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Que mapas utilizar para contextualizar a eleição
do novo papa? Afinal, quando começa a história da
Igreja Católica e do papado? Este artigo rastreia os três
remotos momentos em que o Catolicismo se estrutura e mostra por
que o novo ocupante do trono de São Pedro poderá ser
um tipo radical e inflexível.

Para entender a eleição do papa que
sucederá João Paulo II no trono do Vaticano é
preciso relacionar o momento atual com a história do papado,
de forma a obter-se uma perspectiva mais ampla e contextualizada.
Alguns astrólogos vêm traçando paralelos entre
os mapas dos principais candidatos e o da criação
do moderno Estado do Vaticano. Trata-se de uma boa linha de investigação?
A atual status do Vaticano como um Estado independente
resultou de um acordo entre o papa Pio XI e o ditador fascista que
então governava a Itália, Benito Mussolini. Na verdade
não foi uma criação, mas uma restauração,
já que a Igreja, durante séculos, gozou de autonomia
política com jurisdição sobre extensos territórios.
Tal situação só fora modificada durante o século
XIX, quando os acontecimentos decorrentes das guerras napoleônicas
e da unificação italiana reduziram drasticamente a
importância da Igreja como potência política
e econômica.
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| Reconhecimento do Estado
do Vaticano pela Itália fascista - 7 de junho de 1929,
11h CET - Roma. Este é apenas um mapa subsidiário
para entender a eleição do novo papa, mas vale
observar a posição de Netuno junto ao Ascendente
e de Júpiter junto ao Meio-Céu, exatamente os
dois regentes de Peixes, signo que melhor expressa a natureza
do Cristianismo. |
Assim, a (re)criação do Estado do Vaticano
teve, antes de tudo, efeito diplomático, significando o reconhecimento
pelo governo italiano da existência da Santa Sé como
um poder político autônomo. O mapa do Vaticano não
explica a enorme importância da Igreja Católica, nem
a primazia do papa - o antigo Bispo de Roma - sobre as demais autoridades
eclesiásticas. Para entender tais questões é
preciso ir mais longe.
Tradicionalmente os católicos remetem o início
do papado ao ministério do apóstolo Pedro, que, três
décadas após a morte de Jesus, deslocou-se para Roma
para pregar o Evangelho e liderar a nascente comunidade cristã.
Contudo, o apostolado de Pedro e seus sucessores era exercido de
forma clandestina, já que o Cristianismo, que não
contava com o reconhecimento oficial, passou a ser objeto de terríveis
perseguições. Pouco a pouco, porém, o crescimento
da comunidade cristã - inclusive entre os soldados do império
- levou a uma convivência mais pacífica com as autoridades
públicas, até que, no ano 312, o Imperador Constantino,
inspirado por visões místicas antes de uma batalha
contra seu rival Maxêncio, decidiu incorporar símbolos
cristãos ao estandarte do exército que comandava.
Vitorioso, fez publicar no ano seguinte o Edito de Tolerância
(ou Edito de Milão), pelo qual concedia aos cristãos
plena liberdade de culto. Daí em diante estava aberto o caminho
para a transformação do Cristianismo em religião
oficial.
Em 323 o imperador Constantino professa publicamente
sua conversão ao Cristianismo. Em 325, realiza-se o Concílio
de Nicéia (cidade da Anatólia, atual Turquia). É
o primeiro concílio ecumênico da Igreja, tendo sido
convocado pelo próprio imperador. O encontro reúne
aproximadamente trezentos bispos, fixa os principais dogmas da fé
e condena as primeiras heresias. Pode-se considerá-lo como
o ato de fundação da Igreja Católica como a
conhecemos hoje. Contudo, faltava ainda transformá-la em
religião oficial do Império. Isso só vem a
ocorrer em 380, por decreto do imperador Teodósio, que logo
no ano seguinte convoca o Concílio de Constantinopla.
Quando se fecha o século IV, já temos
então uma igreja organizada e oficial. Faltava apenas consolidar
sua hierarquia, com a definição da primazia de uma
única autoridade eclesiástica sobre todas as demais.
Isso só vem a acontecer em meados do século seguinte,
como nos informa Carlos Hollanda:
O primeiro papa que pode ser considerado com tal título,
segundo Ferdinand Lot, em O fim do mundo antigo e o início
da Idade Média, é Leão Magno, ou Leão
I, que passou a ter soberania (principado, "primaz" -
primeiro) sobre os outros bispos. Isso ocorre entre 440 e 461 d.C.,
durante seu "governo" no Império Romano do Ocidente.
Uma questão notável sobre Leão
Magno são seus esforços para impedir ou mitigar os
efeitos da invasão dos hunos e dos vândalos em Roma,
com acordos entre ele e o próprio Átila, em 452, e
com uma ida ao acampamento dos Vândalos para negociar com
Genserico, em 455, uma invasão que não fosse marcada
pela tortura dos romanos ou pelo incêndio da cidade. Nesse
último caso ele deu azar: os vândalos saquearam
Roma, deixando em pé somente as basílicas.
Contudo, pode-se argumentar também que o conceito
da primazia de Roma já estava presente desde o Concílio
de Constantinopla, convocado por Teodósio em maio de 381
(data ignorada), cujas discussões já focalizam um
problema que afetará a Igreja Cristã durante muitos
séculos, até sua cisão em 1054:
Outra resolução aprovada pelo Concílio
dizia respeito à sede episcopal de Constantinopla. Estabelecia-se
a precedência do bispo na Nova Roma (Constantinopla) sobre
os outros patriarcas da Igreja Oriental, mas abaixo do bispo
de Roma. Vemos aqui estabelecida uma nova hierarquia entre
as igrejas e o lançamento das bases que servirão
posteriormente para as aspirações ecumênicas
do patriarca de Constantinopla. [GIORDANI, Mario Curtis. História
do Império Bizantino. Vozes, Petrópolis, 1968.]
Um último passo no processo de constituição
do poder da Igreja foi a aliança entre o papado e o reino
dos Francos, no século VIII. Como parte de um acordo de mútua
proteção, em 756 o rei Pepino, o Breve, faz extensas
doações de terra à Igreja, semente do futuro
poder temporal do papa. Mas o grande ato simbólico que fixa
esta aliança é a restauração do conceito
de um Império Romano capaz de unir política e religiosamente
toda a Cristandade. O momento que simboliza tal restauração
é a coroação de Carlos Magno pelo papa, na
noite de Natal do ano 800. Pode-se considerar este o último
dos grandes mapas-matrizes da Igreja Católica.
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| Coroação
de Carlos Magno - 25.12.800, 0h LMT - Roma, Itália. |
Tal como a carta da (re)criação do
Vaticano, em 1929, trata-se de um mapa com ênfase em fatores
piscianos: Júpiter e Lua estão em conjunção
em Peixes enquanto Netuno é o planeta mais destacado, pela
sua posição no Ascendente.
Veremos a seguir, com mais detalhes, os mapas de
três momentos marcantes da formação da Igreja
Católica, que foram a definição do Credo, a
oficialização da Igreja Católica e a ascensão
ao poder de Leão I.
"Creio em Deus Pai...":
em Nicéia, está nascendo a Igreja Católica
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