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ASTROLOGIA E MITOS RELIGIOSOS
Marte, Jorge da Capadócia
e Ogum do Brasil

Fernando Fernandes
Início | Parte 5

O sete e a varinha mágica de Ogum

Eu tenho sete espadas
pra me defender,
eu tenho Ogum
em minha companhia.
Ogum é meu pai,
Ogum é meu guia,
Ogum é meu pai,
venha com Deus
e a Virgem Maria.

Ogum tem estreita relação com o número sete, o que é explicado por duas lendas iorubanas. Na primeira, ele aparece como o guerreiro - filho de Odudua, rei de Ifé - que conquista a cidade de Irê e assume o título de Oni (senhor ou rei). Em torno de Irê havia sete aldeias, hoje desaparecidas. Por essa razão, acreditava-se que Ogum fosse composto por sete partes, uma para cada aldeia conquistada. Em iorubano, sete é mejê, de onde resultou a expressão Ogum Mejê (O Ogum que são sete, ou o Ogum composto de sete partes). É a ele, portanto, que o ponto é dedicado.

A outra lenda fala do casamento entre Ogum e Oiá. Ogum tinha uma vara mágica, feita de ferro (metal que lhe está associado), que tinha a propriedade de dividir em sete partes os homens e em nove partes as mulheres que tocasse. Em sua oficina de ferreiro, Ogum confeccionou uma vara igual e deu-a de presente a Oiá. Algum tempo depois, porém, Oiá fugiu com Xangô e foi perseguida pelo furioso marido traído. Quando se encontraram, entraram em combate com suas varas mágicas, dividindo-se Ogum em sete parte e Oiá em nove. Por isso ela é chamada de Iansã, termo composto de duas palavras iorubanas: ou Inhá (mãe) e messan (nove).

Se voltarmos aos mitos do Ares grego, vamos encontrar um de grande interesse. Ares estava sempre em combate com a deusa Atena (assim como Ogum e Oiá). Conta uma lenda que certa vez, ao rebater um golpe de Ares, Atenas tomou uma pedra negra e bateu com tanta força nas costas de Ares que este cambaleou e caiu de forma tal que seu corpo, na queda, cobriu uma área de oitenta e quatro pés quadrados. Ora, 84 é igual a 12 vezes 7. Trata-se de um simbolismo que retrata o percurso turbulento de Marte por todos os signos do zodíaco!

A espada está ligada ao orixá de três formas: por ser guerreiro e caçador, Ogum rege as armas em geral; por ser ferreiro, é fabricante de objetos de metal; e, finalmente, é o orixá regente do ferro, matéria-prima para a maioria das armas. Como símbolo, a espada representa a energia mobilizada e direcionada para cortar o avanço do mal. Basta lembrar uma outra lenda, criada num ambiente bem diferente do que estamos tratando: a história céltica do Rei Artur que, munido da espada mágica Excalibur e sob a orientação de um iniciado, o Mago Merlin, combate as forças malignas acionadas por temíveis feiticeiros. Excalibur é o instrumento do combate da magia branca contra a magia negra. A espada de Ogum tem o mesmo significado.

Cabe observar também que o ferro é o elemento químico essencial para a formação dos glóbulos vermelhos. Da mesma forma como sua carência torna o indivíduo anêmico, a carência da raiz energética de Ogum cria uma espécie de anemia espiritual, ou seja, uma falta de coragem e de disposição para lutar pelo próprio desenvolvimento. É por causa dessa função revitalizadora que Ogum é apresentado nos mitos africanos como o orixá que vem na frente, o pioneiro na tarefa de descer à Terra e acordar os homens. Trata-se, evidentemente, de uma função típica de Áries e Marte.

O orixá mostrado neste ponto não é, certamente, o guerreiro selvagem e violento de alguns mitos iorubanos: é um campo de energias poderosas, mas a serviço de desígnios superiores (ele vem com Deus) e movida pela compaixão com os que sofrem (ele vem com a Virgem Maria).

A rica civilização da África Ocidental criou mitos que influenciaram permanentemente a cultura brasileira (à direita: escultura popular em madeira, misturando elementos religiosos e do cotidiano).

Ogum ressurge como São Jorge

Ogum, erga a sua espada,
levante a sua lança
para nos defender.
Nos dê proteção com seu escudo
toda vez que o inimigo nos aborrecer.
Nos cubra com o seu sagrado manto,
sua bandeira tão gloriosa
(...)
Atire as patas do seu cavalo
contra o dragão e a serpente venenosa
(...)

Típico produto da Umbanda Popular, já distante de qualquer influência africana, o ponto apresenta Ogum na forma sincretizada de santo guerreiro (a bandeira e o manto não são atributos de Ogum, mas de São Jorge). A letra, de cativante ingenuidade, mostra os sentimentos do povo brasileiro em relação ao seu orixá: ele é o herói mítico, o paladino que vem em defesa daqueles que enfrentam as forças do mal.

Nas práticas mais primitivas do sincretismo afrobrasileiro, Ogum muitas vezes é invocado como se fosse uma espécie de guarda-costas celeste, um orixá que, se devidamente agradado, tomará partido em favor do filho de fé e voltará sua fúria contra os inimigos. Essa visão simplista está presente, por exemplo, no comportamento do personagem principal do filme O Amuleto de Ogum, de Nelson Pereira dos Santos, um marginal que recorre à ajuda de um terreiro para que Ogum lhe feche o corpo contra as balas dos inimigos.

As concepções mais elaboradas, entretanto, não vêem o orixá como um ser a serviço dos interesses do homem, nem disposto a tomar partido em seus conflitos. Em essência, as lutas de Ogum processam-se dentro da própria alma, que traz simultaneamente o dragão e a serpente das tendências inferiores assim como o germe da Divindade. Invocar Ogum significa ativar as energias vitais que estão adormecidas na alma, despertar a parcela divina presente em cada ser humano e mobilizar a força necessária para avançar.

A Lua como campo de batalha


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