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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 170 :: Agosto/2012

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BAHIA, LUA DO BRASIL

A fundação de Salvador
nas cartas do Padre Nóbrega

Alexey Dodsworth

Oficialmente, a primeira capital do Brasil teria sido fundada em 29 de março de 1549, com a chegada de Tomé de Sousa. Contudo, as cartas do Padre Nóbrega não deixam dúvida de que Salvador surgiu com o Sol em Touro, na manhã de 1º de maio.

Pelourinho

O Pelourinho há algumas décadas.

Que investigação! Vários livros, todos falando da data de fundação da cidade, inclusive com controvérsias a respeito da data, mas nenhum com a hora.

Eis que – ulalá! – me deparei com uma preciosidade: um livro velho e carcomido, cheio de ácaros e informações. O livro inteiro é um apanhado de cartas enviadas a Portugal (Cartas do Brasil, do Padre Nóbrega), numa compilação feita por Pedro Calmon, que descreve, com aquela típica riqueza de detalhes da língua portuguesa antiga, a chegada de Tomé de Sousa a Salvador e a construção da cidade. A primeira do Brasil, por sinal, pois antes só havia "vilas".

Vamos ao texto, portanto:

"Tinha razão Fernão Alvares: os nortes de Janeiro favoreciam a viagem. Foi feliz e rápida (...) Poude dizer: 'Chegamos mais sãos do que partimos...' Vento à feição, bem providos os navios, as tripulações conciliadas com o seu dever, os melhores mostrando aos mais humildes a boa conduta, que os padres lhe louvavam, exemplo de severidade e devoção o ilustre TOMÉ DE SOUSA, compreende-se que nenhum incidente lastimável perturbasse a paz da travessia – até vinte e nove de março, quando surgir a armada à vista da baía de Todos os Santos."

"Deitando a boreste a terra baixa, que se achava em fitão árido da Angra de Tatuapara até o Portal de Itapoan, fez a volta aos recifes do Rio Vermelho, dando distância ao promontório do padrão, onde marca a Barra de Vila Velha, para ir deitar ferros no Porto de Caramuru, onde era o desembarque."

"Tão diferente essa paisagem, ardendo ao sol de março a pino, das colinas relvosas, dos vales retalhados em quintas de muro antigo, das margens povoadas e amplas do rio de Lisboa (...)"

Vemos aqui uma clara referência ao fato de que a tripulação de Tomé de Sousa chegou a Salvador quando o Sol estava a pino, ou seja, conjunto ou próximo ao Meio do Céu.

"Ao encontro das naus correram as armadas com Caramuru; os gentios, os cristãos que as esperavam, enquanto em terra pasmavam os índios, 'espantados de ver a majestade daquilo' (...)"

"O patriarca, honrado com a carta de el-rei que mandava servir ao novo governador, assegurou a Tomé de Sousa a paz do gentio: tomasse conta da capitania, para D. João III, seu príncipe e senhor, que dele sempre fora."

"Adiantou-se Nóbrega: antes de deixarem a nau para o almoço, que fossem ouvidos em confissão pelos padres, como se costumava à véspera da batalha (...)"

Temos aqui outra clara referência de que a chegada de Tomé de Sousa se deu por volta da hora do almoço.

"(...) O Rei figurava ali, na pessoa do governador (Tomé de Sousa) (...)"

Padre NóbregaO Padre Nóbrega, líder da missão jesuítica que chegou ao Brasil com Tomé de Sousa. Suas cartas constituem a fonte mais precisa da fundação de Salvador.

O restante do texto ilustra uma série de protocolos oficiais cristãos, como a cruz enorme fincada onde a tripulação desembarcou. É relatado que, ao desembarcar, Tomé de Sousa disse: “Será bela, esta cidade do Salvador”. Foi a primeira vez que um lugar no Brasil foi chamado de “cidade” – antes, conforme é do conhecimento histórico, só existiam vilas.

A grande controvérsia nasce ao considerarmos que Tomé de Sousa desembarcou em Salvador a 29 de Março de 1549, mas que a cidade começou a ser efetivamente construída – seus primeiros alicerces estruturados – em Primeiro de Maio de 1549, pouco mais de um mês depois. Todo o mês de Abril foi dedicado à investigação do território, planejamentos e organização de grupos de trabalho.

Também a 1º de Maio de 1949, em cerimônia oficial, tomaram posse da cidade o seu Provedor (uma espécie de prefeito) e o Médico, que na época era detentor de imensa influência política. A cerimônia oficial de "posse" foi por volta das 10 horas da manhã, duas horas depois de um verdadeiro "exército de homens" ter iniciado a construção da cidade do Salvador.

A definição de 29 de Março de 1549 como data de fundação da cidade é algo relativamente recente. Durante dezenas de anos, existiram controvérsias a respeito das seguintes datas:

  • 29 de Março: chegada de Tomé de Sousa a Salvador.
  • 1º de Maio: início da construção da cidade do Salvador.
  • 13 de Junho: primeira procissão de Corpus Christi, para comemorar o nascimento da cidade do Salvador.

Vejam, por exemplo, como definia Nóbrega em suas Cartas do Brasil, num poético texto de 1549:

"(...) Achado o sítio adequado para a construção da cidade – sobre a praia, em local de muitas fontes, entre mar e terra e circundado das águas em torno aos novos muros. Comandou mestre Luis Dias o trabalho de seus pedreiros a partir das oito horas do primeiro dia do mês de maio. Esta, a data inaugural. Este, o feliz dia do início das obras, do princípio da cidade da bênção lançada à tarefa imensa (...) Que começasse com o mês o Prodígio de levantar-se do mato e da montanha a povoação grande e forte. Que coincidisse com seu primeiro dia e suas primeiras luzes a orquestração das ferramentas rasgando na encarra, sobre a vastidão do golfo (...) E marcasse o primeiro de maio o deslocamento gradual dos funcionários, dos homens d'armas, do arraial de Caramuru, da grade protetora que tanto lhe servira, para a agreste colina que seria chamada 'Cidade do Salvador' ".

Mais adiante, o texto descrevia a cidade sendo construída: não por reis ou "tomés de sousa", mas por escravos e índios, que receberam como pagamento um saldo de machados, espelhos e especiarias. O texto revela uma cidade construída por índios, negros e alguns pedreiros europeus, que tinham o status de arquitetos na época (a arquitetura é profissão recente), e não "sujavam as mãos", mas simplesmente comandavam a obra.

Afinal, qual data podemos considerar para a fundação da cidade? A data da chegada de um representante do Rei ou a data em que os futuros moradores começaram a erguê-la?

Do relato de Nóbrega e da análise das duas hipóteses levantadas por Alexey Dodsworth, fica a certeza de que a data a ser considerada é realmente a segunda, do primeiro de maio. Para isso, é preciso entender o significado dos dois acontecimentos.

Cabe lembrar que 29 de Março e 1º de Maio atualmente não equivalem mais a estes dias. Mudanças de calendário sugerem a necessidade de considerarmos outros dias, se quisermos fazer as revoluções solares para a atualidade.

NOTA - Dada a mudança do calendário juliano para o gregoriano, a Revolução Solar de Salvador para 2012 caiu no dia 10 de maio (dez dias de diferença), e a Revolução Solar da chegada de Tomé de Sousa, em 7 de abril.

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