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CONDOLEEZA RICE ENFRENTA O MACACO LOUCO

A Menina Superpoderosa
que comanda a América

Fernando Fernandes

 

Analisando o desenho: uma versão moderna das Eríneas

Filhas de uma experiência de laboratório, as Meninas Superpoderosas apresentam a particularidade de terem dois "pais": um "legítimo", o professor Utonium, e outro, o Macaco Louco, em decorrência de uma trapalhada casual. Nenhuma mãe. Surgem elas portanto como fruto de uma competição de egos num mundo controlado por homens. De um lado, o vaidoso cientista, corporificando a pretensão prometéica de Aquário, que se considera capaz de reproduzir os mecanismos da vida criando seres geneticamente perfeitos; do outro, um macaco, animal que simboliza um estágio infra-humano, inferior ou arcaico da evolução, dando forma aos aspectos mais primitivos ou mais negativos do eixo Leão-Aquário: a veleidade intelectual do uso do conhecimento para o controle absoluto, a cisão entre ciência e respeito humano, o ego hipertrofiado. O macaco é mostrado sempre com a cabeça enfaixada, o que expressa a idéia de que ele é um "cérebro doente", poderoso, ampliado em suas capacidades, mas incapaz de funcionar de forma conjugada com a sensibilidade que faria do personagem um ser humano completo.

Fruto de uma ordem masculina, resta às meninas agir também de acordo com as regras do mundo patriarcal. O que as torna superpoderosas é a força física descomunal, assim como a capacidade de voar. Na hora de enfrentar os vilões, elas desafiam, fazem ameaças, batem, agridem, enfim, comportam-se como qualquer garoto na mesma situação. A mensagem parece ser: se queremos obter reconhecimento da comunidade, precisamos lutar com as armas que realmente são valorizadas - as armas do mundo masculino.

Meninas Superpoderosas, pré-estréia - 12.3.1995, 19h (EST) - Atlanta, Georgia - 33n44, 84w23.

A primeira apresentação pública de um desenho das Meninas Superpoderosas aconteceu em 12 de março de 1995, numa transmissão do Cartoon Network. Levantando o mapa para Atlanta, às 19h (hora do início do programa), observamos que Virgem aparece no Ascendente, enquanto Mercúrio, seu regente, encontra-se na cúspide da casa 6, em Aquário, envolvido numa quadratura com Plutão na casa 3. Temos aí colocada, neste mapa mais remoto, a problemática do uso da ciência como fator de controle social. Aqueles enormes e densos olhos zangados das Meninas Superpoderosas dão um eloqüente testemunho do toque plutoniano (controle) envolvendo o regente do Ascendente (significador de aparência física).

Mas o que realmente chama a atenção nesta carta é o fato de que todos os planetas caem, direta ou indiretamente, sob o controle de Júpiter domiciliado em Sagitário na casa 3. Júpiter é o planeta da hipertrofia, do exagero - inclusive dos superpoderes das menininhas. É também o princípio da política, da lei e da justiça, em correspondência com o papel das meninas como defensoras da prefeitura e da comunidade de Townsville, a cidade natal. Como este Júpiter está muito próximo do Ascendente da carta da Independência dos Estados Unidos, podemos ver que as heroínas, em sua ânsia de defender a vizinhança (casa 3) e de assumir por conta própria o papel de justiceiras da pólis, repercutem o mapa do país e revelam algumas facetas de sua cultura nos anos noventa. Em primeiro lugar, as Meninas Superpoderosas surgem num momento em que multiplicavam-se as ocorrências de violência infantil em escolas americanas. Crianças e pré-adolescentes desajustados, de posse de armamento pesado, andavam metralhando coleguinhas de escola por motivos absolutamente fúteis. As três heroínas, na medida em que tomam decididamente o partido da lei e da ordem, representam uma espécie de antídoto contra a desagregação social que parecia tomar conta do país. Elas são precoces, mas apenas tão precoces quanto a violência que as cerca.

Outra associação possível para Florzinha, Docinho e Lindinha é com as Eríneas ou Fúrias, três entidades mitológicas sempre retratadas a acossar incansavelmente suas vítimas, até levá-las à loucura. As Eríneas são forças punitivas, capazes de perseguir e torturar não apenas os culpados que ainda circulam no plano dos vivos, mas também os criminosos hediondos que habitam o Tártaro, nas regiões infernais do Hades.

Orestes perseguido pelas Fúrias, pintura de 1862 de Bouguereau.

Na concepção grega da formação da raça humana, Gaia, a Terra, une-se apaixonadamente a Urano, o Céu, e gera com ele uma raça de entes violentos e descontrolados, os Titãs, os Hecatônquiros (gigantes monstruosos com 100 braços e 50 olhos) e os Ciclopes (seres de um olho só).

Os seres monstruosos gerados na relação de Urano e Gaia simbolizam a violência telúrica das fases iniciais da formação do planeta, quando grandes mudanças climáticas e geológicas criavam condições de permanente instabilidade que, aparentemente, não serviam a qualquer objetivo superior. Revoltado com a violência dos próprios filhos, Urano lança-os ao Tártaro, onde, aprisionados, não poderiam mais provocar tanta destruição. Entretanto, Gaia, a mãe sensível, tem piedade dos filhos e liberta-os às escondidas. Um desses filhos, Cronos, decide dar fim ao ciclo de Urano, castrando o pai com uma foice exatamente no momento em que este iria fecundar Gaia mais uma vez. Como Urano é imortal, sobrevive à castração. Contudo, seu sangue, ao derramar-se sobre a Terra, dá origem às Eríneas, enquanto seu sêmen, caindo no mar, dá origem à espuma da qual nasce Afrodite, deusa da beleza.

A castração de Urano é o mito da superação de uma fase criativa (Urano não parava de fecundar Gaia) mas sem finalidade, já que a fecundidade de Urano não preenchia nenhum propósito social. Em seu lugar surge a sociedade submetida a um princípio de ordem, já potencialmente capaz de evoluir no tempo (Cronos), se bem que o novo deus passe a devorar os próprios filhos, temendo que acontecesse a ele o mesmo que fizera a seu pai... Seria preciso que Cronos, por sua vez, fosse destronado por Zeus para que triunfasse enfim o princípio da evolução.

Curiosamente, as meninas Superpoderosas são "filhas" de uma figura uraniana, o professor Utonium, que brinca de deus gerando seres sobre os quais não tem absoluto controle. As próprias meninas estão neste caso, já que seus superpoderes são fruto de um acidente. Da mesma forma, o Macaco Louco guarda analogia com os Hecatônquiros e outros seres monstruosos e disformes, capazes de trazer consigo a perturbação e o caos.

As três heroínas mirins surgem também em ressonância com o sentido da conjunção Urano-Netuno em Capricórnio (já a desfazer-se, mas ainda ativa em 1995): num momento em que estruturas de poder tradicionais estão a desabar, é necessário encontrar novas formas de proteção do organismo social. É significativo que os homens que detêm o poder em Townsville não sejam lá muito espertos, ou muito competentes. O prefeito depende dos conselhos da Srta. Bellum (um nome que sugere guerra, sem falar que ela é ruiva - um tipo Áries/Marte); o professor Utonium não é tão importante para Florzinha quanto a Professora da Escola Carvalhinho. Em outras palavras: o mundo aparentemente masculino das Meninas Superpoderosas é, no fundo, controlado por mulheres, e mulheres de comportamento pouco usual. A Lua em Leão como planeta mais elevado desta carta, em oposição ao excêntrico Urano, assim como a oposição Marte-Vênus no eixo Leão-Aquário falam desta feminilidade nada tradicional, ou nada conformada aos papéis predeterminados.

Passada a primeira apresentação pública, entretanto, os personagens de Craig McCracken tiveram de amargar três anos e meio na gaveta até terem a chance de ganhar vida num seriado regular.

O lançamento definitivo das meninas do jardim de infância

Atalhos de Constelar 81 - março/2005

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