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 Edição 84 :: Junho/2005 :: -

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A GUERRA DA IUGOSLÁVIA NOS ANOS 90

Milosevic, o leão predador

Fernando Fernandes

A análise da carta do ex-líder sérvio Slobodan Milosevic, atualmente julgado por crimes contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional de Haia, coloca o astrólogo diante de um desafio: é possível identificar com antecedência o mapa de um genocida?

Kosovo em chamas, 1999: herança do governo genocida de Slobodan Milosevic.

Em 24 de março de 1999, as forças da OTAN iniciaram o bombardeio contra a Iugoslávia, cujo governo vinha-se recusando a cumprir as exigências de interromper os atos de violência contra a população de origem albanesa da região de Kosovo. Tais atos faziam parte de um projeto de limpeza étnica, que incluía o desalojamento forçado de populações, torturas e execuções sumárias. O líder máximo da Iugoslávia de então era Slobodan Milosevic, que, explorando o sentimento nacionalista da etnia sérvia, já levara seu país a três conflitos de graves proporções: as guerras da Croácia (1991-1995), da Bósnia (1992-1995) e contra a província autônoma de Kosovo (1998-1999). Durante dez anos a Iugoslávia virou sinônimo de conflitos raciais e guerra civil.

Quais as causas desses conflitos que ensangüentaram a Europa nos anos 90 e colocaram em risco a paz de todo o continente? E quem é realmente Slobodan Milosevic, um dos maiores genocidas do século XX?

MILOSEVIC HOJE:

Após o bombardeio da antiga Iugoslávia pelas forças da OTAN, em 1999, o país foi ocupado e seus dirigentes, destituídos do poder. Nos anos seguintes a Macedônia também transformou-se num país independente, o que completou o processo de esfacelamento da velha Iugoslávia. Tendo em vista as pesadas acusações que pesavam contra Slobodan Milosevic e muitos de seus auxiliares diretos, constituiu-se um tribunal especial instalado em Haia, na Holanda. O julgamento começou em 26 de setembro de 2002 e arrasta-se até o presente momento (junho de 2005) em virtude de diversas manobras jurídicas, além de constantes problemas de saúde de Milosevic, que sofre de hipertensão. Milosevic é acusado de genocídio, assassinatos, perseguições e deportações em massa, destruição de mesquitas e igrejas católicas, um cerco de 43 meses à cidade de Sarajevo, capital da Bósnia, massacre de 8.000 pessoas na cidade de Srebrenica e até mesmo o assassinato de doentes no hospital de Vukovar.

As origens do conflito nos Bálcãs

Iugoslávia quer dizer, literalmente, a terra dos eslavos do sul. Realmente, a maior parte da população da antiga Iugoslávia - a parcela sérvia, para ser mais exato - é de origem eslava, pertencendo ao grande grupo que também inclui russos, ucranianos, búlgaros, bielorrusos e eslovacos, entre outros. Contudo, os últimos vinte séculos caracterizaram a península balcânica como uma região de permanentes conflitos, sempre disputada e partilhada pelas grandes potências de cada época.

No apogeu do Império Romano, a maior parte da região era uma província imperial, a Dalmácia. Com as invasões bárbaras, os ostrogodos se estabeleceram ali e constituíram um reino de curta duração. No século VI, o Império Bizantino (a antiga parte oriental do Império Romano, de cultura grega) recupera todo o território ao sul do rio Danúbio. É da época de dominação bizantina a conversão de boa parte da população à religião ortodoxa grega, forma de Cristianismo ainda hoje dominante na Grécia, na Sérvia, na Bulgária, na Ucrânia e na Rússia.

Enquanto os bizantinos avançavam pelo sul, povos bárbaros eslavos chegavam do norte e do leste, vindos das estepes russas. Os longos séculos de contato entre eslavos e bizantinos deram a base para a cultura sérvia, cujo alfabeto é o cirílico (derivado do grego e idêntico ao utilizado na Rússia) e cuja religião é a ortodoxa.

Com a expansão do Islamismo, a península cai nas mãos dos turcos otomanos, que vencem os sérvios na batalha de Kosovo, em 1389, e chegam às margens do Danúbio alguns anos depois. Durante praticamente quatrocentos anos, Belgrado foi uma cidade muçulmana e capital de uma província turca. Contudo, o nacionalismo sérvio jamais chegou a ser eliminado: com o início da decadência otomana, no século XVIII, os sérvios rearticulam-se e lutam até obter de novo a independência.

Batalha de Kosovo, em 1389, opondo cristãos (esquerda) e turcos muçulmanos (de turbante).

Paralelamente, outras forças agiam na península: ao sul, junto à atual fronteira albanesa, o principado de Montenegro jamais caiu sob domínio turco, mantendo-se como um baluarte cristão. Ao norte, o poderoso império austríaco, da família Habsburgo, comanda desde o século XVI a resistência aos otomanos, detendo-os em Budapeste (atual capital da Hungria) e anexando progressivamente porções cada vez maiores de território em direção ao sul. Aos poucos, a Croácia e a Eslovênia se transformam em área de influência austríaca, o que explica o catolicismo dessas duas regiões, que fizeram parte da federação iugoslava até o início dos anos noventa e hoje são repúblicas independentes.

Serajevo, capital da Bósnia, era uma província austríaca em 1914. Foi lá que um estudante sérvio assassinou com um tiro o arquiduque da Áustria, incidente que fez o império austro-húngaro declarar guerra à Sérvia, dando início à Primeira Guerra Mundial. Com a derrota da Áustria e da Alemanha, em 1918, o reino da Sérvia conduziu o processo de unificação da península balcânica, reunindo sérvios, croatas, eslovenos e montenegrinos no que seria depois a república da Iugoslávia. Esta só seria declarada depois de um período de dominação nazista, durante a Segunda Grande Guerra, quando a propaganda alemã, explorando a tradicional rivalidade entre sérvios ortodoxos e croatas católicos, contou com a decisiva colaboração destes últimos para efetivar o domínio dos Bálcãs.

Após a guerra, o carismático líder da resistência aos nazistas, Marechal Tito, consegue unificar outra vez o país numa federação e implantar um regime comunista a princípio alinhado com Moscou e, mais tarde, cada vez mais autônomo. Enquanto Tito viveu, a unidade iugoslava pôde ser mantida, mas tratava-se de um arranjo artificial, cuja precariedade revelou-se plenamente no final dos anos oitenta e início dos noventa, com a independência da Eslovênia e da Croácia e com a sangrenta guerra civil da Bósnia.

As causas do conflito em Kosovo, em 1999, são as mesmas do que já atingira anteriormente a Bósnia, com destaque para as dificuldades de convivência de etnias diferentes e rivais, divididas basicamente em três grupos:

    1. os sérvios, povo eslavo de religião cristã ortodoxa e alfabeto cirílico;
    2. os croatas, católicos com forte influência da Europa Ocidental, especialmente da Áustria, e que utilizam o alfabeto latino;
    3. os muçulmanos, parcela da população que adotou a religião e a influência cultural do Islã durante os quatrocentos anos de dominação otomana.

Além desses grupos principais, há ainda as minorias albanesa, grega e também - já bastante reduzidas desde os genocídios da Segunda Guerra - cigana e judia. Nenhuma delas se identifica com a maioria sérvia, nem pode ser considerada de etnia eslava. No caso específico de Kosovo, a população de origem albanesa desta província sempre desejou a autodeterminação, tendo declarado uma independência unilateral em relação à Iugoslávia.

Esta foi a região mais conflitada da Europa nos anos 90: a antiga Iugoslávia era constituída pela Eslovênia e pela Croácia (ambas de religião católica e alfabeto ocidental), pela Bósnia (de maioria muçulmana mas com expressivas minorias sérvia e croata), pela Sérvia (de religião ortodoxa e alfabeto russo), pela Macedônia (com presença étnica de gregos e albaneses) e, submetidas à Sérvia, as regiões de Montenegro (que sempre foi cristã) e de Kosovo (onde predomina a população de etnia albanesa).

Estilos oriental e ocidental de lidar com a diversidade étnica



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