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Um olhar brasileiro em Astrologia
  Edição 101 :: Novembro/2006 :: -

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CICLOS PLANETÁRIOS E ALGUMAS QUESTÕES INCÔMODAS

Plutão em Leão: onde mora o perigo

Dimitri Camiloto

O século XX deveu a Leão boa parte de suas conquistas e dramas. No Brasil, a geração de Plutão em Leão tem ligação direta com a herança oligárquica que ainda caracteriza o modo de fazer política.

Há alguns anos, Carlos Hollanda, Vanessa Tuleski, João Acuio, Paula Sallotti e eu fizemos algumas interessantes comparações da geração Plutão em Leão com a gente aqui de Plutão em Virgem e Plutão em Libra. Mas lembro que aquela geração (a de Plutão em Leão) tem no Netuno em Libra e no Netuno em Virgem - se não excluirmos das reflexões o pessoal nascido na década de 30 - a mesma carga. Trata-se mais de uma questão de recombinação do que propriamente de ênfases divergentes.

É justamente no Leão que identifico uma distinção, mais do que no aspecto virginiano ou libriano. O século XX, apesar de ênfases em signos geracionais distintos, deve a Leão boa parte de suas conquistas e dramas. Contudo, quem tem menos de 40 anos, hoje, fica fora desse espectro. Leão reinou, na verdade, de 1914 a 1961, com um pequeno hiato entre 1929 e 1938. Netuno fica no signo entre 1914-28, Plutão, entre 1939-58 e Urano entre 1956-62. Há alguns fatos, a saber:

  1. As duas grandes guerras começam quando Netuno e Plutão entram no signo.
  2. Os interesses da geração Plutão em Leão podem facilmente se adaptar à herança patrimonialista/patriarcalista de Vênus + Nodo Sul na casa 6 do mapa do Brasil-Nação (1822). Em tempos como agora, em que Plutão em Sagitário faz trígono com essa conjunção (e com o Plutão natal de parte da geração), a coisa pode se traduzir em termos de iniciativas que, mascaradas no intuito de emancipação sagitariana, podem dar resultado justamente no estabelecimento de hierarquias que mantenham o cunho da dominação tradicional. Não confio em ninguém com mais de 40...
  3. Cuidado com a regulamentação da Astrologia! A polêmica regulatória parece que ganha escopo com Júpiter em Leão (2002-2003).

A maioria dos senadores e deputados federais eleitos em 2006, assim como o próprio
presidente da República e seus principais ministros, fazem parte da geração
Plutão em Leão, nascida entre 1938 e 1956.Aos poucos esta geração vem cedendo
lugar à de Plutão em Virgem.

É bom que se diga que a geração Plutão em Leão possui uma sintonia muito grande com o elemento Ar, principalmente os nascidos entre 1942-48. Esses realmente estão sintonizados com o grande trígono de Urano em Gêmeos, Netuno em Libra e Plutão em Aquário, que selará a Era de Aquário... mas o Plutão desses caras está em Leão. Com todo respeito, é aí que mora o perigo.

Astrologia e sua Rede Intelectual

O que quero é chamar a atenção para o papel do astrólogo enquanto membro de uma comunidade intelectual-profissional particular, portadora de uma subjetividade e de um lugar específico na sociedade. Quer dizer, lugar específico em termos, porque a internet e as escolas de astrologia parecem ter começado a fazer com que essa rede intelectual adquira uma nova dinâmica de atuação, se impondo mais no cenário social.

Carlos Hollanda costuma trazer à baila a relação entre Astrologia e Ecologia. Como essa visão é rica! O viés ecológico da Astrologia deve ser mais exaustivamente trabalhado junto ao "público leigo" para que, ao invés de ser vista como coisa de lunático, de alienado, de quem está com a cabeça fora daqui, a Astrologia seja vista como uma chave para conduzir o homem para fora do labirinto degradante, como uma ferramenta de compreensão da sua realidade; para além do materialismo ou do universo interior, simplesmente.

Os ponteiros das conjunções Urano-Plutão e Urano-Netuno têm apontado para signos de Terra, desde o início do século XVIII e mais radicalmente após o XIX. O elemento Terra predominando vem-se expressando na questão industrial e ecológica, ou ainda econômica e de subsistência. Antes, em Fogo, imperou a questão do herói e o Estado Nacional Absoluto, facilitando um prisma mais antropocêntrico. Aqui, a política englobava a economia, e não o contrário.

Nesse sentido, a radicalidade da contracultura foi a busca de uma vida menos materialista - ainda que em certa medida esse desapego possa ter ocorrido numa época de abundância relativa e alguns tenham sido hippies de butique. De sorte que parte do pré-requisito pra se entrar na Era de Aquário é a compreensão da chave material, evidentemente no centro da questão nos últimos trezentos anos. A astrologia do corpo e do espaço é um imperativo! Por outro lado, fazer o balanço dos prós e contras no enfoque material de Urano e Plutão em Virgem é decisivo na viagem ao âmago da conjunção e do tempo recente. As conjunções Urano-Plutão e Urano-Netuno prosseguirão em Terra no século XXII, até o ingresso generalizado nos temas de Ar. O aprendizado é lento...

Des-rotulando a Astrologia: por que temos que atribuir-lhe um signo?

Não concordo muito com essa história de astrologia aquariana devido ao fato de a Astrologia não ter certidão de nascimento. Astrologia aquariana mais parece coisa de neguim louco pra chegar na Era de Aquário e dizer que nossa arte é o futuro. Não resta dúvida de que ela tem muito de aquariana, mas também de outros signos e mitos, seguindo a linha sugerida por Carlos Hollanda, que identifica uma série de outras associações, entre elas a questão da capacidade de "prever", ou de perceber intuitivamente, uma convergência de fatores tipicamente sagitariana.

Fazer a analogia com um signo apenas - o melhor seria imaginar a Astrologia como possuindo as 12 características - reduz a mancia, a logia. Isto está em desacordo com a perspectiva de uma Astrologia crescentemente polifacetada. Émile Durkheim provavelmente falaria em "divisão do trabalho astrológico" ou "divisão social da astrologia". Somos médicos, historiadores e psicólogos; terapeutas corporais, espiritualistas e adivinhos; sabe-se lá o que ainda a Humanidade poderá forjar. Astrologia, patrimônio da Humanidade. Entender aquarianamente a Astrologia, sob a perspectiva da Era de Aquário, é ampliar o leque ao máximo possível. E não reduzi-lo. Quando será que se começou a difundir essa imagem da Astrologia como algo exclusivamente aquariano?

Outra coisa: só não vê o lado escorpiano da Astrologia quem não quer. Sempre somos estigmatizados, estamos perto do poder e violamos a intimidade alheia (e aqui a imagem ultrapassa em muito o bobo-da-corte aquariano). O lado sagitariano do ver além, do ver o futuro (com muito mais conteúdo que Aquário), foi bem lembrado pelo Hollanda. E por aí vai... somos 12!

Ou seja, ainda que a comparação Astrologia-Aquário seja perfeitamente viável, pensada assim pode restringir nosso approach da matéria.

Quanto à questão do desprestígio da Astrologia, já disse outra vez que os astrônomos não suportam a liderança absoluta do segundo lugar, isso é a maior prova de que nós nos destacamos, e muito. Há um público realmente fascinado pela Astrologia, então como falar em desprestígio? De modo que o problema da Astrologia é sobretudo com a oficialidade e a comunidade científica (mais precisamente físicos e astrônomos).

Contudo nos últimos quatrocentos anos, até 1890, a Astrologia penou, e muito. Se galopamos tão rapidamente em direção à Era de Aquário com a descoberta do planeta aquariano, com a ida do homem à Lua, com vários movimentos já correntemente aceitos, como ainda somos tão desprezados institucionalmente? E veja, Aquário é mais institucional que Peixes. Tem Saturno na jogada...

Vou tentar resumir a minha visão da queda da Astrologia tendo em vista Netuno e Plutão. Está cada vez mais claro que, dos ponteiros que marcam a transição Peixes-Aquário, constam as conjunções, as "revoluções" entre os três grandes, os três geracionais, os três distantes. Ainda que elas apenas sinalizem e orientem o movimento total, de sextis, quadraturas, trígonos e oposições.

Todas as conjunções geracionais seguem um caminho inexorável em direção ao elemento Ar quando, entre os séculos XXIII e XXIV, teremos Urano e Plutão em Libra (no ano que gosto de chamar de "expresso 2222"); Urano e Netuno em Aquário; e Netuno e Plutão em Gêmeos. Vejam que no século XXIII teremos ainda o trígono de Ar, com Urano em Gêmeos, Netuno em Libra e Plutão em Aquário... alguma semelhança com a década de 40, quando tivemos Urano em Gêmeos e Netuno em Libra? Só que Plutão estava em Leão! Bingo! Aqui a contracultura começou a falhar...

De Touro para Gêmeos, a Revolução da Imprensa

Não tem jeito, se é pra ter novidade, ou mesmo evolução, ou vida inteligente, temos de olhAR de outra forma pra nossa disciplina e nossos caminhos.

Antes de Netuno e Plutão se encontrarem em Gêmeos, os encontros ocorriam em Touro. Foi uma época mais propícia para um desenvolvimento vagaroso dos processos históricos ou de sociedades agrárias. Depois, em 1400, com Urano e Netuno em Gêmeos, as coisas começam a se acelerar mais um pouco.

O eixo Gêmeos/Sagitário cria dissonâncias para a Era de Peixes. É o começo do fim. Netuno conjunto a Plutão implica substancialmente transformações e rupturas na Era de Peixes. Assim como Urano e Plutão teriam mais a ver com Aquário. E Urano-Netuno, com os pormenores e as simbioses da transição. E aqui enxergamos o Brasil... bingo!

Bem, podemos pensar Netuno e Plutão em Gêmeos como o início da partida para o elemento Ar. Nasce Gutenberg, um herói geminiano, da propagação do conhecimento, não importa de que conteúdo, o importante é propagar. Democratização radical do saber. Facilidade de transmissão de culturas. Aquela coisa toda. A partir daqui a Europa e o resto do mundo vão cada vez mais se influenciar mutuamente. O Outro e Eu.

Contudo, a promessa de um admirável mundo novo começa a esbarrar nas miopias e abusos de um Netuno que não quer enxergar Plutão, de um Plutão que quer passar por cima de Netuno. É a famigerada oposição (século XVII) que resulta no banimento da Astrologia, que provavelmente pecou por não aprender lições de Netuno e Plutão em Gêmeos, relativas a uma provável disseminação e democratização desse saber. Tanto o apego a uma postura sacerdotal pode ter ajudado a criar o estigma como também a vulgarização comercial que tal desenvolvimento pode acarretar. Isso, numa era de franca batalha entre o sagrado e o profano, entre a ilusão e a verdade. Vejam que o Telescópio e o Microscópio são crias do século XVII. A própria Igreja começa a entrar num paradoxo (Inquisição, Cisma etc). A Astrologia se deixa atropelar pelo mecanicismo do século XVII. Talvez por arrogância e distanciamento em relação ao movimento cultural/dhármico da Humanidade. Ou ignorância sociológica, apenas. Os geracionais estão aí para isso, para possibilitar esse upgrade.

Contudo, novamente os dois gigantes, Netuno e Plutão, se encontram, em 1890. Aqui não vou enumerar os fatos sociais, como o cinema ou o automóvel, já que não é o foco principal. Mas me parece que o misticismo e o esoterismo começam decisivamente a deixar as Ordens e a se propagar mais aberta e popularmente. O pai de Emma de Mascheville funda aquela colônia interdisciplinar na Suíça; a psicologia vai edificar-se como disciplina, e seu impacto na Astrologia será enorme. Não só retomamos o bonde da história, como passamos a adquirir um caráter vanguardista, antes inexistente. Talvez aqui fique mais fácil vislumbrar uma imagem aquariana.

Com a descoberta de Plutão (1930), a Astrologia começa a penetrar decisivamente a indústria cultural, tornando-se inclusive um departamento dela. Netuno-Plutão em Gêmeos potencializa mídias. Para o senso comum, a Astrologia vira coluna de jornal, para décadas depois, participar de programas como o "TV Mulher", na Rede Globo. A análise da Astrologia enquanto fenômeno cultural ainda está para ser feita, e interessa sobretudo a nós, astrólogos. Essa aliança com a mídia é nossa dor e nossa delícia. Ela é um contrapeso muito importante na luta contra (ou pela) oficialidade.

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