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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 95 :: Maio/2006 :: -

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ASTROLOGIA E POLÍTICA

Evo Morales, um índio cheio de gás

Fernando Fernandes

Líder sindical dos plantadores de coca, condutor de lhamas, trompetista, padeiro e primeiro presidente boliviano de origem puramente indígena. Tudo isso cabe na conjunção Marte-Netuno em Escorpião de Evo Morales.

Evo Morales, primeiro índio a assumir o poder na Bolívia, nasceu às 11h do dia 26 de outubro de 1959 em Isallavi, no ayllu Sullka, na província Carangas de Oruro, no altiplano boliviano. Com a conjunção Sol-Marte em Escorpião na 10 e Capricórnio no Ascendente, trata-se de um indivíduo talhado para as lutas políticas e com forte impulso para a ascensão social e o exercício de funções públicas. Como Saturno, regente do Ascendente, encontra-se na discreta casa 12, dando suporte ao Sol (há um sextil exato Sol-Saturno), e como Netuno também forma conjunção com Sol e Marte na casa mais elevada do mapa, este líder de origem humilde tem um forte toque Peixes-Netuno-casa 12 em sua personalidade e carreira. Isto se revela na prática de diversas formas, sendo que a mais evidente é o fato de Evo ser um líder das camadas mais pobres e oprimidas da população. Mas há também a questão do glamour pessoal e da importância que terá a política de bastidores em seu governo: o novo presidente é uma figura carismática e assumiu como "o salvador da pátria", tal como Lula no Brasil em 2002. Quanto à política de bastidores e à capacidade para guardar segredo sobre seus próximos movimentos, os fatos falam por si: a ocupação das refinarias, acontecida em 1º de maio, já estava cuidadosamente planejada desde a madrugada de 27 de abril. Mesmo assim, a chegada repentina de Evo Morales às instalações petrolíferas de Tarija para a assinatura da lei pegou todo o país (assim como o governo brasileiro) de surpresa. Nada mau para um Sol em Escorpião conjunto a Netuno!

Juan Evo Morales Ayma - 26.10.1959, 11h (-04:00) - Isallavi (Oruro), Bolívia.
17s59, 67w09. As coordenadas são de Oruro, capital da província.

Marte e Netuno em conjunção unem princípios antagônicos, do que pode resultar uma combinação bastante contraditória. Se Marte é a arma guerreira, Netuno é a anestesia, o que talvez ajude a entender as idas e voltas da política externa boliviana nos primeiros meses de governo: num momento, Evo promete nacionalizar toda a exploração e refino de petróleo e gás no país; no momento seguinte, acena para as multinacionais com garantias de que cumprirá rigorosamente os contratos já assinados e com promessas de que empresas como a Petrobras serão parceiras do governo boliviano. Finalmente, assina uma lei expropriando a refinarias em mãos da Petrobras e, um dia depois, ainda com o exército vigiando as instalações petroleiras, promete que não faltará gás ao Brasil. Com poucos meses no poder, Evo Morales já mostrou que é um mestre na política do "morde e assopra" (Marte e Netuno em Escorpião).

No altiplano, Evo Morales foi lhameiro (condutor de lhamas), trompetista, padeiro e ladrilheiro. No final dos anos 70, migrou com toda a sua família para a província de Chapare, uma região de vales férteis, nos arredores de Cochabamba. Foi ali que ele se tornou uma voz importante dentro da comunidade cocaleira e, numa carreira de líder sindical que guarda alguma semelhança com a do presidente Lula, lançou-se na vida política e tornou-se a figura de oposição mais conhecida na Bolívia, o que lhe deu base para candidatar-se à presidência da República.

O mapa de Evo Morales é do tipo conhecido como ímã, um tanto estendido, mas ainda assim perfeitamente reconhecível pelo fato de que todos os dez planetas estão concentrados num ângulo relativamente estreito, de pouco mais de um trígono. Mapas deste tipo, onde impera a concentração, são típicos de especialistas que colocam todos os ovos no mesmo cesto. Costumam ser pessoas com forte poder de atração, capazes de arrastar muitos seguidores fiéis. Evo Morales é exatamente assim: um especialista no trabalho de articulação das classes populares, extremamente carismático mas, ao mesmo tempo, com um repertório limitado de propostas e soluções. Com Urano conjunto à Lua em Leão na casa 8, Morales tem um discurso radical e cheio de colorido onde sempre desponta o tema dos recursos que estão em mãos alheias mas deveriam pertencer ao país (bens compartilhados e heranças são assuntos de casa 8). A mesma atitude radical, aliás, já adotada anteriormente com relação ao plantio da coca, quando Evo Morales ainda era um simples líder sindical.

Um presidente ligado à coca, mas não à cocaína

O hábito do acullicu - mascar folhas de coca - não cria dependência e não produz efeitos alucinógenos. Há centenas de anos bolas de folhas de coca são mascadas no altiplano pela população nativa, hábito que reduz as sensações de fome, frio e fadiga, além de ter efeito levemente energizante. Esta mistura de funções anestésicas com estimulantes coloca a coca sob uma dupla regência Netuno-Marte, exatamente a dupla de planetas que faz conjunção com o Sol na casa 10 de Evo Morales. Não foi por acaso que ele construiu uma sólida carreira como líder (Sol na 10) de organizações de cocaleros (produtores de coca, unindo sentidos de Marte e Netuno).

Os cocaleros bolivianos lutam há décadas contra a pretensão americana de extinguir todas as plantações de coca na América Latina. Segundo eles, o que deve ser combatido é apenas a produção de cocaína e o conseqüente narcotráfico, atividades que não se confundem com a produção de coca para consumo in natura ou sob forma de chás medicinais.

A atuação como líder cocaleiro levou Evo Morales a uma estrondosa votação para a Câmara dos Deputados em 1997. A partir daí, seu nome começou a ser cogitado para a presidência da República. Naquele ano, Júpiter, Netuno e Urano cruzavam a casa 1 de Morales, ajudando-o a projetar uma imagem mais impactante sobre a opinião pública. Plutão em trânsito fazia conjunção a Júpiter natal, agregando ousadia e sede de poder. Nove anos depois, depois de ruminar algumas derrotas (tal como ocorreu com Lula no Brasil), o insistente cocaleiro chegaria ao cargo máximo do país.

A posse no velho ritual de Tiahuanaco

Evo Morales teve duas cerimônias de posse, nenhuma delas cristã. A oficial, em 22 de janeiro de 2006, aconteceu às 14h11, horário de La Paz, e apresenta o Sol (o governante) na casa 9 em quadratura com a Lua (o povo, a opinião pública) exilada na casa 6, que rege os trabalhadores assalariados. A ânsia de Evo Morales no sentido de nacionalizar as reservas minerais e sua exploração vem mexendo positivamente com os brios do povo, mas, por outro lado, ao assustar investimentos internacionais, também vem criando conflitos com sindicatos e comunidades que protestam contra a diminuição das oportunidades de emprego. Com o Sol na 9 da posse, fica claro que as questões centrais do governo de Morales dirão respeito à área internacional, o que vem sendo confirmado pelos fatos: até o momento, a maior queda de braço do novo governo é com a influente Petrobras, multinacional brasileira com forte presença na economia boliviana. Fugindo à tradição católica das elites do país, o novo presidente recusou-se a jurar sobre a Bíblia. Não foi exatamente um ato contra a Igreja Católica, mas sim uma forma de afirmar a não submissão a valores culturais importados, que não fazem parte da tradição nativa. Mesmo assim, é fácil observar no mapa da posse que a grande quantidade de aspectos tensos envolvendo a casa 9, também significadora da religião organizada, deverá levar Evo Morales a alguma espécie de problema com a Igreja (muito mais conservadora na Bolívia do que no Brasil, diga-se de passagem).

Evo Morales - Posse oficial - 22.01.2006, 14h11 (-04:00), La Paz - 16s30, 68w09.

Mais impressionante, porém, foi a posse não oficial de Morales, acontecida na véspera, com o sol a pino. O palco escolhido foram as ruínas sagradas do império de Tiahuanaco, um foco de civilização do altiplano ainda mais antigo do que o Império Inca. Cercado de sacerdotes e dignitários das etnias Aymará e Quechua, sem falar na presença dos representantes de povos indígenas de todo o continente, Morales foi consagrado simbolicamente como o restaurador da velha ordem, como se fosse um avatar destinado a trazer de volta todo o esplendor perdido de um povo.

Posse indígena de Morales - 21.01.2006, 13h10 (-04:00) - Tiahuanaco

Quem é Evo Morales? Trata-se do verdadeiro porta-voz de um povo de tradições centenárias ou simples produto de um genial golpe de marketing? O mapa, com o Sol elevado em oposição a Saturno no Fundo do Céu, fala de um projeto imperial baseado em poder legítimo, mas o fato de serem dois planetas em exílio e tensamente aspectados revela que a oposição será ferrenha. Dois aspectos, em especial, clamam por cuidados nesta carta: um deles é a quadratura de Vênus na 9, regente do Ascendente, à Lua na 6, regente da 3. Não se trata de um aspecto violento, mas sendo a Lua significadora da opinião pública, em geral, e da imprensa, por reger a 3, pode-se pensar que os sonhos de restauração de uma identidade nativa na Bolívia sofrerão constante bombardeio. Já o outro aspecto é pura pirotecnia, reunindo por quadratura e oposição o guerreiro Marte no Ascendente aos planetas Júpiter e Netuno, ambos significadores de... gases! Literalmente, é a luta em torno do controle do gás natural transformada em principal bandeira da reconstrução boliviana; já simbolicamente, é a imagem de um balão de ar quente que infla ao ponto de explodir, revelando sua pouca substância.

O novo presidente boliviano vem mostrando que, mesmo quando defende causas justas, não trepida em utilizar meios nada ortodoxos. Apoiado pelo Brasil quando em campanha eleitoral, acaba de puxar o tapete de seu aliado. E isso depois de prometer, em novembro de 2005, o cumprimento de todos os contratos com a Petrobras. Até o momento, Evo Morales só tem sido fiel a seu próprio mapa de escorpiano, capaz de conciliar a terrível picada de Marte com a suave anestesia de Netuno.

Leia também: Bolívia, da humilhação à esperança

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