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Um
olhar brasileiro em Astrologia
Edição 160 :: Outubro/2011 :: - |
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ASTROLOGIA E ARTECoração de Estudante: a canção
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| Fernando Fernandes |
A letra de Coração de Estudante, de Milton Nascimento e Wagner Tiso, parece ter sido feita sob medida para explicar o mapa de Tancredo Neves, presidente eleito em 1985 cuja morte coincide com o início do processo de redemocratização do país.
Coração-de-Estudante é o nome popular da Begonia undulata, uma pequena flor da família das Begoniaceae [foto], muito comum em Minas Gerais e em outras regiões do país. Coração de Estudante (sem o hífen) é também o nome de uma canção de Milton Nascimento e Wagner Tiso, lançada no final de 1983 e logo transformada num dos hinos da campanha das Diretas Já. Milton cantou-a, por exemplo, num show na Praça da Apoteose, no Rio de Janeiro, no início de 1984, acompanhado por sessenta mil pessoas a agitar faixas e bandeiras. Simples e emotiva, a canção conseguiu captar o clima de esperança vivido pelo Brasil naquele momento, mas acabou ganhando também um uso inesperado: em versão instrumental, foi o fundo sonoro das Redes Globo e Bandeirantes durante a cobertura do longo velório de Tancredo Neves em Brasília, São Paulo e Belo Horizonte, assim como do sepultamento em São João Del-Rei. Sem saber, Milton e Wagner Tiso haviam produzido o hino de um dos maiores momentos de mobilização popular da história nacional.
A escolha não foi casual, já que o próprio Tancredo adorava a música. Além do mais, a letra guarda diversas analogias com a carta do presidente eleito. É como se os autores tivessem conseguido traduzir em versos as configurações mais importantes do mapa do político mineiro que, internado às pressas na véspera de sua posse e submetido a sete cirurgias, acabou morrendo sem ocupar por um único dia a Presidência da República.
Consideremos em primeiro lugar o mapa de Tancredo Neves:

Tancredo de Almeida Neves - 4.3.1910, 4h LMT - S. João del Rei, MG
044w15, 21s08.
Uma análise superficial da carta mostra que, apesar do Sol em Peixes (Água) e da Lua em Sagitário (Fogo), o que predomina é o Ar, mais livre e imponderável de todos os elementos, associado à vida mental e ao gosto pelos contatos sociais. Em Ar estão o Ascendente Aquário e os planetas Vênus, Mercúrio, Júpiter e Plutão, além do Nodo Norte. Não é à toa que esse político mineiro entrou para a História como um grande argumentador e articulador.
Outro traço muito característico da carta é a dispersão dos planetas por nove signos diferentes, formando um padrão comumente conhecido como Salpicado. É um desenho que revela muitos focos de interesse e capacidade de lidar com assuntos díspares, ou com projetos contraditórios. Além do mais, Tancredo tinha Mercúrio (comunicação) e Vênus (afetividade, sociabilidade) no Ascendente, indicando uma disposição para o discurso persuasivo e para o uso da simpatia pessoal em prol da conciliação e do diálogo. Mas vamos à letra de Coração de Estudante:
Coração de Estudante
(Milton Nascimento / Wagner Tiso)
Quero falar de uma coisa
Adivinha onde ela anda
Deve estar dentro do peito
Ou caminha pelo ar
Pode estar aqui ao lado
Bem mais perto que pensamos
A folha da juventude
É o nome certo desse amor
A primeira estrofe fala de algo impalpável, que está em toda parte e “caminha pelo ar”. É um sentimento – a esperança – relacionado à possibilidade da implantação de um regime aberto e democrático. O elemento Ar, tão forte no mapa de Tancredo, é o das idéias, dos projetos, dos conceitos e abstrações. Idéias não são aprisionáveis. Mesmo o homem no cárcere é capaz de ir a qualquer parte e sonhar todos os sonhos através do pensamento.
Aquário no Ascendente de Tancredo (e também da carta de Independência do Brasil) é o signo que melhor consubstancia o conceito de liberdade. Mercúrio, ali posicionado, regente de Gêmeos na casa 5 (a casa do coração), traz à tona os valores de adolescência: é a folha da juventude, o próprio coração de estudante. Mercúrio está em conjunção com Vênus sobre o Ascendente. Por isso, pode ser claramente descrito pelos versos “a folha da juventude (Mercúrio) é o nome certo desse amor (Vênus)”. Juventude, aliás, também é atributo de Júpiter (a palavra deriva de Jove, outro nome romano do Deus), e o Júpiter de Tancredo está em trígono com Vênus.
Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Quantas vezes se escondeu
Mas renova-se a esperança
Nova aurora a cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê flor e fruto
O sentimento de esperança e de liberdade não se afirma sem dificuldades, conforme nos diz a segunda estrofe: “já podaram seus momentos, desviaram seu destino”. Basta procurar Urano, regente moderno do Ascendente Aquário, para encontrá-lo na casa 12, recebendo a restritiva quadratura de Saturno. É um sonho “escondido”. Mas a esperança se renova (Mercúrio em trígono com Plutão na 5) e encara otimisticamente o futuro (Mercúrio em trígono com Júpiter na 9). Um dos fundamentos desta esperança é a força da amizade, da alegria e do sonho, tudo isso simbolizado por Júpiter na 9 (crenças) regente da 11 (amizades) e pela Lua sagitariana na cúspide da 11.
Coração de estudante
Há que se cuidar da vida
Há que se cuidar do mundo
Tomar conta da amizade
Alegria e muito sonho
Espalhados no caminho
Verdes: planta e sentimento
Folhas, Coração, Juventude e Fé.
Os dois últimos versos unem conceitos que guardam correspondência com a casa 1 de Tancredo Neves ao unirem o verde da esperança (Júpiter em Libra em trígono com seu dispositor, Vênus, e com o jovem Mercúrio, ambos em Aquário) ao coração (Mercúrio, regente da casa 5) e à fé (Júpiter e Vênus, regente da casa 9, significadora das crenças).
Se Tancredo tivesse vivido para governar o Brasil, é certo que o desgaste político do dia a dia traria a progressiva diluição dos ideais da Nova República, que ele corporificou. Mas Mercúrio no Ascendente é também o regente de Virgem na 8. O regente da casa da morte na casa da afirmação da vida é um posicionamento pleno de possibilidades contraditórias. Considerando que Mercúrio faz ainda trígono com o transmutador Plutão na 5, temos em Tancredo o simbolismo daquele que morreu para insuflar vida numa nova fase da história do país: morte e regeneração. O idoso senhor de 75 anos consolidou, com sua passagem para outro plano, a “nova aurora” em que o broto da democracia daria “flor e fruto”.
As imagens mais fortes do longo velório de Tancredo foram duas: a multidão comprimida junto às grades dos aeroportos de Brasília e São Paulo enquanto o avião que levava seu corpo levantava voo; e a escolta de jovens em motocicletas que espontaneamente acompanhou o cortejo pelas ruas de Belo Horizonte. Aquele corpo “caminhando pelo ar” e agregando a barulhenta juventude em torno de um cortejo fúnebre representou o ato final de uma vida sempre vivida com a amplitude do modelo Salpicado: unir os opostos e criar novas sínteses com elementos díspares. Só mesmo um Salpicado poderia chegar ao poder com um leque de apoios tão diversos, de militares moderados a ex-integrantes de grupos radicais de esquerda, e afirmar para todos, em seu discurso de candidato eleito: “Não vamos nos dispersar.”
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