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A compreensão medieval
da Roda da Fortuna
A Idade Média recebeu a imagem da Roda da
Fortuna através da obra de Boécio, no século
XIII. Abaixo, transcrevo um trecho da pesquisa dos historiadores
Ricardo da Costa (Universidade Federal do Espírito Santo)
e Adriana Zierer (Universidade Federal Fluminense) sobre Beócio,
Ramon Llul (que viveu entre 1232 e 1316) e o significado da Roda
da Fortuna:
O filósofo catalão [Ramon Llul] compara
a Parte da Fortuna aos grupos sociais da época, especialmente
aos usurários, a quem critica. Tal como Boécio, mostra
que as glórias deste mundo são fugazes e que o burguês
que peca pela avareza e pela cobiça do lucro será
mais tarde punido por Deus. Na Doctrina Pueril (1274-1276)
- uma das primeiras obras pedagógicas na Idade Média
em língua vulgar e um dos primeiros livros escritos para
as crianças - Ramon usa a metáfora da Roda da Fortuna
para mostrar que os homens se movem em seus diversos ofícios:
"Assim como a roda que se move dando voltas,
filho, os homens que estão em seus mesteres acima ditos se
movem [lavradores, ferreiros, mercadores, sapateiros etc.]. Logo,
aqueles que estão no mais baixo ofício em honramento,
desejam subir a cada dia, tanto que estejam no lugar da roda soberana,
na qual estão os burgueses. E porque a roda se vai a girar
e a inclinar até abaixo, convém que ofício
de burguês caia abaixo."
Os homens que estão abaixo na Roda aspiram
subir até o topo, e por isso a Roda se move. Além
de mostrar a intensa mobilidade social da sociedade medieval de
meados do século XIII, esta é, sem dúvida,
uma crítica do autor aos novos valores sociais dos burgueses.
Na Idade Média, burguês era o habitante da cidade não-clérigo,
não-nobre e não-estrangeiro, que exercia determinadas
atividades que lhe garantiam uma relativa independência, estando
ligado a duas categorias de citadinos, os maiores e mediocres, de
acordo com os textos da época.
É importante lembrar que a atividade mercantil
era em princípio condenada pela Igreja, que era contrária
a toda atividade relacionada ao empréstimo de dinheiro a
juros (usura). (link para o texto
completo)
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Notemos que a possibilidade de mobilidade social
foi bastante criticada pelo clero, em função
da noção de que cada classe social tem seu status
imutável por decreto divino. Segundo este ponto de
vista, desejar ascender socialmente, alcançar uma condição
onde não seja preciso exercer uma atividade sofrida
para a sobrevivência, seria uma negação
do destino e, por conseguinte, da vida que "Deus traçou
para cada um".
Mobilidade social era um conceito nocivo para
os Estados aristocráticos. O fado, o destino, a imposição
divina, eram justificativas para a manutenção
do poder e controle ideológico das massas camponesas
de trabalhadores. Podemos dizer que o trabalho, o esforço
e a competência eram características que não
podiam alterar a condição social e material
de alguém. Tinha-se, deste modo, a visão perene
da posição social, imobilidade esta mantida,
tanto no medievo quanto na contemporaneidade, pelo sistema
de crenças de cada indivíduo ou de cada cultura.
A crença na Fortuna, desde a antigüidade
greco-romana, tem suas raízes prováveis na junção
dos vocábulos (ou nomes das deusas) Fors - "a
que traz" - que pode ser interpretada como algo parecido
com providência, e Tyche, deusa associada ao
acaso.
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O grande diferencial entre a Parte da Fortuna e o
conceito inapropriadamente mesclado com o da Roda está no
fato de a Parte ser um ponto, um indicativo no mapa, na maioria
das vezes, considerado favorável naquele trecho do mapa astrológico.
Calcula-se diferenciadamente de acordo com a natividade, se diurna
ou noturna.
Aqui cabe uma nota: apesar da regra, usada com sucesso
por astrólogos como Bonatti e Manilius, há casos,
perdoem-me pela heresia os astrólogos clássicos mais
puristas, em que o cálculo diurno parece ser adequado mesmo
para a natividade noturna. É uma questão de experimentar
e contrapor os dois modelos até que se chegue a um denominador
comum. O conceito de Roda da Fortuna pode ser aplicado ao mapa montado
com a Parte da Fortuna localizada no Ascendente, o chamado Círculo
de Atla, como tão bem explica a astróloga Bárbara
Abramo em seu artigo de Constelar nº 16. Deste mesmo
artigo extraímos um trecho de concordância com o assunto
de que ora tratamos:
A idéia de um corpo celeste (a Lua) relacionado
com a mobilidade que detona na Terra os fenômenos dos princípios
celestes foi mantido muito tempo depois da era alexandrina e está
viva e atuante na Astrologia Horária e também quando
se fala da Lua fora de curso e todas estas coisas.
A primeira divisão vinha com a extração
da Fortuna e do Espírito. Quem nasceu de noite, tem a liderança
da Lua, portanto o Lote da Fortuna é extraído de acordo:
Ascendente (corpo físico) mais Sol (espírito imutável)
menos Lua (impermanência e mobilidade) = Fortuna. Já
para quem nasceu durante o dia, que está sob a liderança
do Sol, ou seja, do Espírito (óbvio: o Sol ilumina
tudo, daí é o símbolo da clareza e do intelecto
supra-sensível), tem a Fortuna extraída de modo oposto:
Ascendente (corpo físico) mais Lua (impermanência)
menos Sol (Mesmo) = Fortuna.
Em outras palavras: a alma é passível
de mudanças, como a mulher, que também é a
Lua. A Parte da Fortuna serviria para se conhecer o que a alma encarnada
e vivente vai fazer com o que dispõe de intuição
espiritual e intelectual (Sol) e com seu corpo, em termos de relações
com o meio (de novo a Lua) e com sua capacidade de ver claro além
das aparências (Sol). A nós, modernos, só chega
a idéia de que a Parte da Fortuna é indicadora da
"sorte" ou da "prosperidade". Na verdade, nem
mesmo isso poderemos entender direito se esquecermos que Fortuna
é a indicadora da prosperidade porque esta nasce da sabedoria
que podemos ou não ter do uso de nossos recursos físicos
(o corpo, Ascendente), da alma (Lua) e do meio ambiente (também
Lua) e de nossa intuição certeira (Sol) para criar
prosperidade!
A Fortuna, como é explicado acima, é
um princípio de natureza lunar, portanto feminina, e de natureza
mutável em suas características exteriores. Isso,
em se tratando do esforço de trabalho e de melhoria de condições
da vida humana, corresponde ao modelo de mobilidade social conquistada
pela primeira vez na formação do Império Ateniense,
no quinto século a.C. Atenas, cuja moeda de prata, a coruja,
consolidou-se como o meio de troca mais comum no mar Egeu, foi o
berço da Democracia, onde os líderes ascendiam mas
podiam ser exilados; onde a camada social desprovida de terras podia,
pela primeira vez, ter voz política.
Ascensão e queda, ritmo e mutabilidade. Leis
da natureza aplicadas, talvez inconscientemente, através
das leis dos homens. Assim funciona o conceito de Fortuna. Entretanto,
não necessariamente é preciso que o Homem seja derrubado
de sua condição de satisfação e bem-estar,
se ele guardar as devidas proporções. A mudança
de cima para baixo talvez só seja desastrosa se nos agarrarmos
ferrenhamente às posições conquistadas sem
entendermos que com o passar dos anos ela deverá dar lugar
a um outro ciclo de experiências. Se assim for feito, o que
poderia ser um revés pode ser transformado numa vantagem,
ao sabermos quando ceder o lugar de destaque e de poder e atuarmos
em outro contexto.
Parte da Fortuna, vocação
e prosperidade
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