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TEORIA ASTROLÓGICA

Parte da Fortuna:
fator de mobilidade social

Carlos Hollanda

 

Parte da Fortuna, vocação e prosperidade

A Parte da Fortuna no mapa astrológico, conforme tenho visto em inúmeras pesquisas sobre a vocação, sucesso pessoal e material, é um indicador bastante claro dos caminhos para o êxito. Marca o desenvolvimento potencial de profissões e do contentamento com a atividade desempenhada. Isso, é claro, se visto em suas associações com o restante do conjunto do mapa. O signo, a casa, os aspectos que recebe e as condições do dispositor da Parte da Fortuna levam a inferir certas diretrizes a tomar na busca por prosperidade, inclusive as ocupações mais ou menos facilitadas e os modos de atribuir valor comercial ao que se faz. Por que valor comercial? Em função de seu vínculo com a atividade lunar, sabendo-se que a Lua é representativa da moeda de uso corrente, do trocado, do valor de compra e venda, mas principalmente do fluxo e refluxo da economia de mercado.

Uma administração bem feita das finanças leva em conta as marés da economia, mantendo uma relativa constância nas reservas de recursos e providenciando um anteparo para crises. Este é um dos modos de romper com a escravidão à idéia de destino.

Para Ptolomeu a Parte da Fortuna sempre indicava um ponto de prosperidade material e financeira. Já para Jean-Baptiste Morin, a Parte da Fortuna não era obrigatoriamente um ponto de boa fortuna, podendo até mesmo ser nociva, de acordo com as condições do seu dispositor (o planeta regente do signo no qual se encontrava), ou quando a própria Parte da Fortuna e seu dispositor estivessem aspectados tensamente por planetas maléficos (Saturno e Marte, por exemplo).

O que tenho visto, contudo, se assemelha mais à visão de Ptolomeu. Aspectos tensos não são indicadores de infortúnios irremovíveis, quando dirigidos à Parte da Fortuna. É verdade que eles simbolizam, e na prática constatamos isso, a necessidade de trabalho duro e de esforços consideráveis para superar um empecilho. É verdade que uma quadratura de Saturno com a Parte da Fortuna pode representar um processo de prosperidade lento e que requer muita disciplina. Mas nada disso quer dizer que a situação de bem-estar deixe de ser alcançada sob quaisquer circunstâncias. Culturalmente esta é a idéia incutida em nossas mentalidades, especialmente se viemos de um ambiente social desprovido de recursos: "não pode"; "não deve"; "não é capaz". É isso que as elites dominantes, em seu histórico esforço de controle ideológico, querem que se pense. É a manutenção do status quo e um incentivo à imobilidade social que mantém a maioria das populações conduzida como gado. Mas uma vez que se tenha ainda que uma vaga noção dos próprios potenciais, e uma vez que um ou mais passos sejam dados em direção a eles, não importa a dificuldade, é possível atingir um patamar mais satisfatório.

A Parte da Fortuna é um dos significadores astrológicos mais contundentes de que a mobilidade social é não apenas possível, mas essencial e natural. Sair de um estado de opressão para chegar a um estado de satisfação é uma busca inerente ao ser humano. Encontrar uma via de acesso à satisfação pessoal e material é um direito, e é para isso que a Parte da Fortuna aponta.

A noção de Roda da Fortuna, com seus altos e baixos, ocorre com maior freqüência quando o indivíduo não está conscientizado desses ritmos naturais e socioculturais ou quando é acometido do que os gregos chamavam de hybris. A hybris era o orgulho ou arrogância que cegava o mortal que acreditava poder igualar-se aos deuses. É algo semelhante ao que acontece tanto a líderes como Mussolini e Napoleão quanto a cidadãos comuns que se tornam ícones de popularidade e em pouco tempo são relegados ao ostracismo.

A Fortuna como benefício ou como miséria dependerá da conscientização individual. Ela pode representar tanto o elemento "fortuito" ou destinado, de onde parte sua etimologia, e a respeito do qual nada se pode fazer, ou pode ser de fato um orientador para o êxito. No primeiro caso o indivíduo deixa-se levar pelas marés da vida, acreditando não ter o poder de interferir positivamente em seu desenvolvimento. Ele iria de acordo com o vaivém da Roda, com o sobe e desce do destino, ora sendo bem sucedido, ora sendo esmagado pelo infortúnio que, segundo ele, não pode controlar. No segundo caso, o indivíduo usa as circunstâncias, sejam elas prósperas ou adversas, a seu favor, tendo em mente que boa parte dos insucessos resultam de erros de julgamento e não de uma força que o impele à desgraça. Mesmo esses erros de julgamento podem ser usados como alicerces para uma nova ascensão, desta vez mais segura e harmoniosa com a natureza e a sociedade.

Conhecer a necessidade de proporção e de equilíbrio, ao invés de levar ao topo da Roda e, conseqüentemente, a uma nova e grave descida, leva o indivíduo ao centro da Roda, a um ponto de estabilidade dinâmica. Neste ponto a adaptação a novas circunstâncias e a ética evitam que haja necessidade de "descida" para que outro possa subir. Não haverá, obviamente, um estancar do processo de mudanças no mundo que nos rodeia. Haverá, contudo, um seguir o fluxo até que as condições estejam propícias a uma nova fase de crescimento.

Em suma, a Parte da Fortuna (não a Roda) no mundo de hoje e no contexto cultural em que vivemos, segundo o que pude observar até agora, é indicador de mobilidade social tanto quanto de prosperidade. Manter ou não manter uma situação próspera ou pelo menos relativamente estável depende muito de um processo de conscientização dos próprios potenciais, isto é, de um certo grau de autoconhecimento.

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