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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 85 :: Julho/2005 :: -

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EM CIMA DOS FATOS

Roberto Jefferson e a caça à raposa

Fernando Fernandes

Desde meados de junho de 2005 o deputado Roberto Jefferson tornou-se o dono do mapa mais cobiçado do país. O que haveria na carta de nascimento do homem que, com suas acusações bombásticas, abalou as estruturas republicanas e afetou profundamente a imagem pública do Congresso Nacional e do governo do presidente Lula?

O olhar dos cães, a mão nas rédeas
E o verde da floresta
Dentes brancos, cães
A trompa ao longe, o riso
Os cães, a mão na testa:
O olhar procura, antecipa
A dor no coração vermelho

(Caça à Raposa - João Bosco e Aldir Blanc)

Quanto à data, nenhum mistério: o nascimento aconteceu em 14 de junho de 1953, em Petrópolis, região serrana fluminense, e era fato sabido que Jefferson faria seu depoimento na Comissão de Ética da Câmara dos Deputados no mesmo dia em que completaria 52 anos. O horário apareceu na lista de discussão Zigurat, de Astrologia Mundial, coordenada por Antonio Carlos Harres. No próprio dia 14 de junho a astróloga Izabel Teixeira, também residente em Petrópolis, enviou mensagem informando que obtivera o horário de 0h25 para o nascimento de Jefferson, fornecido pela própria mãe.

Roberto Jefferson - 14.06.1953, 0h25 - Petrópolis, RJ - 22s31, 43w10.

Para testar este mapa, deixemos que a própria aparência física e o comportamento de Jefferson nos guiem: trata-se de um homem corpulento (era obeso e fez cirurgia para redução do estômago), com testa alta, olhar desafiador, expressão entre assertiva e zombeteira e uma voz surpreendentemente agradável para alguém que bate de forma tão pesada. Seu nariz, ligeiramente afilado, lembra o perfil de uma raposa. E eis aí uma associação que vale a pena aprofundar, pela sua riqueza sugestiva. Para início de conversa, porque a raposa exerce um papel ambíguo: tanto pode ser o caçador quanto a caça. Na Inglaterra, onde a caça à raposa é um entretenimento muito popular na área rural, o que mais atrai os caçadores é a incrível sagacidade do animal, capaz de ludibriar os cães durante horas. Normalmente a raposa só começa a dar sinais de fraqueza quando é levada à exaustão.

O "nariz de raposa", ligeiramente afilado, o olhar vivo, o lábio superior ligeiramente projetado e as orelhas às vezes destacadas da cabeça são traços comuns a pessoas com ênfase em Gêmeos. Jefferson tem ali o Sol e o regente do Ascendente. (As fotos de Jefferson são dos sites institucionais do PTB e da Câmara dos Deputados)

Raposas são regidas por Mercúrio e Marte. De Mercúrio têm a esperteza, a agilidade, os lampejos rápidos e o sangue-frio para encontrar saídas, quando acuadas. De Marte têm o caráter predador, a voracidade e a disposição para obter o próprio alimento através da atividade caçadora. A capacidade de sobrevivência da raposa é, enfim, fruto da combinação de qualidades mercurianas e marciais.

Se o horário de nascimento é correto, Jefferson tem o Ascendente nos primeiros minutos de Áries. Marte, seu regente, encontra-se no final de Gêmeos, em conjunção com o Sol e em quadratura com o próprio Ascendente. Marte no Fundo do Céu é o planeta mais angular da carta, o que significa dizer: esse Marte em Gêmeos teria importância capital para explicar a personalidade e o estilo de atuação de Roberto Jefferson. É Marte no signo de Mercúrio, ou seja, é o próprio mapa da raposa.

Raposas povoam o imaginário do mundo ocidental há muitos séculos. Numa das fábulas mais antigas de que se tem conhecimento, atribuída ao grego Esopo que viveu 620 anos antes da era cristã, uma raposa não consegue alcançar um belo cacho de uvas e, para não ser tachada de incompetente, menospreza as uvas, dizendo que estão verdes. No momento seguinte, porém, o vento derruba o cacho no chão e a raposa corre para abocanhá-lo, negando com o ato as palavras que acabara de pronunciar.

Muitos analistas acreditam que, ao denunciar o suposto esquema do mensalão, talvez Jefferson esteja apenas atualizando a moral da velha fábula: afinal, quem desdenha quer comprar. Mas há uma série de outras fábulas envolvendo raposas, sempre utilizadas como símbolo da astúcia e da esperteza. A Europa medieval esteve cheia dessas histórias, que começaram a ganhar forma definitiva quando foram registradas por La Fontaine, no século XVII. Em várias fábulas a raposa leva a melhor sobre o leão, eterno símbolo do dirigente, e também sobre o lobo, símbolo da imposição do poder pelo uso da força bruta. Aparentemente mais fraca e desprotegida, a raposa das fábulas sempre encontra formas de safar-se viva, quando acuada - não sem antes fazer o adversário de bobo.

Roberto Jefferson tem deixado claro que não pretende entregar os pontos. Lutando com as poucas armas que tem - a palavra contundente, a ironia e a disputa verbal, tudo isso associável a Marte em Gêmeos - vem conseguindo fazer estragos consideráveis entre diversos partidos da base governista. Para isso em muito contribui a desenvoltura que adquiriu como advogado criminalista e como participante habitual de um programa de TV dos anos 80, onde defendia no ar os interesses dos espectadores. Não é preciso dizer que usar meios de comunicação como ferramenta de luta é uma típica postura de Marte em Gêmeos.

Temos aí, portanto, o que há de mais essencial no mapa desse deputado: trata-se de um guerreiro das palavras, capaz de utilizá-las como navalhas afiadas sempre que necessário. Lutar é algo que vitaliza Jefferson (Marte em conjunção com o Sol), até porque seus maiores talentos relacionam-se com a criatividade da esgrima verbal e a capacidade de persuasão (Sol em Gêmeos, na casa 3, em conjunção com Marte e trígono com Netuno na 7 - um mapa muito apropriado para um advogado).

Com Sol, Marte, Júpiter, Saturno e Netuno em signos de Ar, este é o elemento dominante da carta, seguido pelo elemento Água (três planetas em Câncer). Quanto às quadruplicidades, predomina a dos signos cardinais, que abriga seis planetas e mais os quatro ângulos. Isso faz com que Jefferson apresente uma dominante análoga à natureza de Libra, único signo simultaneamente aéreo e cardinal. Apesar de não ter qualquer fator realmente pessoal neste signo é como se Jefferson tivesse uma tônica libriana, que sempre deve ser considerada em complemento aos fatores que à primeira vista são mais evidentes, como Gêmeos, Câncer e Áries.

Libra é signo de conciliação e acordo, mas também de confronto e controvérsia. Muitas das questões que Jefferson vem levantando dizem respeito à temática de Libra e de casa 7, como conchavos suspeitos, alianças nebulosas (Saturno e Netuno na 7!), infidelidade partidária, brigas por causa de acordos não cumpridos e assim por diante. Por outro lado, tendo Áries na 1 e uma conjunção Marte-Sol (sem falar de Mercúrio, que analisaremos mais adiante), é compreensível que Jefferson seja boquirroto. Entre a discrição e a denúncia bombástica, sua veia histriônica prefere a segunda. E Jefferson confia em seu trígono Sol-Netuno e em Vênus em domicílio por signo e por casa (não é à toa que Roberto Jefferson estuda canto) para reunir encantos suficientes para seduzir a platéia. Até o momento vem conseguindo.

Roberto Jefferson diz a verdade? Dar resposta a esta pergunta é impossível do ponto de vista astrológico, já que as mesmas configurações podem ser vividas em vários níveis, e o mapa não pode nos dar idéia dos valores morais do nativo. Entretanto, o mapa permite um precioso insight sobre a forma como Jefferson se comunica e as motivações pessoais que o levam a falar. Mercúrio está em Câncer, na casa 4, em conjunção com Urano e quadratura a Saturno. É importante não menosprezar Mercúrio em Câncer, uma combinação que, se perde um pouco em agilidade mental, mostra-se altamente eficaz quanto ao domínio das nuances emocionais do discurso. Jefferson é absolutamente competente para explorar as sutilezas dramáticas do que diz, conseguindo, mediante pausas teatrais e momentos de ênfase cuidadosamente escolhidos, prender a atenção dos ouvintes para tudo que pretenda dizer. Mercúrio em conjunção com Urano traz um elemento de imprevisibilidade e de independência verbal: o deputado diz apenas o que lhe interessa, e não o que se espera que diga. Como Mercúrio-Urano recebem a quadratura de Saturno-Netuno, e como a Lua também está envolvida na mesma configuração, Jefferson acaba funcionando como um enorme espelho refletor, que devolve com violência as mazelas do sistema político de que ele mesmo faz parte. É mais do que evidente o tom de ameaça presente em afirmações como "aqui não tem ninguém melhor do que eu", dita para os integrantes da CPI onde era arguido.

Outra imagem bastante sugestiva é a do bobo da corte - o bufão que muitos reis da era medieval e do renascimento mantinham perto de si e que gozava de uma liberdade de expressão que nenhum outro súdito ousaria ter. Em sua insignificância - freqüentemente os bufões eram seres deformados, como anões, corcundas e outros deficientes - tais personagens não eram vistos como ameaças, podendo, portanto, exercer com mais desenvoltura o papel de consciência crítica do rei. Em vários sentidos, bufões são figuras regidas por Mercúrio e Saturno: de Mercúrio, a verve, a crítica inteligente, o trocadilho, a tagarelice constante; de Saturno, a fealdade, a deformação, e ao mesmo tempo o distanciamento crítico de quem se vê próximo do poder mas não se sente parte dele. Com Mercúrio e Saturno unidos por aspectos, temos a ironia, o sarcasmo, a percepção lúcida das coisas como elas são, assim como a disposição para dar "nome aos bois".

As palavras de Roberto Jefferson eram, num primeiro momento, ouvidas com a pouca importância que se daria a um bobo da corte: afinal, ele era o presidente do PTB, partido reputado como fisiológico, mais interessado em cargos e esquemas do que no bem público. Ao ser citado nas gravações que denunciam um funcionário corrupto dos Correios, Jefferson ficou em situação semelhante ao do bufão que, numa antiga corte medieval, desagrada o rei e está prestes a perder a cabeça. Para desviar a atenção de si próprio e livrar-se do carrasco, decide dar um show final, em que precisa manter a atenção da platéia ocupada durante horas - até que se esqueçam da sentença.

A configuração Mercúrio-Saturno-Netuno-Urano de Jefferson lembra exatamente isto: um bufão ácido, sarcástico, capaz de cantar e fazer fanfarronices pelo palco enquanto diz coisas terríveis.

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