|
Analisando o desenho: uma
versão moderna das Eríneas
Filhas de uma experiência de laboratório,
as Meninas Superpoderosas apresentam a particularidade de terem
dois "pais": um "legítimo", o professor
Utonium, e outro, o Macaco Louco, em decorrência de uma trapalhada
casual. Nenhuma mãe. Surgem elas portanto como fruto de uma
competição de egos num mundo controlado por homens.
De um lado, o vaidoso cientista, corporificando a pretensão
prometéica de Aquário, que se considera capaz de reproduzir
os mecanismos da vida criando seres geneticamente perfeitos; do
outro, um macaco, animal que simboliza um estágio infra-humano,
inferior ou arcaico da evolução, dando forma aos aspectos
mais primitivos ou mais negativos do eixo Leão-Aquário:
a veleidade intelectual do uso do conhecimento para o controle absoluto,
a cisão entre ciência e respeito humano, o ego hipertrofiado.
O macaco é mostrado sempre com a cabeça enfaixada,
o que expressa a idéia de que ele é um "cérebro
doente", poderoso, ampliado em suas capacidades, mas incapaz
de funcionar de forma conjugada com a sensibilidade que faria do
personagem um ser humano completo.
Fruto de uma ordem masculina, resta às meninas
agir também de acordo com as regras do mundo patriarcal.
O que as torna superpoderosas é a força física
descomunal, assim como a capacidade de voar. Na hora de enfrentar
os vilões, elas desafiam, fazem ameaças, batem, agridem,
enfim, comportam-se como qualquer garoto na mesma situação.
A mensagem parece ser: se queremos obter reconhecimento da comunidade,
precisamos lutar com as armas que realmente são valorizadas
- as armas do mundo masculino.
 |
| Meninas Superpoderosas, pré-estréia
- 12.3.1995, 19h (EST) - Atlanta, Georgia - 33n44, 84w23. |
A primeira apresentação pública
de um desenho das Meninas Superpoderosas aconteceu em 12 de março
de 1995, numa transmissão do Cartoon Network. Levantando
o mapa para Atlanta, às 19h (hora do início do programa),
observamos que Virgem aparece no Ascendente, enquanto Mercúrio,
seu regente, encontra-se na cúspide da casa 6, em Aquário,
envolvido numa quadratura com Plutão na casa 3. Temos aí
colocada, neste mapa mais remoto, a problemática do uso da
ciência como fator de controle social. Aqueles enormes e densos
olhos zangados das Meninas Superpoderosas dão um eloqüente
testemunho do toque plutoniano (controle) envolvendo o regente do
Ascendente (significador de aparência física).
Mas o que realmente chama a atenção
nesta carta é o fato de que todos os planetas caem, direta
ou indiretamente, sob o controle de Júpiter domiciliado em
Sagitário na casa 3. Júpiter é o planeta da
hipertrofia, do exagero - inclusive dos superpoderes das menininhas.
É também o princípio da política, da
lei e da justiça, em correspondência com o papel das
meninas como defensoras da prefeitura e da comunidade de Townsville,
a cidade natal. Como este Júpiter está muito próximo
do Ascendente da carta da Independência dos Estados Unidos,
podemos ver que as heroínas, em sua ânsia de defender
a vizinhança (casa 3) e de assumir por conta própria
o papel de justiceiras da pólis, repercutem o mapa
do país e revelam algumas facetas de sua cultura nos anos
noventa. Em primeiro lugar, as Meninas Superpoderosas surgem num
momento em que multiplicavam-se as ocorrências de violência
infantil em escolas americanas. Crianças e pré-adolescentes
desajustados, de posse de armamento pesado, andavam metralhando
coleguinhas de escola por motivos absolutamente fúteis. As
três heroínas, na medida em que tomam decididamente
o partido da lei e da ordem, representam uma espécie de antídoto
contra a desagregação social que parecia tomar conta
do país. Elas são precoces, mas apenas tão
precoces quanto a violência que as cerca.
Outra associação possível para
Florzinha, Docinho e Lindinha é com as Eríneas
ou Fúrias, três entidades mitológicas
sempre retratadas a acossar incansavelmente suas vítimas,
até levá-las à loucura. As Eríneas são
forças punitivas, capazes de perseguir e torturar não
apenas os culpados que ainda circulam no plano dos vivos, mas também
os criminosos hediondos que habitam o Tártaro, nas regiões
infernais do Hades.
 |
| Orestes perseguido pelas Fúrias, pintura
de 1862 de Bouguereau. |
Na concepção grega da formação
da raça humana, Gaia, a Terra, une-se apaixonadamente a Urano,
o Céu, e gera com ele uma raça de entes violentos
e descontrolados, os Titãs, os Hecatônquiros (gigantes
monstruosos com 100 braços e 50 olhos) e os Ciclopes (seres
de um olho só).
Os seres monstruosos gerados na relação
de Urano e Gaia simbolizam a violência telúrica das
fases iniciais da formação do planeta, quando grandes
mudanças climáticas e geológicas criavam condições
de permanente instabilidade que, aparentemente, não serviam
a qualquer objetivo superior. Revoltado com a violência dos
próprios filhos, Urano lança-os ao Tártaro,
onde, aprisionados, não poderiam mais provocar tanta destruição.
Entretanto, Gaia, a mãe sensível, tem piedade dos
filhos e liberta-os às escondidas. Um desses filhos, Cronos,
decide dar fim ao ciclo de Urano, castrando o pai com uma foice
exatamente no momento em que este iria fecundar Gaia mais uma vez.
Como Urano é imortal, sobrevive à castração.
Contudo, seu sangue, ao derramar-se sobre a Terra, dá origem
às Eríneas, enquanto seu sêmen, caindo no mar,
dá origem à espuma da qual nasce Afrodite, deusa da
beleza.
A castração de Urano é o mito
da superação de uma fase criativa (Urano não
parava de fecundar Gaia) mas sem finalidade, já que a fecundidade
de Urano não preenchia nenhum propósito social. Em
seu lugar surge a sociedade submetida a um princípio de ordem,
já potencialmente capaz de evoluir no tempo (Cronos), se
bem que o novo deus passe a devorar os próprios filhos, temendo
que acontecesse a ele o mesmo que fizera a seu pai... Seria preciso
que Cronos, por sua vez, fosse destronado por Zeus para que triunfasse
enfim o princípio da evolução.
Curiosamente, as meninas Superpoderosas são
"filhas" de uma figura uraniana, o professor Utonium,
que brinca de deus gerando seres sobre os quais não tem absoluto
controle. As próprias meninas estão neste caso, já
que seus superpoderes são fruto de um acidente. Da mesma
forma, o Macaco Louco guarda analogia com os Hecatônquiros
e outros seres monstruosos e disformes, capazes de trazer consigo
a perturbação e o caos.
As três heroínas mirins surgem também
em ressonância com o sentido da conjunção Urano-Netuno
em Capricórnio (já a desfazer-se, mas ainda ativa
em 1995): num momento em que estruturas de poder tradicionais estão
a desabar, é necessário encontrar novas formas de
proteção do organismo social. É significativo
que os homens que detêm o poder em Townsville não sejam
lá muito espertos, ou muito competentes. O prefeito depende
dos conselhos da Srta. Bellum (um nome que sugere guerra, sem falar
que ela é ruiva - um tipo Áries/Marte); o professor
Utonium não é tão importante para Florzinha
quanto a Professora da Escola Carvalhinho. Em outras palavras: o
mundo aparentemente masculino das Meninas Superpoderosas é,
no fundo, controlado por mulheres, e mulheres de comportamento pouco
usual. A Lua em Leão como planeta mais elevado desta carta,
em oposição ao excêntrico Urano, assim como
a oposição Marte-Vênus no eixo Leão-Aquário
falam desta feminilidade nada tradicional, ou nada conformada aos
papéis predeterminados.
Passada a primeira apresentação pública,
entretanto, os personagens de Craig McCracken tiveram de amargar
três anos e meio na gaveta até terem a chance de ganhar
vida num seriado regular.
O lançamento
definitivo das meninas do jardim de infância
|