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TEORIA ASTROLÓGICA

Parte da Fortuna:
fator de mobilidade social

Carlos Hollanda

 

A Astrologia moderna há muitos anos deixou de usufruir de um recurso interpretativo tido em alta conta pelos astrólogos da Antigüidade e da Idade Média: o cálculo das chamadas Partes Arábicas. Seu uso correto vem sendo resgatado nas práticas dos pesquisadores adeptos do modelo clássico da Astrologia, cujo número, com muita satisfação, vem crescendo a cada ano.

Dentre as Partes Arábicas, aquela que gozou de maior importância foi a Parte da Fortuna. Como as outras Partes Arábicas, a da Fortuna é um ponto fictício, não um corpo celeste. É a síntese de uma relação matemática entre Sol, Lua e Ascendente, o que representa, em poucas palavras, um foco, um ponto de convergência da necessidade humana de atingir um estado de bem-aventurança no nível material. Mais do que isso, a Fortuna, nome que deriva de "fortuito", "acaso", "fado", também está relacionada à condição social do indivíduo, seja ela momentânea, seja duradoura. Fortuna também não quer dizer exclusivamente, como crê nossa cultura, uma grande soma em dinheiro. A idéia que os antigos tinha deste conceito era a de mudança de condições, independentemente da vontade humana.

O escopo deste artigo é a possibilidade de elevação social e material representada pela conscientização dos potenciais indicados pela Parte da Fortuna no mapa astrológico. Esta abordagem contrapõe-se à visão fatalista da chamada Roda da Fortuna cultivada no mundo antigo e medieval e também nos dias de hoje, em diversos costumes culturais, mormente nos do Ocidente cristão. Para expor corretamente esta reflexão, faz-se necessária uma dissociação da visão mística que por muitos anos predominou no pensamento astrológico. É importante também comparar as noções de Parte e de Roda que os praticantes de Astrologia têm hoje.

Astrólogos de linha espiritualista e psicológica costumam atribuir nuances diferenciadas a este ponto focal. Tratam de questões que interpretam bem-estar não como pura e simplesmente sinönimo de acúmulo de posses e de um bom recheio na conta bancária. Demonstram que o nível de contentamento parte de um estado de ser integrado, muito mais do que da satisfação das necessidades básicas de sobrevivência ou do desejo de opulência. O leitor notará que não discordo destas afirmações, mas acrescento a percepção originária da idéia de Fortuna tal como ela se desenvolveu na mentalidade ocidental ao longo dos séculos. E ela não era apenas um benefício. Existiam a "boa" e a "má" Fortunas.

Corriqueira também é a confusão feita entre a Parte, um fator astrológico, e a Roda da Fortuna, símbolo bastante difundido em função de um dos arcanos do Tarot, arte que se difundiu extraordinariamente na cultura popular. Ambas não são exatamente a mesma coisa. Igualmente, a Roda da Fortuna não é um conceito criado com o Tarot, apesar do simbolismo deste partir do mesmo princípio que originou o termo e calcar-se corretamente na compreensão da mutabilidade das condições humanas.

A Roda da Fortuna é um conceito que corporificou-se com maior clareza na Idade Média, mas vem de épocas anteriores à tradição helenística. Como reiteram os intérpretes do Tarot, a Roda representa a possibilidade de ascensão e de satisfação momentâneas, tal como os ciclos da natureza, que, a exemplo das estações do ano, repetem-se, mas nunca permanecem mais do que o tempo que lhes é devido. Assim o ser humano, ignorante das possibilidades de agir em harmonia com o fluxo dos acontecimentos, ou com as compensações naturais do ambiente em que vive, vagueia vítima da "sorte", do "azar" ou até do karma, conforme a doutrina espiritualista.

A compreensão medieval da Roda da Fortuna
Parte da Fortuna, vocação e prosperidade


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