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MARTE: SEIS DIAS DE AMOR E GUERRA

A ereção eterna do tutor de Marte

Barbara Abramo

 

Ares, o deus mitológico, era o filho de duas mulheres frustradas e foi criado por Príapo, um ser condenado a viver em permanente estado de ereção sexual.

Daqui há poucos dias o Marte que defende territórios e que ataca pra defender territórios estará ligado a dois outros senhores muito interessantes, Urano e Júpiter, cada um a seu modo também ligado ao tema da expansão dos territórios - geográfico, psicológico, social, cultural, tecnológico.

Sobre a discussão, é muito legal pensar nas várias faces de Marte. O Marte em queda, como quer Morin de Villefranche, o Marte em regência... Tenho visto campeões de natação com Marte em Peixes. Nada de campeões nacionais; em nenhum dos casos - poucos, uns cinco ou seis nestes anos - o cara chegou a ir pra frente, a ampliar o território da vitória na natação. Mas foram pessoas que usaram a natação pra crescerem.

Marte em Câncer, a meu ver, é o mais difícil: tendência a querer que a mulherada em volta empurre pra ação, no caso do homem, e no caso da mulher, já vi algumas com problemas de procriação, outras que odeiam cozinhar - ao contrário do que eu, incauta, poderia imaginar... Parece que há uma inversão no modo da pessoa viver esse Marte: os homens e as mulheres agem diferentemente com a energia, integram-na diferentemente. No caso dos nadadores, tanto homens como mulheres nadavam pra valer durante um tempo, mas não faziam disso uma profissão depois. Ah! e nem todo Marte em Escorpião que vi é como descrevem os manuais: nem vingativos, nem azes na cama, às vezes já vi alguns clientes com dificuldade pra lidar com grana, - com uma casa 2 legal, ou nada de complicado com o regente da 2 - alguns realmente tinham problemas com grana, que é uma coisa maluca de se pensar com Marte em Escorpião, que a rigor deveria saber gerir dinheiro - pelo menos dos outros. Marte em Escorpião também não quer dizer necessariamente uma vida sexual ativíssima... ao contrário, o pé atrás escorpiônico produz a tal da "demora na ligação".

Mais contribuições para se pensar em Marte:

1- Ares tem origem na palavra grega arcaica ara, que significa maldição e, ao mesmo tempo, oração. Nas versões - como nos relatos etruscos, anteriores aos gregos da época clássica - Ares não tem pai, nasce direto de sua mãe Hera (figura à esquerda). Esta, muito enraivecida com o fato de seu marido, Zeus, ter dado à luz Atena, pediu para ter um filho sem ajuda de Zeus. Chateada, ia procurar a ajuda do Oceano, mas passou no caminho pelo palácio da deusa Flora - uma das formas de manifestação de Gea, a mãe Terra. Esta deu a Hera uma erva que, quando tocada, dava fertilidade a qualquer um. Hera então engravidou de Ares, ao tocar a planta. Hera volta à Trácia e dá à luz Ares.

Quem educou Ares? Príapo, aquele que depois sofreu um castigo divino de nunca mais perder a ereção - primeiro ensinou Ares a dançar e depois as artes da guerra.

Príapo na representação do pintor veneziano Tintoretto.

Muito interessante é pensar que Marte é filho de uma mulher frustada, carente, que consegue ajuda de outra mulher. Marte como fruto de duas forças femininas, sendo uma delas a própria Gea, a Terra.

Marte como filho da energia feminina duplicada em seu aspecto não apenas de esposa que mantém a família e a ordem familiar - Hera - como também da própria vida: da Terra. A energia feminina que prova sua autonomia e potência diante da energia procriadora masculina. Hera tem muito a ver com uma função feminina arcaica, nascida no tempo do matriarcado, que topa a aliança com o patriarcado pra poder manter um pouco seu território, seu poder. Tanto que Hera fica sinônimo de defensora das tradições do casamento e da família. Uma energia atuante do feminino, ligada por sua ancestralidade à polimorfia da Terra, mais anterior ainda do que o matriarcado. As energias de sobrevivência femininas nascem da junção de Hera e Gea, neste ponto. Ares aprende quase tudo com um mestre que passou a significar, na historiografia mitológica, a personificacão de uma exacerbação doentia do falus, da potência masculina, incapaz de procriação, pois a ereção contínua impedia a finalização do ato de potência criativa: Príapo. A primeira coisa que Ares aprende é a dançar e, muito depois, as artes da guerra.

Príapo-dança-guerra são atos ligados aqui pela conexão com a energia masculina e suas formas de manifestação. Guerrear "é" uma arte, bem diferente das artes de Afrodite, sua irmã, ou de Apolo e sua música. A música do deus Apolo, também entidade masculina, faz o fundo para a dança de Ares: a da conquista e dos festejos e a da guerra. Como se na guerra, além de sua arte marcial, houvesse também a música, a dança. Todas ligadas a formas de simbolização de uma virilidade incompleta: Príapo de novo, que é quem ensina. Marte é desenhado por Homero, que escreveu a Ilíada e a Odisséia, como um gigante inculto que se imiscuía em muitas ações com seus arroubos e sua intemperança.

Será em Roma que Ares, agora transformado em Marte, mais "civilizado", substitui o primitivismo animal deste Ares nascido e criado por impossibilidades de gênero, cada uma a seu modo. O que nos pode esclarecer que Marte nasce da frustração e da raiva por sermos impedidos de exercer nossa potência criadora com nossos parceiros complementares e opostos, por uma impossibilidade psíquica pessoal.

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