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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 87 :: Setembro/2005 :: -

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Astrologia:
uma questão de imagem (e de diferenças)

Segundo o editor de Constelar, meu último artigo para esta coluna só perdeu em número de acessos para o mapa do Roberto Jefferson e para o artigo sobre o incêndio do edifício Joelma. Considerando que os dois artigos que me sobrepujaram são ambos incendiários, e a minha intenção é totalmente piromaníaca, creio que estou quase chegando lá.

Ainda neste primeiro semestre de 2005, o astrólogo paulistano Robson Papaleo me convidou para integrar uma mesa-redonda com outros colegas, objetivando discutir a astrologia enquanto uma questão de imagem. Papaleo é geminiano e, como todo bom filho de Mercúrio, aprecia o contraponto e o estimula como uma forma de fortalecer as virtudes do pensamento. Fizeram parte desta mesa, além deste que vos escreve e do próprio Robson, os astrólogos Carlos Fini, Márcia Bernardo, Maurício Bernis e Paulo de Tarso. Fomos mediados por George Ferreira Jorge, da Escola Santista de Astrologia. Curiosamente, nos vimos diante de uma platéia imensa, atenta, composta por astrólogos atuantes. Uma das coisas mais raras em congressos de astrologia é presenciar colegas assistindo conferências de outros colegas. A maioria - com louváveis exceções - apenas aparece para dar seu showzinho particular e sai correndo. E sim, se você freqüenta congressos de astrologia, sabe que eu não estou falando nenhuma mentira. Se você não é destes, meus parabéns. Seu risco de esclerosar e ficar fazendo a mesma palestra repetidamente, ano após ano, será bem menor!

Debate na Gaia. Da esquerda para a direita: George Ferreira Jorge,
Robson Papaleo, Paulo de Tarso, Maurício Bernis, Márcia Bernardo,
Carlos Fini e Alexey Dodsworth.

Logo de cara, me chamou a atenção o fato de que versar sobre a astrologia como uma questão de imagem tem um duplo sentido. O primeiro, mais sutil, diz respeito ao fato de que a astrologia é, antes de tudo, uma questão para as imagens. O objeto de estudo do leitor dos céus são as imagens geométricas produzidas pelos astros em sua dança. Este leitor, o astrólogo, lança questões para estas imagens, o que no final das contas é sempre uma questão de aparências, uma vez que lidamos com o que nos parece, com o nosso olhar diante da singularidade de uma geometria.

Seria este olhar um olhar objetivo? Como nos relembra Mauro Ceruti, objetividade é "acreditar que as características do observador não interferem nas descrições de suas observações". Deste modo, as questões lançadas para as imagens, por parte do astrólogo, têm por conseqüência a criação de universos, de perspectivas, de verdades sempre multânimes. O astrólogo, ao ler uma imagem, cria um universo e se torna co-responsável pela conversão do símbolo de seu cliente numa manifestação dinâmica - a qual podemos chamar de "destino".

Enquanto prática perspectivista, a astrologia admite o ponto de vista do observador (o astrólogo) que toma os céus como um cenário através do qual a alma se derrama, e os significados - que não vêm prontos, mas são criados - podem ser construídos em muitos níveis diferentes. Se você pensa que o que estou dizendo é muito complicado, faça uma experiência: faça seu mapa com três astrólogos diferentes. Eles não cairão em contradição, mas fornecerão visões diferentes para os mesmos símbolos astrais. Todas estas visões estão certas, mas nenhuma delas pode assumir status de "A Visão". Quem está no centro do seu mapa é você. Assim é se lhe parece. A leitura do seu mapa, por parte de outro, tratar-se-á sempre de um olhar a partir de outro céu. Como poderíamos, então, imaginar objetividade por parte de qualquer pessoa que tenha a pretensão de ser "objetiva"?

Esta "forma de sentir, de ver, de pensar" a astrologia não é lá muito tradicional - o que não lhe retira o mérito. Os puristas do astral apostam na existência de uma "verdade", de uma "interpretação certa" para as imagens astrológicas. É apenas no florescimento do Romantismo que se abrem as portas de uma filosofia da subjetividade, fundada em Kant, que termina por se desenvolver numa mutação do pensamento, um constante "construir" de perspectivas que se baseiam na verdade do sujeito, assunto de constantes investigações por parte de Hegel, Kierkergaard, Schopenhauer, Nietzsche, Freud, Jung, Sartre, Marx, Hegel, Einstein, dentre tantas outras grandes mentes que, ainda que não necessariamente "conhecedoras da astrologia" (com exceção, talvez, de Jung, que passeou pelo assunto), trouxeram à baila aquilo que a astrologia nos ensina há milhares e milhares de anos: o real é o que nos parece. Afinal de contas, o céu estudado é aquele que se vê, e não o "céu real". No final das contas, a astrologia é mesmo uma questão de imagens. Todos os pensadores relacionados, ainda que ignorantes em astrologia, podem ter suas percepções reduzidas a dois elementos fundamentais: todos versam sobre o espaço e o tempo - os dois elementos fundamentais da astrologia que, combinados, criam a "cruz" dinâmica que chamamos de carta astrológica. Uma imagem permanentemente mutante, apresentando não uma, mas múltiplas verdades.

O pensamento perspectivista, uma questão de imagem, nos apresenta à possibilidade de uma nova transcendência, ou melhor dizendo: uma transcendência inversa, onde não há um sistema absoluto de medidas, de certezas, de verdades, nada "uniforme" que abarque e pasteurize os elementos numa "mesma coisa". Ao absoluto, o luto.

Enquanto desejar-se viabilizar a astrologia por intermédio da estatística (esta fascinante forma de tortura em que se espremem os dados até que os números confessem aquilo que queremos ouvir), do céu pouco ou nada entenderemos. E antes que suponham que falo contra a ciência, cito Dante Galeffi, que em sua obra "O Ser-Sendo da Filosofia" anuncia:

Epistemologicamente falando, não há modelo possível capaz de unificar o campo das ciências humanas. A única saída, ainda que utópica, seria a ética. No caso, é a ética que poderia instaurar a possibilidade da intercomunicação entre as várias humanidades. Mas, isto só poderá vir a acontecer na medida em que as várias ciências do homem não pretendam, cada uma por seu turno, cair na ilusão fatal de que oferecem a mais perfeita e avançada verdade possível ao homem (...)

Dito isso, façamos uma pausa para a meditação. Respire fundo. De novo. Ah, não custa respirar de novo e mentalizar um globo azul. Vamos à parte 2 deste artigo.

Astrologia, mídia e relações de poder



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