que o levaram a proclamar a Independência era o Pouso do Ipiranga, junto à venda do Alferes. Esse lugar não foi preservado, ficou fora do Parque da Independência, possivelmente para não ofuscar os "esplendores da imortalidade" que se procurava alcançar com o quadro de Pedro Américo.

Um avô de um amigo, que viveu no final do século 19 e início do século passado no Ipiranga, contou para o neto que se lembrava de cocheira que existia desde a época da proclamação da Independência, próxima de onde foi construído o Monumento - em local que a planta do acervo do Museu assinala construção que pode ser associada ao Pouso do Ipiranga. Nesse local da planta aparece um cercado, em forma de quadrilátero (quase quadrado), com algumas construções junto a uma de suas bordas, possivelmente daquela que fazia frente para o antigo caminho do mar. Essa área, não considerada pela comissão de construção do monumento do Ipiranga, passou a ser apenas uma cocheira no final do século 19. Hoje, considerando a posição assinalada nessa planta, a Igreja Nossa Senhora das Dores está nessa área, ou bem próxima dela.

(2) - A diarréia foi o motivo que levou o Príncipe a se adiantar, deixando para trás parte de sua comitiva, indo na frente para o Pouso do Ipiranga.

Continuando com trechos do artigo do professor Murilo de Carvalho:

"O uniforme da guarda de honra também foi alterado. A ocasião merecia traje de gala, em vez do uniforme 'pequeno'. Finalmente, o Ipiranga teve que ser desviado de seu curso para facilitar a composição do quadro. O carreiro com seu carro de bois, segundo o pintor, entrou em cena para dar cor local, retratar a placidez usual daquelas paragens, perturbada pelo acontecimento."

Comentário:

Não foi apenas o riacho que foi desviado de seu curso no quadro de Pedro Américo, mas o próprio local da proclamação foi alterado, para que a representação pudesse se aproximar do que havia retratado Meissonier em "1807, Friedland".

"O que Pedro Américo não conta é que seu quadro lembra a tela "1807, Friedland", de Ernest Meissonier , talvez para não reavivar acusação anterior de ter plagiado a "Batalha de Montebelo", de Appiani, em sua "Batalha de Avaí". O quadro de Meissonier, pintado em 1875, refere-se à batalha de Friedland, vencida por Napoleão em 1807. A semelhança na composição dos quadros é muito grande. Em ambos, a figura central, D. Pedro e Napoleão, é colocada sobre uma elevação do terreno, cercada por seus estados-maiores. Ao seu redor, em movimento circular, soldados entusiasmados saúdam com as espadas desembainhadas. A dinâmica das figuras nos dois quadros aponta para o centro ocupado pelo príncipe e pelo imperador. Sobressai em primeiro plano o movimento dos cavalos, cujo desenho exato era obsessão de Meissonier. Nos dois casos, finalmente, nenhuma ambigüidade quanto ao objetivo dos pintores: a exaltação do herói guerreiro.

Pedro Américo também não menciona em seu texto outro quadro sobre o mesmo tema da Independência, executado em 1844, a pedido do Senado Imperial, por François-René Moreaux, um pintor francês então residente no Rio. Não se sabe se conhecia o quadro de Moreaux, sem dúvida inferior ao seu em qualidade."

Outra nota que não consta do texto do professor Murilo de Carvalho:

A tela de Moreaux, intitulada "Proclamação da Independência", está no Museu Imperial, em Petrópolis. Nesse quadro D. Pedro é a figura central, montado em um cavalo, levantando com o braço direito o chapéu. Está entre poucos membros de sua comitiva, cercados por pessoas do povo, que comemoram o acontecimento. O terreno apresenta pequeno aclive e nele não aparece o riacho do Ipiranga.

Rastreando os passos de D. Pedro no 7 de setembro


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