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MITOLOGIA E TEMPOS MODERNOS
Do deus mutilado
ao bombardeio do Afeganistão

Cyd Marcus
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Os escolhidos das musas

Havia várias formas de mântica ou delírio, um delírio divino de acordo com a natureza do deus que tomava posse da pessoa: a mântica profética é de Apolo, a mântica erótica é de Afrodite e de Eros, a mântica ritual ou mistérica é de Dionísio, e havia também a mântica poética, ou das Musas.

As divindades tomam posse e então o indivíduo fala, escreve, compõe, e essa é uma idéia importante. O que nos interessa é a mântica poética das musas, que são nove e são filhas da deusa Mnemosina, a deusa da memória. O nome Mnemosina significa algo como lembrar-se bem. Teve nove filhas. Musa vem de uma palavra que significa guardar bem, conservar, por isso museu é um lugar onde se guardam as coisas dignas de serem conservadas. Assim, as Musas inspiram e guardam as produções superiores que precisam ser conservadas. A loucura, ou delírio profético produzido pelas Musas, é indispensável à criação da melhor poesia, porque a criação poética continha para o grego um elemento que não era escolhido ou obtido, mas dado pelo deus. Não basta ter técnica, não basta ser um hábil versejador, é preciso ter aquele algo mais que o deus dá para ser verdadeiramente um poeta, e isto vale até hoje para nós. Esta é a distinção que a gente faz, por exemplo, entre eloqüência e retórica: eloqüente você nasce e retórico você se torna. Retórica se aprende, mas eloqüente você nasce - o deus assinalou.

A este dom que o deus dá e que torna o poeta verdadeiramente um poeta, e não apenas um bom técnico, o grego dava o nome de Kidos, uma palavra que significa feito. Pode ser um feito guerreiro, excepcional. Aquele dedo de deus que baixa em alguém; você por exemplo bate aquele recorde que nunca ninguém bateu, aquele algo mais no esporte, na arte, na guerra. Por exemplo: Aquiles recebeu o kidos divino. Os deuses têm o kidos eternamente. De vez em quando concedem-no momentaneamente a um mortal. Dão e tiram, e é terrível quando acontece, pois a pessoa se sente mais ou menos assim: "pô, recebi, fui assinalado e de repente eles tiram", é a decadência... Os deuses dão às vezes a um humano esse poder excepcional, e é quando o humano se iguala momentaneamente ao divino. O grego dará a isso o nome de kidos, feito, glória, algo que irá fazer com que o lembremos eternamente.

Hesíodo e a musa - detalhe de pintura a óleo (Gustave Moreau, 1891). Apesar de totalmente fantasiosa, a obra preserva a noção de o poeta como um "escolhido" da musa.

As musas inspiravam o poeta. Mnemosina, a dona da memória, estava por trás disso tudo, porque o poeta tira do esquecimento. Os gregos diziam que o poeta e a lápide perpetuam o grande herói. As pedras, as inscrições, estão ali para atestar quem ele foi; mas quem assinala aquele que vai viver para sempre é o poeta. Foi o que aconteceu com Aquiles, a quem perguntaram: "queres morrer na juventude em plena explosão do teu heroísmo, ou queres ficar por aí e ter uma morte anônima?" E Aquiles disse: "quero morrer jovem e ser lembrado para sempre como um herói, o maior de todos". E assim foi feito: Aquiles morre, explode no seu heroísmo e é até hoje lembrado por todos. É uma idéia com a qual podemos trabalhar. Então a poesia tem faculdades misteriosas que dependem da graça divina, do kidos. Não é qualquer um que a recebe, como o poeta. Hesíodo, em Os Trabalhos e os Dias, diz que viu as Musas, e na Cosmogonia também existe a invocação das Musas. Em Camões encontramos a mesma idéia.

Dizia-se que as Musas viviam numa montanha perto da qual havia uma fonte, a fonte de hipocreme, que brotou quando o cavalo alado da mitologia grega, Pégasus, bateu com seus cascos nessa montanha.

Eis o cavalo como símbolo da inspiração, do psiquismo borbulhante. Por que o cavalo branco? Trata-se de um símbolo da inspiração controlada, pois só o herói monta o cavalo. Quer dizer, Pégasus simboliza aquela inspiração controlada, a grande inspiração, ao passo que o outro cavalo ameaçador é aquele que vem noturno, escuro, aquele cavalo que aparece no sonho. Aqui não se fala em inspiração controlada.

A nostalgia da idade do ouro


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