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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 95 :: Maio/2006 :: -

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ASTROLOGIA E POLÍTICA

Bolívia, da humilhação à esperança

Fernando Fernandes

O país que nasceu para viver uma "terrível e espantosa história" atravessa um momento de euforia com a nacionalização da exploração e refino do petróleo e derivados. A primeira vítima é a Petrobras. A próxima pode ser o bolso dos brasileiros.

Evo Morales em Kalasasaya, Tiahuanaco, na cerimônia indígena
de sua consagração como presidente boliviano.

Num gesto de desafio à comunidade internacional, o presidente boliviano Evo Morales decretou, no início da tarde de 1º de maio de 2006, a nacionalização das reservas de hidrocarburetos, o que significa dizer: controle absoluto da produção, refino e distribuição de petróleo e gás natural. Das várias multinacionais que atuam na Bolívia, a mais afetada é a Petrobras, cujos investimentos chegam a representar 15% de toda a riqueza do país.

Assinatura da lei de nacionalização dos hidrocarburetos - 2.5.2006, 12h33 (-04:00),
Caraparí, Tarija - Bolívia - 21s49, 63w46.
(Todas as cartas deste artigo, com exceção da carta da Independência de
Bolívia, foram calculadas a partir de dados pesquisados nos arquivos dos
jornais El Diário, La Razón e La Prensa, de La Paz.)

O mapa da assinatura do ato tem Saturno colado ao Ascendente. Saturno rege nesta carta a casa 6, dos trabalhadores subalternos, e foi exatamente em nome deles que Evo Morales anunciou a medida radical. A nacionalização (eufemismo para expropriação) poderia criar, segundo o presidente, milhares de novos empregos na Bolívia, além de estancar o que os jornais bolivianos chamam de "sangria dos recursos nacionais". Por outro lado, poderá levar a Bolívia a um forte desgaste internacional, já que as novas medidas implicam o rompimento unilateral de contratos. Não é por acaso que, no mapa da nova lei, o Sol, regente do Ascendente, ocupa a casa 9 da justiça e das relações com o estrangeiro, em oposição a Júpiter, significador essencial desses mesmos assuntos. Problemas à vista, portanto. Voltemos, todavia, a Saturno: a presença deste planeta no Ascendente, em exílio e em quadratura aberta com o Sol, permite que se traduza o significado do ato político de Evo Morales como uma tentativa dramática (Leão) de recuperação da auto-estima nacional, já tão abalada por "um século e meio de humilhação", para usar a expressão de uma popularíssima e emotiva canção boliviana. Mas para entender melhor esta questão, é preciso dar uma olhada no mapa dessa nação andina.

Um país e sua história espantosa

Independência da Bolívia - 6.8.1825, sem horário (mapa especulativo
calculado para às 12h LMT) - Sucre (antiga Chuquisaca), 19s02, 65w17.

O processo de independência da Bolívia deu-se como conseqüência da independência dos demais países da região andina. Na esteira das guerras de libertação promovida por Simón Bolívar, e aproveitando o desmoronamento do poderio militar espanhol, o marechal Antonio José de Sucre convocou em 9 de fevereiro de 1825 uma Assembléia Deliberativa para decidir o futuro da então chamada província do Alto Peru. A assembléia foi instalada em 10 de julho do mesmo ano em Chuquisaca (atual Sucre) e, sua maior tarefa não foi sequer declarar a independência da enfraquecida Espanha, mas sim decidir se a região deveria unir-se à Argentina, ao Peru ou transformar-se em um país independente. Após longas deliberações, assinou-se em 6 de agosto uma "Ata de Independência" que decidia pela transformação da região em país autônomo, com regime republicano. A data foi eleita de propósito para coincidir com o aniversário da Batalha de Junín, ocorrida um ano antes. A escolha do nome Bolívia, em homenagem a Simón Bolívar, aconteceu alguns dias mais tarde. O curioso é que o próprio Bolívar não era favorável à independência, preferindo que o Alto Peru permanecesse unido politicamente a outros países andinos.

Não há nenhuma informação histórica totalmente segura que nos permita eleger um horário para a independência boliviana, se bem que não faltem hipóteses :

  • Marc Penfield, astrólogo americano, autor de Horoscopes of the Western Hemisphere, propõe o horário retificado de 8h32, LMT (hora local), o que deixaria o Ascendente em 20º42' de Virgem;
  • O mesmo Marc Penfield informa que obteve do Centro Astrológico de Buenos Aires o horário das 16h para a Bolívia (Ascendente em Capricórnio, com Urano e Marte angulares);
  • Nicholas Campion, autor de The Book of World Horoscopes, propõe o horário de 12h LMT, o que deixaria o Ascendente em Escorpião. Campion, aparentemente, baseia sua hipótese na especulação de que a assinatura da Ata de Independência deva ter ocorrido após a missa da manhã - um raciocínio plausível, mas nada conclusivo.

Utilizando apenas um mapa solar calculado para às 12h (que acaba, por acaso, coincidindo com a hipótese de Campion), o que vemos é uma conjunção bastante aberta (órbita de nove graus) entre Sol e Júpiter em Leão, sendo que os dois planetas receben a quadratura da Lua em Touro. Com os dois luminares formando quadratura em signos fixos, não admira que a história da Bolívia tenha sido construída em cores tão trágicas nestes 180 anos de independência: o eterno divórcio entre interesses do povo (Lua) e dos governantes (Sol) num contexto de persistente pobreza. Outro aspecto que se destaca é a oposição Marte-Urano no eixo Câncer-Capricórnio, configuração explosiva, instável e imprevisível, bastante compatível com a história do país que é recordista em golpes de estado no continente americano.

Nenhum povo da América do Sul passou por tantas provações quanto o boliviano: a população de maioria indígena (quêchuas e aymaras) jamais, antes de Evo Morales, se sentiu representada pela elite que controla os destinos políticos do país desde a independência. Enquanto o povo amarga os piores índices de pobreza do continente, as riquezas minerais sempre foram metodicamente saqueadas por multinacionais americanas e européias. Desde a independência o país ainda teve de passar por dois terríveis conflitos militares, saindo perdedor de ambos: o primeiro foi a guerra do Pacífico, contra Chile e Peru, no século XIX, em que a Bolívia acabou perdendo uma vasta região para o Chile, incluindo sua única saída para o mar; e a Guerra do Chaco, contra o Paraguai, que terminou com 60 mil bolivianos mortos e a perda de mais alguns territórios ricos em petróleo (1932-1935).

Este breve histórico ajuda-nos a compreender o forte sentimento de xenofobia que vem-se desenvolvendo entre as camadas populares nos últimos anos. Cada vez mais o boliviano pobre, especialmente o de origem indígena, vê os países estrangeiros e suas empresas como aves de rapina que saqueiam as riquezas nacionais. Nos grandes distúrbios políticos de 2003, muitos estrangeiros - incluindo brasileiros - foram hostilizados e até mesmo agredidos nas ruas.

Recuando alguns anos no tempo, vamos encontrar na música uma chave preciosa para entender os sentimentos populares. Basta dizer que a Bolívia é o país com mais forte movimento artístico de cunho nativista em todo o continente, incluindo muitos grupos que gravam canções em dialetos indígenas. Um dos mais conhecidos conjuntos de "música de raiz", Los Kjarkas (à direita), gravou, nos anos 70, uma canção que vale como uma espécie de segundo hino nacional, e cuja letra expressa com clareza alguns dos sentimentos que ajudaram Evo Morales a subir ao poder:

Ser tu bravura, ser la fuerza y juventud
En tu letargo mudo, la voz de inquietud:
Bolivia...

Quiero pegar un grito de liberación
después de un siglo y medio de humillación

Quiero tengan tus días destino mejor
y el futuro sonría prometedor

en las faldas de tus cerros haré mi hogar
donde felices los niños irán a jugar

Bolivia ah...
Jallalla!!!
Walaychu

(Ser tua bravura, ser a força e juventude,
em teu letargo mudo, a voz da inquietude.

Quero soltar um grito de libertação
depois de um século e meio de humilhação.

Quero que tenham seus dias destino melhor
e que o futuro sorria promissor.
Nas encostas de teus montes farei o meu lar
onde as crianças felizes irão brincar.)

"Letargo mudo" não é uma expressão adequada para aquela Lua em Touro afligida pelo Sol? E o "século e meio de humilhação" não reflete bem o ressentimento de um país leonino que jamais teve a oportunidade de afirmar-se positivamente no cenário continental? É deste caldo de frustração que se alimentou a vitoriosa campanha de Evo Morales à presidência, processo que ocorreu num momento astrológico muito especial: em janeiro de 2006, todos os fatores da carta da Independência de Bolívia, dirigidos por arco solar, encontravam-se e oposição exata (180 graus) a suas posições radicais.

NOTA: a direção por arco solar é uma técnica de previsão que consiste em somar a todos os fatores (planetas e ângulos) de uma carta radical (carta de nascimento de uma pessoa ou instituição) um arco correspondente ao deslocamento real do Sol em determinado número de dias. Assim, se queremos fazer previsões para o vigésimo ano de vida de uma pessoa, temos de calcular quanto o Sol se deslocou em seus primeiros vinte dias de vida e somar os graus correspondentes às posições do mapa natal. Trata-se, pois, de um sistema simbólico, em que um dia de movimento do Sol corresponde a um ano de previsões.

Esta situação única, que só acontece na vida de um país a cada 360 anos, corresponde a um momento de forte tomada de consciência da própria realidade, aguçando o desejo de transformá-la. Basta lembrar que foi o mesmo fenômeno - todos os planetas dirigidos em oposição a suas posições natais - que levou o Brasil a eleger Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, quebrando com uma longa tradição de que o dirigente máximo da nação deveria pertencer às elites cultural e econômica.

Entretanto, a excepcionalidade do momento não garante, por si só, a eficácia do movimento de mudança. Apenas expressa um desejo, uma expectativa, que no caso boliviano se traduz na ascensão de um político de currículo tão peculiar quanto o de Lula.

Evo Morales, um índio cheio de gás



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