|
O comportamento do soldado no campo de batalha
e sua relação com os companheiros diante do risco
da morte é o tema desta primeira parte do debate, que reúne
Ana Ocampo e Marcus Vannuzini
ANA OCAMPO:
Li uma palestra, outro dia, de um psicólogo
norte-americano (James Hillman) sobre a questão de Marte
e as guerras. E ele tira umas conclusões no mínimo
surpreendentes e bonitas sobre o mito marciano. Ele pegou vários
escritos de veteranos e ex-combatentes de guerra, sobre o momento
da batalha, do avançar na terra, do atacar. Quando o mito
é psiquicamente constelado, toma (como uma "possessão")
conta daqueles homens. E sabe o que Hillman deduz? Que o que se
apodera daqueles homens, naquele momento, e os faz avançar
unidos, contra tudo e todos, não é o ódio ao
inimigo, não é a adesão aos "nobres
ideais da guerra", não é um exacerbado patriotismo,
enfim. O que os move é um amor que ele chama de "profundo,
gentil, altruísta e ardente" que cada soldado tem por
seus companheiros, por seu pelotão, por pertencer àquele
grupo. Um amor capaz de fazer com que homens semimortos em trincheiras
ajudem companheiros menos mortos a sair delas e, quem sabe, sobreviver;
que faz com que soldados sem qualquer esperança de saída,
vitória, medalha ou sobrevivência, se arrastem entre
os companheiros para afastar os que estão mortos, para fazer
bandagens em moribundos, dar a última gota de água
aos que não vão ser heróis, não vão
ganhar a guerra, não vão voltar pra casa, não
vão viver - como ele.
A gente se acostumou a pensar em Marte como violento,
irascível, irracional, feroz e ferino. Esquecemos que ele
é o guerreiro, e que o guerreiro traz dentro de si
nobreza, idealismo, franqueza, fidelidade e um profundo amor. Hillman
diz que a sociedade norte-americana gasta orçamentos cada
vez mais dantescos na área militar, para impor ao mundo uma
paz violenta, porque provavelmente é uma sociedade violenta,
mas não é guerreira. Achei essa distinção
fundamental. O amor de Marte não é o de Afrodite -
esses são polarizados. O amor de Marte é difícil
de enxergar, difícil de entender, nem sempre fácil
de aceitar. Mas é amor, é profundo, nobre, sincero.
É fiel.
ZINI:
Bom... Estive pensando no que você relatou
sobre as conclusões de J. Hillman. Esses homens, na hora
"H" mesmo, de frente pra morte, numa situação-limite,
estão MUITO fragilizados. Pra começar, nem foram eles
que começaram a guerra, nem traçaram as estratégias
ou táticas - como sempre...
ANA OCAMPO:
Estão fragilizados, sim. Mas a hora "H"
que ele descreve é a da luta, não a da morte. Nesse
momento, mais que fragilidade, talvez exista o corolário
de Marte que já conhecemos: euforia e excitação
com desejo de matar, aniquilar, destruir. Ele não nega isso.
Só diz que não é só isso. Isso é
o óbvio, o que facilmente vemos e combatemos ideologicamente.
ZINI:
Mas lutar implica a possibilidade de morrer; acho
meio inseparáveis essas idéias, não achas?
ANA OCAMPO:
Acho inseparáveis, mas não sei se num
campo de batalha realmente se acredita que se pode morrer, isso
é um pensamento racional. Talvez ali seja crucial, inevitável,
acreditar que nós venceremos, e os inimigos
é que morrerão. Mas, enfim, acho que há fragilidade,
medo, e desespero no meio dessa "força" ou euforia,
sim. Tudo muito misturado, obnubilado. (tem um Marte que se chama
caecus, o cego, não tem?).
ZINI:
Desse Marte cego eu não sei... Ana, eu nunca
estive numa guerra, mas morando no Rio tem horas em que eu acho
que morrer é tão fácil... Pensa: um cara cheio
de pó, babando de doido, encosta uma pistola na tua cabeça
e diz pra você passar o relógio pra ele. É uma
situação em que temos pontos diferentes e comuns,
tendo em vista uma batalha: no assalto você está desarmado,
à mercê do bandido; na guerra, mesmo estando armado,
em grupo, você está sempre nas mãos do imprevisto,
de um tiro por trás, de uma bomba que cai do céu,
de pisar numa mina... a Morte está em todos os seis lados
- e acho, é claro, que a tendência é tentar
acreditar mesmo que não se vai morrer, mas, talvez, exatamente
por estar tão em contato com Ela, a pessoa sinta-se mais
viva e em condicões de despertar todo o seu potencial de
sobrevivência, de ativar a marciana "síndrome
do luta-ou-fuga".
ANA OCAMPO:
Tá certo, também acho que sim. Acho
que acontece em toda situação de medo profundo, de
pânico diante da morte. Mas as pessoas reagem de forma muito
diferente diante disso: alguns com ódio, raiva, rancor; outros
com um sentimento profundo de amor à vida e ao que ela pode
dar. Você vê isso em pessoas que recebem um diagnóstico
de câncer, por exemplo. Ou de Aids, ou qualquer doença
fatal. Há quem queira meio mundo morto junto com ele.
Há quem veja a vida com cores que nunca conseguiu ver antes.
Lembrei da cena de Blade Runner - O exterminador
do futuro em que o último replicante vai morrer e, ao
invés de soltar o exterminador para a morte, salva a vida
dele. O exterminador pergunta por que e ele responde: "Não
sei, talvez nesse momento ame tanto a vida, que ame qualquer vida,
mesmo a sua." E ele estava com muita raiva! Com muita dor.
O que quero dizer é que, mesmo em situações
de medo e raiva imensos, há também a possibilidade
de que um tipo de amor se constele aí. E raramente olhamos
pra ele. Pra essa possibilidade.
Não sei se conta para um cara cheio de pó e babando
na gente, porque esse está vivendo o aspecto do tudo ou nada
mesmo. A vida é só hoje, amanhã pode ser tarde
demais. Vale pra todo mundo, mas depende de como se faz. O que a
gente vê é que cada vez mais gente faz do pior modo
possível.
Hillman chama a atenção também
para o que denomina "aspecto venusiano em Marte",
dentro do mito. Uma espécie de "ritual estético",
físico, na retórica e apetrechos militares (roupas,
cerimônias, vários feitios de armas, condecorações,
"dança dos guerreiros" - com seus giros de pés,
continências, espinha ereta - etc.). E diz que Marte constela
também um sentimento profundo de amor e união entre
os que combatem juntos, e que isso dá mais força a
todos, mesmo que seja pra matar. Ele diz que esse amor é
muitas vezes pela guerra. Não sei se é um amor
que chamaríamos de "bonito" (por padrões
venusianos), ele é difícil de aceitar, de entender.
Mas está lá, misturado, encoberto, pano de fundo.
Hillman acha que, se não o olharmos bem, talvez nunca consigamos,
por exemplo, lidar de verdade com a questão do desarmamento
no mundo.
Todo amor cabe a Vênus
e toda a violência e brutalidade cabe a Marte?
|