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Um
olhar brasileiro em Astrologia
Edição 153 :: Março/2011 :: - |
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RETIFICAÇÃO DE CARTAS NATAISMétodos de retificação
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| Maria Helena Lyra |
Maria Helena Lyra propõe uma série de procedimentos rápidos e práticos para testar a hora do nascimento e, se necessário, retificá-la para uma uma interpretação astrológica mais segura. O método mais original utiliza a quase esquecida Parte da Fortuna, que funciona como um "quinto ângulo".
Este artigo é continuação de Será que esta hora está certa?
Antes de mais nada, começar duvidando. Em todos estes anos de prática de retificação tenho verificado que as horas “redondas” são, em sua maioria, “arredondadas”, a bem da estética (“para que ‘quatro e vinte e cinco’?”) ou por conta da má memória não confessada (“deve ter sido mais ou menos por aí”). “Mas está na minha certidão!” Só que a pessoa que o registrou não esteve presente ao parto. Se esteve, preferiu certamente olhar para o bebê, e não para o relógio. E quantos dias demorou até ir ao cartório? Casos há em que um pai registra o filho com data do dia seguinte (ou da véspera) porque era devoto do santo padroeiro daquele dia ou por ser o seu próprio aniversário. “Nasci em casa e minha mãe disse que ouviu tocar a ‘Ave-Maria’”. Quando? Num momento em que estava ansiosa com o futuro que custava a chegar? Ou quando o bebê já estava em seus braços e o presente estacionara na eternidade? Os partos complicados também são fontes de equívoco – ainda bem! Prefiro uma equipe ocupada em reanimar a criança do que preocupada em olhar o relógio – diz-nos Cardan que a hora de um nascimento é marcada com a primeira entrada de ar nos pulmões...
Deve-se considerar o fato de que a popularização dos relógios eletrônicos deu-se há uns vinte anos apenas: até então era normal “acertar-se” o relógio, pois era também normal uma certa “margem” na hora que ele mostrava...
É imenso o número de pessoas com hora de nascimento “aproximada”.
Assim sendo, então, acostumemo-nos a duvidar. É o primeiro passo do método.
Em segundo lugar, observar se há planetas próximos a qualquer dos quatro ângulos. Lembremos do exemplo de Urano/Descendente. Contamos o número de graus que separam o planeta do ângulo: eram, no caso, 25 (suponhamos que o dono do mapa já tenha passado desta idade). E perguntamos: “houve algum evento na área de relacionamentos entre os 24 e os 26 anos?” É bom darmos exemplos do gênero que buscamos. Não nos iludamos: nem todas as ocorrências serão lembradas. E convém termos pelo menos duas ou três confirmações seguras. Podemos fazer este tipo de teste em qualquer dos sentidos da eclítica: direto ou converso, isto é, partir do ângulo para a casa que ele inicia ou para a casa anterior (ex.: do Ascendente para a casa 1 ou do Ascendente para a casa 12).

Detalhe da carta da cidade de São Paulo, calculada para o horário não retificado
das seis horas da manhã: Sol, Mercúrio, Marte e Plutão estão próximos ao
Ascendente. Utilizando arcos solares ou progressões, é possível utilizar eventos
na vida da cidade que permitam - ou não - confirmar o Ascendente.
Esta equivalência aproximada, de 1º por ano, é tirada da distância entre o Sol progredido e o Sol natal, chamada de arco solar. Por exemplo: uma pessoa nascida a 30 de abril de 1972 terá, aos 30 anos, o Sol progredido a 28º55’57” de distância do Sol natal. A rigor, este seria o arco a ser usado para aferição da hora. Assim sendo, já teríamos uma diferença de 1º4’3” com relação ao padrão “um grau por ano”, ou seja, uma margem de erro de um ano. Não aconselhamos, portanto, a usar planetas a mais de 30º de distância do ângulo.
Mas há casos em que o mapa não apresenta planetas próximos a qualquer dos ângulos. Sabemos que não adianta usar a distância entre dois planetas: esta praticamente não se altera em uma ou duas horas: mesmo a Lua, que é rapidíssima, anda cerca de um grau em duas horas, enquanto o Ascendente e as casas podem, neste tempo, percorrer um signo inteiro. E agora? Só recorrendo ao “quinto ângulo”.
Sim, você não se enganou. É isto mesmo.
Tomemos, por exemplo, um nascimento ao meio-dia, a 29 de junho de 1999, no Rio de Janeiro. Sol a 7º26’ de Câncer, conjunto ao Meio-do-Céu a 8º17’ do mesmo signo. O ponto Ascendente a 11º59’ de Libra, Lua a 15º32’ de Capricórnio.
E se a Lua fosse o Sol? E se fosse ela, lá em cima, no Meio-do-Céu, que ponto da eclítica ocuparia o lugar em que está o Ascendente? Bem, o Ascendente está 94º33’ adiante [1] do Sol. Esse tal “Ascendente da Lua”, então, estaria 94º33’ adiante dela, ou seja, a 20º05’ de Áries. Pois olhe só o mapa. Este ponto já está ocupado... pela Parte da Fortuna, ou Roda da Fortuna [2]. Ela é o Ascendente da Lua, conforme expresso pelo próprio Ptolomeu [3].

A Parte da Fortuna expressa uma relação entre as posições do Sol,
da Lua e da Terra. Funciona como um "Ascendente da Lua" e
pode ser utilizada em processos de retificação.
É um ponto sensível a trânsitos e progressões, sem dúvida (deixemos de lado outras interpretações sujeitas a polêmicas). O único detalhe, porém, é que seu cálculo irá, obviamente, depender da precisão da localização do Ascendente e, por conseguinte, da hora exata. Quem sabe não é por esta razão que praticamente não se encontram descrições de aspectos à Parte da Fortuna na literatura que trata de “previsão”? Como a maioria dos mapas natais tem a hora imprecisa, a Roda que eles mostram tem um papel meramente cosmético: não é a “verdadeira”... É por isto que não se tem notado a eficácia deste ponto, e tem-se evitado detalhar seu comportamento dentro da linha do tempo.
Ocorreu-me observar a Parte da Fortuna desde o início do meu trabalho com retificação da hora do nascimento. E qual não foi minha surpresa ao verificar que ela “funciona” em todas as técnicas tradicionais: trânsitos e progressões de todo tipo. No mapa diário, então, que é de natureza “microscópica”, verifiquei ser essencial observar seus aspectos, assim como os dos ângulos e da Lua. A Parte da Fortuna constitui, aliás, um dos meus instrumentos de ajuste fino: quando começa a “falar” é sinal de que posso ter chegado ao minuto exato.
Usemos, pois, este “quinto ângulo”, este “Ascendente da Lua” para verificar a precisão da hora dos mapas com que trabalhamos. É só progredi-la um grau por ano de vida, até encontrar-se com algum planeta. Por exemplo: Roda a 15º00’ de Leão e Plutão a 2º00’ de Virgem. “O que aconteceu entre 16 e 18 anos, que foi radical, profundamente marcante, que tenha significado perda, ou que tenha tido referência à sexualidade?” “Ah, foi aos 20, tal fato assim-assim.” Se as outras respostas tinham também esta diferença de dois anos, já temos um ponto de partida.
Estamos trabalhando somente com as conjunções porque são os aspectos de maior força. Podemos, no entanto, considerar também as quadraturas e oposições.
Caso, porém, as diferenças apontem para margens maiores ou não se encontrem correspondências com fatos ocorridos, deve-se refletir sobre a confiabilidade daquele mapa. Abra as Efemérides e pergunte sobre as épocas de trânsitos de Saturno sobre os ângulos e sobre a Roda da Fortuna – estes costumam ser bastante evidentes e bem datados.
Se, ainda assim, nada se encontrar, talvez seja indicado informar à pessoa que sua hora está provavelmente incorreta, e que haverá uma certa margem de dúvida nas interpretações que envolverem ângulos e cúspides de casas. Não tente retificar o mapa: o processo de retificação é muito complexo e requer especialização. É melhor encaminhar a pessoa a um profissional qualificado para este tipo de trabalho. (É mais prudente não recorrer às retificações “instantâneas”, feitas somente por “intuição” ou pelo emprego de uma só técnica: o processo completo leva em torno de um mês e exige um conjunto de técnicas muito específicas.)
[1] O termo “adiante” toma como referência a longitude da eclítica.
[2] Fórmula para cálculo: Ascendente + Lua – Sol = Parte da Fortuna. Esta é a única fórmula ptolomaica para o cálculo deste ponto. As variações para nascimentos diurnos ou noturnos foram propostas por outros autores.
[3] PTOLOMEU, Claudio. Tetrabiblos, livro III, capítulo 11.
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