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MITOLOGIA E TEMPOS MODERNOS
Do deus mutilado
ao bombardeio do Afeganistão

Cyd Marcus


Hesíodo, um dos mais antigos poetas gregos, autor de Os trabalhos e os dias e de Teogonia, parece ter antecipado, ainda no século VII a.C., algumas das grandes questões que desafiam a sociedade contemporânea. A guerra movida pelos Estados Unidos contra o regime talibã do Afeganistão coloca em cena choques de valores que a mitologia grega já conseguia antever em seus símbolos. A origem deste artigo foi uma palestra proferida em 1999 pelo professor Cyd Marcus na Associação Pallas Athena, em São Paulo. A palestra foi gravada e transcrita a quatro mãos pelas astrólogas Nadia Greco e Rose Villanova e depois condensada por Constelar, mas sem perder totalmente a espontaneidade típica de uma palestra ao vivo. Nadia Greco é autora também de todas as notas complementares.

Grécia, o país dos oráculos

No mundo grego tudo era fenômeno, tudo era interpretado, tudo era sagrado, tudo merecia atenção, tudo era sinal. Então, acontecimentos que escapavam do real, do previsível, como eclipses, cometas, meteoros, anomalias no nascimento, imagens que transpiram ou sangram, tudo isso também fazia parte do mundo da profecia. As sentenças eram dadas por oráculos, centros religiosos que estavam sob a égide de um deus, como Zeus ou Apolo. O termo oráculo aplica-se tanto à sentença em si quanto ao lugar em que ela é enunciada. Assim, os grandes oráculos do mundo grego - Zeus e Apolo, Delfos, Olímpia, Dodona e também Amon, no Egito - eram centros de profecias. Temos em Dodona talvez o mais antigo centro de profecias da Grécia, onde as adivinhações eram feitas por profetisas que liam o movimento dos galhos das árvores. O carvalho era a árvore de Zeus. Na antiguidade, no tempo em que a Europa era coberta de carvalhos, era através desta árvore que a divindade falava, e havia a interpretação dos movimentos.

A palavra mântica (adivinhação) vem do verbo grego manesthae - ser tomado de grande furor. Por exemplo, as sacerdotisas do deus Dionísio chamavam-se mênades por causa desta agitação. Agitavam-se muito, e a dança delas - a coreografia dionisíaca - escapa assim do ritmo apolíneo. Apolo tem um ritmo majestoso, mas o de Dionísio é irregular, é uma coreografia alucinada que lembra sempre transe.

Os gregos admitiam diversos tipos de mântica. Havia a dinâmica, ou por inspiração divina, onde a mântica - isto é, a adivinhação, a profecia - pode vir por inspiração direta: o deus toma a pessoa e fala, como no caso das pitonisas, das sibilas. Havia também a piromancia, adivinhação pelo movimento das chamas. Outra linha era a da mântica por indução, como no caso da oomancia ou ooscopia, e havia ainda a profecia ctônica ou por incubação. Na profecia por incubação alguém é levado a deitar e a dormir, e os sonhos poderiam libertar o inconsciente. Baixava um intermediário divino chamado daimon, que depois toma negativamente o nome de demônio, mas daimon é, originalmente, esse emissário divino que vinha durante o sonho para dar o toque que depois poderia ser interpretado.

Na Grécia, muitos templos funcionavam como centros oraculares.

Já a necromancia, entre os gregos, era a interrogação da alma dos mortos, muito semelhante à que temos hoje e que foi criada no século XIX. Há uma passagem na Odisséia em que Ulisses vai ao país dos Sinérios, que fica perto da região escura dos infernos, o Hades. Ulisses vai chamar os mortos para interrogá-los, e essa interrogação era muito comum no mundo grego. Havia uma expressão popular da interrogação da alma dos mortos que os gregos naturalmente procuravam colocar no seu devido lugar: eram os psicagogos, quer dizer, aqueles que atraíam e conduziam as pessoas em desespero para conversar com os que já tinham partido.

Os psicagogos diziam conduzir e manipular as almas dos que morreram. Tinha-se um problema, chegava-se ao psicagogo e este perguntava: você quer falar com quem?... então o psicagogo promovia uma encenação, e o teatro nasce daí, dessa forma de necromancia: uma das grandes hipóteses da origem do teatro no mundo grego é que ele tenha vindo exatamente dessas cerimônias que se montavam para chamar os mortos à vida. É o que faz Ulisses na Odisséia. Ele despeja vinho, e o vinho dá essa energia. As almas tomam força momentaneamente e falam.

Temos também a quiromancia, ou leitura das mãos. Cheir é mão, daí vem cheirurgus - cirurgião, ou seja, aquele que trabalha com a mão. Outra variante muito importante no mundo grego é a daqueles que movimentavam objetos. São expressões da mântica num nível popular, evidentemente. Mais tarde, Santo Agostinho iria descer o pau nesta gente, dizendo que tais práticas são goetia, ou goeteia (magia negra).

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