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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 88 :: Outubro/2005 :: -

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ASTROLOGIA E LITERATURA

A Dona Pé de Cabra

Thiago do Amaral

O eixo de casas parentais compõe um controverso debate entre os astrológos. No texto a seguir esta questão é explorada partindo-se de um conto que tem origem numa época onde a questão da hereditariedade era de suma importância: a Idade Média.

Inicialmente meu objetivo com este artigo era embasar a opinião de que a casa 4 seria natural da mãe, enquanto a 10 seria a do pai. Mas depois de muito refletir e rascunhar, cheguei a um resultado diferente do que imaginava. Na verdade não estou querendo aqui provar uma teoria, mas sim propor uma reflexão.

Usarei como ponto de partida a estória "A dona pé de Cabra". Para quem não a conhece, ela faz parte do "Livro das Linhages", que é uma compilação de estórias de famílias importantes da região feudal de Portugal, na Idade Média. Se pensarmos no significado do "Livro das Linhagens" em termos astrológicos, teríamos um tema relacionado à casa 4, pois "linhagem", "feudo", "famílias nobres", são todos atributos desta casa. Esta estória específica tem origem no século XI. Vou resumi-la, tentando incorporar alguns elementos que serão importantes na reflexão astrológica que farei posteriormente.

Um dia Dom Diego Lopez estava caçando nas montanhas de seu feudo quando avista uma mulher sentada em uma pedra. Ela era muito bonita e estava bem vestida e Dom Diego lhe pergunta quem era. Ela responde ser de uma família de alta linhagem, e então Dom Diego a pede em casamento. Ela diz que aceitaria com a condição de que dali em diante ele nunca mais fizesse o sinal da cruz. Ele concorda e os dois se casam. Esta senhora tinha uma característica peculiar, que era seu pé dividido, como um pé de cabra. O casal teve dois filhos: um menino e uma menina. Um dia estavam todos almoçando quando Dom Diego joga um osso para seu cão de caça, de grande porte. Uma pequena cadela, que estava por perto, começa a brigar pelo osso e mata o cão com uma mordida no pescoço. Assutado com o acontecido, Dom Diego faz automaticamente o sinal da cruz. Sua mulher, contrariada com a quebra do acordo, pega a filha pelo braço, mas não consegue pegar o filho porque Dom Diego o segura. Ela foge pela janela do palácio com a filha e nunca mais é vista. Depois de um tempo Dom Diego vai guerrear contra os mouros e é raptado e preso. Seu filho, Inácio Guerra, desesperado com o acontecido, pede a ajuda dos que vivem em sua terra, mas eles dizem que nada havia a fazer a não ser procurar por sua mãe, nas montanhas. E assim Inácio vai em busca da mãe. Acaba encontrando-a em cima de uma pedra. Ela diz saber o motivo pelo qual ele foi à sua procura e lhe dá um cavalo, que explica não poder ser selado, nem alimentado. Diz ainda que com este cavalo ele venceria todas as batalhas nas quais entrasse. Para libertar o seu pai bastaria deixar-se guiar pelo cavalo. Então era só chamar pelo nome do pai e, quando ele subisse no cavalo, este os levaria de volta ao palácio ainda no mesmo dia. E assim aconteceu. Quando Dom Diego veio a falecer muito tempo depois, seu feudo ficou para o filho, Dom Inácio Guerra.

A Dona Pé de Cabra continua encantando o público português. O cartaz é de uma recente montagem com uso de marionetes da história na versão de Alexandre Herculano (A Dama Pé de Cabra).

A moral desta estória é que Dom Inácio teria que reconhecer e aceitar sua linhagem para que tivesse êxito na vida. A força da nobreza estava em reconhecer e aceitar sua origem. No caso dele, seria a união das duas partes: a linhagem paterna, que era representativa da luz e civilização, e a linhagem materna, representativa do obscuro e do misterioso. Só com a aceitação destas duas forças é que Inácio se tornaria o nobre Dom Inácio e teria êxito em sua vida.

Passemos agora à especulação astrológica. Poderíamos associar de início a mãe com a casa 4, pela representação obscura que ela tem nesta estória. A mãe habita a montanha e a floresta, lugares bestiais, reino do desconhecido. O pai, sendo morador do palácio, região da luz e civilização, poderia representar a casa 10. No conto, Inácio precisa reconhecer a importância de sua mãe (casa 4), de sua origem obscura (casa 4), para ter êxito na busca pelo pai (casa 10) e para se tornar Dom Inácio (casa 10). Porém surgem alguns problemas: a Dona Pé de Cabra está associada a uma série de elementos saturninos e de casa 10, como a sua própria denominação o indica: "pé de cabra". A cabra é o símbolo de Capricórnio, que guarda analogia com a casa 10. O lugar onde a mulher é encontrada mais uma vez nos coloca em contato com um elemento capricorniano: a montanha, que, por ser um lugar alto, tem a ver com a questão da ascensão, tema capricorniano. A mulher estava em cima de uma pedra, que é outro elemento saturnino (lembremos que Saturno é regente de Capricórnio). Já o pai também tem muitas atribuições de casa 4, como, por exemplo, o fato de ser um senhor feudal, dono de terras, que é um elemento da 4. Ele também é quem vai dar o "status" de nobreza ao filho. Note-se que ambos, pai e mãe, são de alta linhagem, mas é do pai que Inácio iria herdar a terra e a definição social.

A partir de todos estes elementos, que contradizem a proposta inicial, resolvi fazer o inverso do que havia feito: associei a mãe à casa 10, por causa dos elementos capricornianos e saturninos a ela relacionados, e o pai à casa 4, pelos elementos cancerianos. Neste caso, o problema que se impõe é o seguinte: por que razão é atribuída à mãe o caráter de obscuridade e ao pai o de luminosidade, sendo que a casa 10, a da mãe, seria a casa onde o Sol estaria a pico, o ponto de maior irradiação e luminosidade, enquanto
a casa atribuída ao pai seria a de maior escuridão, uma vez que o Sol estaria no ponto mais abaixo da superfície? Fiquei refletindo e pesquisando, até que achei algo interessante no livro As doze casas [1], que parece ser a chave para o entendimento da questão:

Muito simplesmente, a casa 10 descreve estas qualidades da mãe que também estão dentro de nós, quer gostemos ou não. A saída é complicada, no entanto, pela possibilidade de os posicionamentos da casa 10 designarem aspectos da personalidade da mãe que nunca foram vivenciados - atributos e características que a mãe não expressa ou representa conscientemente durante os anos de crescimento da criança. (...) Uma criança terrivelmente sensível à psique da mãe e aos subtendidos que ficam latentes no lar, será receptiva não só àquilo que ela manifesta abertamente mas também àquilo que ela nega ou suprime. A criança pode ser inclinada a 'vivenciar' o lado sombrio da mãe, como se a mãe se tornasse mais inteira ou redimida desta maneira.

A Dona Pé-de-Cabra representada com uma criança, ambas desnudas. Quadro de cerâmica em relevo por Maria de Portugal, 1942.

Seguindo o que foi dito acima, podemos entender o porquê de a "Dona Pé de Cabra" (a mãe, representativa da casa 10) ficar com o elemento obscuro, enquanto Dom Diego (o pai, reperesentativo da casa 4) fica com o luminoso. Na sociedade feudal, onde os papéis do homem e da mulher eram claramente definidos, não sobrava espaço para a mulheres (mães) expressarem seu conteúdo de realização (casa 10). Portanto, a maneira com que contornavam isto era expressando suas casas 10 através de seus maridos e/ou filhos. Partindo do princípio que o pai era a figura que conseguia se projetar e portanto vivenciar sua casa 10, é deste que o filho recebia a herança, o título de nobreza (casa 4). Esta parte da psique era facilmente reconhecida, já que a sociedade propiciava isto. Já a mãe, de quem o filho recebia a educação, tinha dificuldades de expressar sua casa 10 nesta sociedade, sendo portanto que certas cacterísticas eram relegadas ao inconsciente da mesma. Desta maneira, o filho "absorvia", em sua educação, este lado obscuro da mãe, e o vivencia por ela. Este seria portanto o lado da psique de difícil reconhecimento, uma vez que os atributos da mãe não era claramente visíveis e expressos. Daí a representação obscura da mulher no conto.

Esta é apenas uma reflexão acerca do eixo de casas 4-10 e suas atribuições às figuras parternas. Talvez seja necessário amadurecer mais a idéia e partir para experimentação prática com casos reais. Mas partindo desta lógica, montei o seguinte quadro esquemático:

Ao reconhecer e aceitar este "legado" (lado obscuro) da mãe, o indivíduo vivenciava a sua casa 10. Podemos entender portanto a importância de se aceitar e vivenciar os dois legados, o do pai, que é claro e objetivo, e o da mãe, não tão visível e claro, mas que era importante também para compor o equilibrio necessário do eixo de casas 4-10.

A história completa da Dona Pé de Cabra



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