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Apenas um final de ciclo É verdade, estou filosofando muito, mas não me desviei do assunto não. Vejam só: existem várias formas de classificar o chamado "inferno astral". Eis algumas que conheço: 1- Ele se inicia 40 dias antes do aniversário. Alguns absurdos são sugeridos por "boateiros astrológicos", como dizer, por exemplo, que o "inferno astral de Leão é Peixes". Como? Por quê? A resposta é baseada numa grande confusão de dados pincelados muito, mas muito esporadicamente, a respeito da natureza do signo de Peixes, que se refere simbolicamente à abnegação, ao retiro, à contemplação. Se assim fosse, Peixes seria o inferno astral de todos. Ou pior: o símbolo zodiacal sobre o qual alguém tem algum tipo de preconceito, é claro, seria o inferno astral. Se eu julgo ter sofrido nas mãos de um canceriano, então todas as pessoas de Câncer precisam ser evitadas, porque são o "inferno". É já dizia o bom e velho Sartre que "o inferno são os outros". O período que antecede o aniversário também é um final de ciclo. Se observarmos cuidadosamente, os finais de ciclo são épocas desgastantes, às vezes tristes, às vezes monótonas, às vezes dolorosas, mas sempre pouco atrantes em relação às fases de crescimento. Sendo assim, o "inferno astral" ou o fechamento do ciclo é semelhante a uma morte, ao término de um namoro e à fase de falta de criatividade pela qual passa um artista ou escritor após a conclusão de uma obra. É preciso "fermentar" ou "incubar" uma nova manifestação. É preciso voltar-se para dentro, encolher-se a fim de que seja possível dar um salto, espremer um pouco, para poder passar por uma abertura estreita até um local melhor - isso é o nascimento.
Afinal de contas é ruim ou não é? Nem sempre é tão claro. Ciclos planetários mais lentos podem, inclusive, atravessar aquele mês que classificamos como "inferno astral". Se o período corresponde a combinações entre os planetas em movimento no céu e os chamados "planetas benéficos" na terminologia medieval (Vênus e Júpiter), dificilmente pode ser classificado como problemático. Júpiter em trânsito pode estar em conjunção com Vênus do mapa natal, o que corresponde, em teoria, a uma fase afortunada nos afetos e nas finanças. Por outro lado, um período de transformações e de conscientização dos próprios limites pode ser confundido com um agravamento de condições difíceis supostamente provocadas pelo inferno astral. Atitudes e convicções também produzem problemas erroneamente atribuídos a essa fase do ano. Vejam o exemplo a seguir. Causa: Luizinhos e Lalauzinhos acreditam firmemente que o ser humano é corrupto e que por isso mesmo devem defender-se agindo de forma igualmente corrupta (segundo o que acreditam). Por causa disso, roubam o patrimônio de um grupo de pessoas num crime chamado peculato e ainda fazem tráfico de influência. Efeito: cadeia, justo quando chega o "inferno astral". Então eles pensam: "claro, estou passando pelo inferno astral", e convencem a si mesmos de que, além de serem vítimas do sistema, foi um elemento externo (os astros), e não eles, que causou o problema. O que acreditamos é o que somos. O que criamos na mente, fazemos acontecer no cotidiano, mesmo que não percebamos ou não queiramos perceber. Se dizemos: "Epa chegou aquela fase do ano. Agora ferrou." - então esqueça: você se ferrou mesmo. O universo inteiro vai conspirar a favor de seu próprio pensamento, ou seja, contra você. Seja graças à mídia, seja graças à falta de senso crítico, as crenças vão-se confirmando, especialmente quando não lembramos que queremos ver aquilo, quer dizer, a mente humana, seletiva que é, verá o que quer ver. Se o pensamento é muito negativo, quando alguém usa a gíria "Fulano é uma fera na empresa", tende-se a pensar que o sujeito é irritadiço e grosseiro, quando na verdade quer-se dizer que o Fulano é muito competente. A atitude mental é tão importante que, se estivermos com mania de perseguição, nem mesmo ciclos afortunadíssimos poderiam atenuar os sentimentos incômodos, ainda que tudo à volta parecesse normal. Podemos concluir afirmando que a idéia de inferno astral popularizada pela mídia não é verdadeira. Por tratar-se de um final de ciclo, não deixa de ter suas mazelas. Apesar disso, mesmo durante a fase que precede o aniversário, existe quem passe muito bem mesmo e não são poucas as pessoas nessas condições. Não se trata somente de ter um olhar positivo sobre a vida, o que, é claro, reduz tremendamente as adversidades. Trata-se de um ciclo de vida individual e de um crescimento em percepção. Outros textos de Carlos Hollanda.
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