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CONSTELAR PREVIU A CRISE
Inferno em Nova Iorque

Fernando Fernandes
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O grande porrete da polícia do mundo

O trânsito de 1900-1907 é ainda mais exemplar. Corresponde ao governo de Theodore Roosevelt, um presidente ousado e com ímpetos guerreiros, que inicia sua administração promovendo uma guerra com a Espanha pelo controle de Cuba. Roosevelt elabora uma política externa que vai ao encontro dos crescentes interesses de magnatas americanos nos países da América Latina. Em sua mensagem ao Congresso de 1904, Roosevelt anunciou a expansão do conceito da Doutrina Monroe, já em voga desde 1823:

No Hemisfério Ocidental, a adesão dos Estados Unidos à Doutrina Monroe pode forçar os Estados Unidos, embora relutantemente (...), a exercer um poder de polícia em nível internacional.

O símbolo deste novo papel policialesco é o "big stick" (literalmente, o grande porrete) que os americanos deveriam portar em suas relações externas. A primeira manifestação da política do big stick foi a intervenção americana na República Dominicana, tudo porque o governo da pequena ilha não estava pagando em dia sua dívida externa. Após a intervenção militar, funcionários americanos assumem o controle da alfândega dominicana e passam a recolher diretamente as taxas aduaneiras, que são confiscadas a título de "ressarcimento da dívida". A ocupação militar só termina dois anos depois, quando o pagamento dos débitos da ilha havia sido regularizada até o último centavo. Tudo isso está de acordo com o simbolismo do mapa americano naquela ocasião: Plutão (regente de Escorpião, signo que tem relação natural com taxas e impostos), ocupante da casa 2 (valores econômicos) em trânsito pela 7 (relações com outros países) e formando conjunção com Marte (guerra, invasão - o país armado com um grande porrete).

Outra providência tomada por Theodore Roosevelt foi a de enviar em 1906 - ano em que o trânsito Plutão-Marte tornou-se exato - uma reluzente e superequipada esquadra de guerra numa viagem de dois anos pelo mundo, numa demonstração sem precedentes de poderio naval. O objetivo explícito de tal viagem era exibir a capacidade bélica americana e intimidar eventuais adversários (exatamente como Bush vem fazendo desde que assumiu, ameaçando a reativação de um bilionário projeto de defesa antimísseis). Diga-se de passagem que um fato pouco observado na literatura astrológica, mas do qual não faltam exemplos históricos, é a tendência de indivíduos e instituições ao exibicionismo nada sutil do próprio poder durante trânsitos críticos de Plutão.

Charge de 1906: Thedore Roosevelt (de porrete na mão) impõe sua "nova diplomacia" para uma América Latina apavorada. Aspectos Plutão-Marte ativam a arrogância e beligerância dos Estados Unidos, colocando o país em grandes encrencas.

Entre 1964 e 1967, os Estados Unidos estavam de novo envolvidos em mais de uma guerra. De um lado, centenas de milhares de soldados lutavam na malfadada Guerra do Vietnã, um conflito desnecessário e só compreensível pela exacerbação do clima de guerra fria então existente. Para não fugir à tradição, os americanos promoviam, de outro lado, a ocupação (mais uma vez) da República Dominicana e imiscuíam-se ativamente em assuntos internos de dezenas de nações latino-americanas e africanas. A Guerra do Vietnã foi um duro fracasso para a política externa americana, que só começou a diminuir o ritmo de sua participação após 1968, em parte por causa da pressão cada vez maior da opinião pública.

Falar da opinião pública exige falar do papel da imprensa. Em 1812, os jornais americanos tinham ainda um alcance pouco expressivo, mas nos trânsitos Marte-Plutão do início do século XX e da década de 60, exerceram um papel expressivo no convencimento da população sobre a necessidade do papel de polícia dos Estados Unidos no mundo. Desde 1895, Randolph Hearst, magnata dono de um império jornalístico, engajara-se na mobilização do país para uma guerra contra a Espanha. A ocupação espanhola em Cuba era pintada como cruel, despótica e perigosa para o continente, ao que se contrapunha o papel dos americanos como defensores da justiça e da liberdade. Hearst faria a mesma coisa mais adiante, durante a invasão da República Dominicana, e tal comportamento serviu de inspiração para o famoso filme Cidadão Kane, de Orson Welles. Na Guerra do Vietnã, a situação se repetiu, e a imprensa, nos primeiros anos do conflito, contribuiu para disseminar a noção de que a intervenção era imprescindível para conter o avanço russo e chinês no Sudeste Asiático. Era a teoria do efeito-dominó: se o Vietnã caísse, logo viriam o Laos, o Camboja, a Tailândia, a Índia... Os fatos provaram que o risco era muito mais imaginário que real.

Os mesmos ingredientes deverão estar presentes nos próximos dois anos. O vilão da ocasião pode ser Saddam Hussein ou qualquer outro ditador de um país do terceiro mundo. O essencial é que os Estados Unidos correm o risco de assumir mais uma vez o ônus de uma guerra de grandes proporções, em nome de uma missão de polícia do mundo que deveria ser exercida, por direito, apenas por decisões soberanas das Nações Unidas. George W. Bush candidata-se a repetir as aventuras bélicas de Theodore Roosevelt e de Lyndon Johnson. Talvez, dentro de alguns anos, o mundo venha a sentir saudades dos bons tempos em que a maior potência mundial era governada pelo simpático mentiroso Bill Clinton.

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