Constelar Home
menu
Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 165 :: Março/2012 :: -

Busca temática:

Índices por autor:

| A - B | C - D | E - F |
| G - L
| M - Q | R - Z |

Explore por edição:

1998 - 2000 | 2001 - 2002
2003 - 2004 | 2005 - 2006
2007 - 2008 | 2009 - 2010
2011 - 2013 |

País & Mundo |
Cotidiano | Opine! |
Dicas & Eventos |

ASTROLOGIA E HISTÓRIA

Rio de Janeiro: todos numa só maré

Fernando Fernandes

A identidade astrológica do Rio de Janeiro foi construída ao longo de vários momentos-semente. Quatro cartas se entrelaçam, entre 1502 e 1565, para contar a história de uma cidade nascida de uma guerra e vocacionada para o poder.

Rio cartão-postal

Cidade brasileira mais conhecida no mundo, capital do Brasil por quase dois séculos, caixa de ressonância da política nacional, polo turístico que mexe com a imaginação de milhões de visitantes, futura sede de uma olimpíada. Com tantos atributos, o Rio de Janeiro precisa ter um mapa muito especial. E tem. Até mesmo mais de um, para sermos mais exatos.

Como uma ruína arqueológica, o mapa de um país ou de uma cidade importante é construído em camadas. Não é apenas um mapa, mas vários, que vão se superpondo ao longo dos séculos e destacando, pouco a pouco, meia dúzia de fatores que compõem a personalidade astrológica daquela coletividade. No caso do Rio de Janeiro, o primeiro mapa a considerar é o de 1º de janeiro de 1502, data em que se tem o primeiro registro da chegada de europeus à Baía de Guanabara.

Quando os portugueses aqui aportaram pela primeira vez a região era dominada pelos ferozes índios tupinambás, com a única exceção da Ilha de Paranapuã. Esta, hoje chamada Ilha do Governador, onde se situa o Aeroporto do Galeão, era então ocupada pelos temiminós, rivais dos tupinambás. As duas tribos eram, aliás, muito semelhantes: ambas falavam a língua tupi e ambas eram antropófagas.

amerigo vespucciNos anos que se seguiram ao Descobrimento do Brasil, o governo português enviou para cá algumas expedições exploradoras com o objetivo de levantar as potencialidades econômicas da nova terra. Em agosto de 1501 aportou no Nordeste a expedição comandada por Gaspar de Lemos, que trazia em sua tripulação um esperto piloto e cosmógrafo italiano chamado Américo Vespúcio [imagem à direita]. A expedição desceu a costa brasileira lentamente, de norte a sul, descobrindo e batizando todos os acidentes geográficos do litoral. Os nomes escolhidos normalmente derivavam do calendário católico, origem de nomes como Cabo de Santo Agostinho (descoberto em 28 de agosto), Baía de Todos os Santos (1º de novembro de 1501), cabo de São Tomé (21 de dezembro), e assim por diante.

Em 1º de janeiro de 1502 a frota de Gaspar de Lemos penetrou numa baía de impressionante beleza e vegetação exuberante. Talvez por terem confundido a entrada da baía com a foz de um rio, talvez (mais provável) porque tenham presenciado o espetáculo das chuvas de verão descendo em cascata pelas montanhas do entorno, batizaram a região com o nome de Rio de Janeiro.

Batismo do Rio de Janeiro 1501

Batismo do Rio de Janeiro por Américo Vespúcio
01.01.1502 - calculado para o horário-padrão das 12h, sem casas

A carta solar da ocasião mostra uma conjunção Sol-Netuno em Capricórnio e uma impressionante quadratura T em que Urano e Vênus recebem os aspectos tensos de Marte e Plutão. Já estão aí, nesse mapa proto-histórico da chegada dos portugueses, duas características que irão marcar a vida da futura cidade:

  • A magia da paisagem e sua capacidade de atrair e encantar o visitante (Sol-Netuno, um aspecto magnético); e
  • A dinâmica feminina, libertária e violenta da comunidade que se instalaria naquela região (Vênus em Aquário no ápice de uma configuração muito agressiva).

A região continuaria encantando os portugueses. Em todas as visitas subsequentes das caravelas sempre ocorreria pelo menos uma deserção. Os marinheiros queriam ficar por aqui, mesmo com a praia infestada de canibais.

Ao longo dos anos, a Baía de Guanabara ganhou uma feitoria de pau-brasil e começou a chamar a atenção de corsários e piratas. Dentre as visitas indesejáveis, as mais frequentes eram de franceses. E foram eles, e não os portugueses, que decidiram finalmente criar na margem esquerda da Baía de Guanabara uma colônia de povoamento permanente. Em 10 de novembro de 1555 Nicolas de Villegaignon entra na Baía de Guanabara e inicia a fundação da França Antártica, um ambicioso projeto que, se fosse bem sucedido, faria de todos nós franceses e... protestantes calvinistas!

Henriville

Fundação da França Antártica, o "Rio de Janeiro" francês
10.11.1555, calculado para o horário-padrão das 12h, sem casas

O mapa da França Antártica apresenta ênfase em Escorpião e uma quadratura de Sol com Plutão, bem de acordo com a natureza do empreendimento: na verdade era uma ocupação de território alheio, verdadeiro ato de pirataria. Vênus e Júpiter estão também em Escorpião, em conjunção partil (exata), ambos em oposição a Netuno. O aspecto tenso reunindo dois significadores de fé e religiosidade (Júpiter e Netuno) e o significador de harmonia já antecipa claramente a natureza dos problemas que Villegaignon iria enfrentar. Além do mais, o que pensar da quadratura entre Marte e Saturno, com troca de domicílios? Decididamente, Villegaignon não começou sua aventura num bom momento.

Villegaignon sabia que os portugueses voltariam. Carente de mão-de-obra, solicita reforços à França. O que ele esperava eram soldados e marinheiros. Contudo, o único reforço que recebeu foram 150 famílias protestantes calvinistas (ou huguenotes) que, perseguidos na Europa, esperavam encontrar na América um refúgio seguro. Villegaignon, que era católico, recebeu esses migrantes da melhor maneira possível, já que precisava desesperadamente de reforços. A colônia dos pastores protestantes ficou conhecida como Henriville, homenagem ao rei francês Henrique (Henri) II. Nela, contudo, vivia-se o caos: as relações entre católicos e protestantes nunca foram das melhores, o que contribuiu para o enfraquecimento dos laços comunitários. Houve fofocas, traições, revoltas e problemas de todo tipo. Por exemplo: os franceses solteiros queriam se divertir com as indígenas, mas os pastores, para manter a moralidade, obrigavam os casais a contrair matrimônio. Muitos franceses, assustados com a ideia de ficar presos para sempre a uma "selvagem" (e sem direito à poligamia), desertavam e passavam a viver entre os índios tupinambás.

O mapa seguinte mostra a data da chegada dos huguenotes, ou seja, dos trezentos protestantes calvinistas que vieram criar o primeiro assentamento cristão não-católico do continente americano.

Henriville 1557 solar

Chegada dos 300 refugiados protestantes franceses a Henriville (Rio de Janeiro)
26.02.1557, calculado para o horário-padrão das 12h, sem casas

Coincidentemente, o Sol está em Peixes (estava em conjunção com Netuno na descoberta da Baía de Guanabara e estará em Peixes de novo na fundação definitiva da cidade pelos portugueses). Marte aparece, mais uma vez, envolvido em aspectos tensos com Vênus e Urano - exatamente como no mapa da descoberta da Baía de Guanabara, em 1502! Ainda faltavam oito anos para a fundação definitiva do Rio de Janeiro, mas a identidade astrológica já se manifestava nesses mapas preparatórios.

Forte Coligny

Ilustração publicada na obra francesa La Cosmographie Universelle, século XVI, mostrando o combate entre portugueses e franceses pelo controle da baía de Guanabara, em 1560. Abaixo do número 1 lê-se com clareza a legenda "Henriville", mostrando onde ficava a vila de protestantes franceses que antecedeu a própria cidade do Rio de Janeiro. O número 2 indica o Pão de Açúcar, na entrada da baía. O número 3 mostra a ilha de Serigipe (hoje Ilha de Villegaignon), onde se situava o forte Coligny (francês) cercado de embarcações de guerra portuguesas.

Quando os portugueses voltaram, em 1560, capitaneados pelo governador geral Mem de Sá, encontraram os franceses desunidos e impuseram-lhes uma pesada derrota. Contudo, Mem de Sá teve de voltar para a Bahia e os franceses ganharam alguns anos para reconstruir seus fortes e reforçarem posições. Não bastava apenas vencê-los, era preciso expulsá-los e ocupar permanentemente o território. Foi com ordens de vencer os franceses e fundar uma cidade que Mem de Sá mandou no final de 1564 seu sobrinho, Estácio de Sá. À frente de uma esquadra de cinco navios, Estácio foi primeiramente ao litoral do Espírito Santo, onde entendeu-se com o cacique Araribóia, dos índios temiminós. Araribóia teria um papel decisivo na reconquista da Guanabara. Em seguida, Estácio rumou para São Vicente (litoral de São Paulo), onde, entre outras providências, reforçou suas tropas com mais índios tupiniquins, aliados dos portugueses, de forma a contrabalançar o contingente de guerreiros tupinambás da Baía de Guanabara que lutavam ao lado dos franceses.

Os tupinambás não aceitavam a presença portuguesa no Brasil, muito menos as tentativas de escravização da mão-de-obra nativa. Foi o que levou tribos poderosas, desde o litoral norte de São Paulo até a região de Cabo Frio, a formar a chamada Confederação dos Tamoios (corruptela de Tamuias: os mais velhos, os anciãos). Aliados dos franceses, os tamoios combatiam os portugueses sem cessar desde 1556, na tentativa de expulsá-los definitivamente do litoral brasileiro. A maior fortificação dos tamoios era exatamente às margens da Baía de Guanabara, no Morro da Glória, então chamada Uruçumirim. O projeto dos portugueses era penetrar na baía e destruir esse reduto indígena, o que deixaria os franceses sem sustentação.

A única testemunha ocular da fundação do Rio de Janeiro que deixou uma narrativa escrita dos acontecimentos foi o padre jesuíta José de Anchieta (sempre ele), o mesmo que, onze anos antes, também auxiliara Manual da Nobréga a fundar a vila de São Paulo de Piratininga. No caso do Rio, Anchieta foi mais do que testemunha, tendo tomado papel ativo em todas as decisões de Estácio de Sá.

A carta de Anchieta

O documento mais importante para os acontecimento de 22 de janeiro a 31 de março de 1565 é a carta de Anchieta ao Provincial de Portugal, escrita da Bahia a 9 de julho de 1565. O único texto é o de S. Roque (Lisboa) e contém muitos passos ilegíveis e destruídos. O relato de Anchieta nem sempre é preciso, especialmente no que se refere às datas, até porque o Apóstolo do Brasil relatou os fatos de memória, quatro meses depois de terem ocorrido. A sucessão dos acontecimentos oferece dificuldades talvez insolúveis. Apresentamos a seguir a versão dos acontecimentos segundo Capistrano de Abreu:

22 de janeiro de 1565 - Estácio de Sá parte de São Vicente em uma nau, enquanto outras permanecem em reparos.

27 de janeiro - Partem de Bertioga cinco navios pequenos, dos quais três de remo, mais oito canoas, com mamelucos (mestiços) de São Vicente, índios do Espírito Santo, conversos de Piratininga. No dia seguinte reúnem-se ao capitão-mor em São Vicente. Com estes veio o padre José de Anchieta.

1º de fevereiro - Os navios pequenos e as canoas, todos em grupo, continuam a viagem, forçosamente lenta, pois as embarcações de remo determinavam a marcha. Havia ordem de não se separarem, e diariamente pousavam em ilhas. Chegaram assim à Ilha Grande, por volta de 4 ou 5 de fevereiro.

Ali começa um período confuso: parte dos índios e dos mamelucos não quer esperar, e se embrenha pelo mato a partir da Marambaia. Outro grupo ataca uma aldeia tamoio, em busca de comida. Estácio de Sá ficara para trás, para reparos em seu navio, e só alcança o restante da expedição por volta de 15 de fevereiro. Anchieta tem muita dificuldade de manter a disciplina na frota. A maior dificuldade era lidar com a impaciência dos índios.

15 de fevereiro a 27 de fevereiro - Aos poucos, e enfrentando fortes temporais, as embarcações vão-se reunindo nas ilhas fora da Baía de Guanabara. Em 27 de fevereiro os índios já estão impacientes e querem entrar pela barra à força. São convencidos com dificuldade a aguardar mais um dia pela chegada do navio do capitão-mor Estácio de Sá. Chegam três navios portugueses vindos do norte, trazendo mais armas e mantimentos.

Chegada ao Rio de Janeiro

O Rio de hoje e a rota adotada pelos portugueses para chegar à Baía de Guanabara. Vindos do sul, os navios de Estácio de Sá cruzaram juntos a barra e os tripulantes desembarcaram na estreita praia entre o Pão de Açúcar e o morro Cara de Cão. Essa região corresponde hoje à Fortaleza de São João, na Urca. Já os franceses e seus aliados tamoios estavam mais para o fundo da baía, na região marcada em amarelo (foz do rio Carioca, hoje Aterro do Flamengo, em frente às ruas Barão do Flamengo e Paissandu) e também na Ilha de Paranapuã ou do Gato, hoje do Governador (na parte de cima da figura).

28 de fevereiro - A nau capitânia de Estácio e mais um navio desgarrado se juntam ao grupo. Todos juntos na mesma maré entram no Rio de Janeiro, sob forte temporal. Desembarcam num istmo de terra plana, entre o Pão de Açúcar e o Morro Cara de Cão, num ponto bem distante da fortificação francesa. Ao que tudo indica, começa no mesmo dia o trabalho de levantamento de uma paliçada (cerca de proteção).

A expressão "todos juntos na mesma maré" indica que a frota esperou a subida da maré para cruzar a barra. Considerando o regime de marés no Rio de Janeiro nessa época do ano e o fato de faltarem dois dias para a lua nova, não é provável que a entrada na baía de Guanabara tenha ocorrido antes das onze horas da manhã. Cabe lembrar que chovia muito, o que diminuía a visibilidade, e os portugueses precisavam da máxima claridade possível para cruzar a barra de forma segura e sem risco de naufrágios.

Um parêntese: em junho de 2007 o excelente astrólogo Dimitri Camiloto publicou em Constelar o artigo Rio: uma dúvida que não quer calar, em que propõe para o Rio de Janeiro uma fundação por volta das seis da manhã. A hipótese é baseada em pesquisas do historiador Milton Teixeira, que podem ser resumidas em dois pontos: em março, o alvorecer ocorre justamente na entrada da Baía de Guanabara, permitindo luz suficiente para a travessia da barra logo nos primeiros raios de sol; e os portugueses teriam feito uso do fator surpresa, aproveitando o momento em que havia menos chance de serem descobertos. Ao meio-dia, com o sol a pino, não haveria condições para uma invasão discreta.

A argumentação de Milton Teixeira é bastante lógica e seria convincente não fosse a existência de três informações essenciais, só possíveis com a leitura da carta de Anchieta:

a) o Rio de Janeiro não viu um único raio de sol nem no dia 1º de março de 1565 nem nos dias que antecederam a fundação. Chovia torrencialmente o tempo todo;

b) a fundação da cidade parece ter ocorrido apenas no dia seguinte ao desembarque;

c) os tamoios já vinham vigiando (e combatendo) a frota de Estácio desde a Ilha Grande. Portanto, a chegada dos portugueses não era exatamente um segredo.

Acrescente-se que, considerados a data, a fase da lua e o regime de ventos e marés da Baía de Guanabara, cruzar a barra no início da manhã poderia resultar num encalhe. Os portugueses, tendo poucos barcos, eram espertos o suficiente para evitar a maré baixa do alvorecer.

O que parece mais provável é que os portugueses tenham desembarcado na quarta-feira, 28 de fevereiro, e fundado a cidade apenas no dia seguinte (quinta, 1º de março), depois de pronta a paliçada e baixado o regimento que deveria regular a disciplina no novo acampamento. As dúvidas sobre este ponto nunca poderão ser totalmente resolvidas: a data de 1º de março é fornecida por Frei Vicente do Salvador, citando Anchieta: “Logo no seguinte dia, que foi o último de fevereiro ou o 1º de março, começaram o roçar a terra com grande força e cortar madeira para a cerca”, etc. Em 1584, Anchieta foi, porém, mais explícito e escreveu “no princípio de março”, conforme consta em Informação do Brasil e de suas Capitanias (1584).

As dificuldades de determinar as datas provêm umas do mau estado de conservação do manuscrito, e outras das afirmações pouco precisas de Anchieta: em Ilha Grande estiveram “muitos dias” esperando pela capitânia; depois de partidas as canoas de Ilha Grande os navios ficaram esperando “pela capitânia cinco ou seis dias”, e assim por diante.

O que Anchieta registra com mais precisão é a data do primeiro ataque dos tamoios aos portugueses, com quatro canoas, que só acontece no dia 6 de março. Nos dois anos seguintes a situação se manteria indefinida e perigosa, até que em 20 de janeiro de 1567 - dia de São Sebastião - os portugueses e os índios de Araribóia conseguem finalmente arrasar com a fortificação de Uruçumirim, derrotando franceses e tamoios.

O horário da fundação

Ao contrário da fundação de São Paulo de Piratininga, que ocorre na forma de um ato religioso (missa), a do Rio é um acontecimento militar e administrativo. Na verdade, o que se convencionou chamar de fundação da cidade correspondeu apenas à construção de uma rústica paliçada de madeira. Lá dentro, soldados, índios e padres permaneciam desconfortavelmente acampados e em constante estado de prontidão, dado o risco de ataques. Considerando que Estácio de Sá cumpria determinações oficiais do Governador-Geral, o momento a ser considerado astrologicamente é aquele em que o capitão-mor e o padre Anchieta reuniram todos os comandados para anunciar formalmente a instalação da vila e baixar os primeiros decretos com vistas a garantir a segurança e a disciplina das tropas. Sabe-se que entre as primeiras ordens baixadas pelo capitão-mor estavam proibições referentes a bebidas, carteado e brigas. Reunir gente tão rústica e diversificada num entorno tão perigoso exigia, antes de tudo, pulso firme e rigoroso respeito à hierarquia.

Estácio de Sá

Obra contemporânea mostrando a fundação do Rio, com a instalação de um padrão de pedra por Estácio de Sá. Observar a presença de índios, padres e da imagem de São Sebastião, numa representação totalmente estilizada.

O ato de fundação ocorreu certamente de dia e teve de aguardar o término das primeiras obras de defesa. Esta é a única certeza que se tem. Não há qualquer prova documental nem qualquer evidência que aponte um horário preciso. A determinação do Ascendente do Rio decorre, antes de tudo, de um trabalho de retificação.

A selvageria imperou nos primeiros anos na nova cidade. Rios de sangue teriam de rolar até que franceses e tamoios deixassem de representar um risco. A instalação do Rio de Janeiro foi, antes de tudo, uma grande e complicada operação militar a serviço de uma política de Estado. É exatamente esse caráter que vemos representado no mapa calculado para o meio-dia, onde Sol-Plutão no Meio do Céu mostram a imposição do poder da Coroa Portuguesa pela força bruta e Urano no Descendente retrata os riscos dos primeiros tempos, sob o permanente cerco de piratas e canibais. Já Netuno no Ascendente reflete a chegada pelo mar, sob chuva e névoa, e a instalação provisória da nova cidade numa pequena nesga de terra junto à praia. Do texto de Anchieta, a única frase que descreve claramente a chegada dos portugueses é a já citada "entraram todos numa só maré", indicando um movimento coletivo totalmente netuniano.

Fundação do Rio de Janeiro

Fundação do Rio de Janeiro, em 01.03.1565, 12h LMT. 043w10, 22s54.

Vimos que, entre o "batismo" do Rio de Janeiro, em 1502, e a efetiva fundação da cidade, passaram-se 63 anos. Neste intervalo, temos os mapas da França Antártica e o da chegada dos colonos protestantes. O que há de comum em todos esses mapas?

  • Todos têm planetas no início de Peixes.
  • Com exceção da chegada dos protestantes, o Sol está sempre em aspecto dinâmico (conjunção, quadratura) com Netuno ou Plutão.
  • Vênus sempre está envolvida em configurações importantes e tensas com planetas geracionais, especialmente Urano. Em três mapas diferentes Vênus está em Aquário.
  • Marte sempre está mal aspectado
  • Mercúrio está em exílio em três dessas cartas.

No conjunto todos esses mapas contam uma história de guerra e de afirmação de poder. O Rio nasceu para servir de base ao controle territorial de uma vasta extensão do continente. É a única cidade das Américas a já ter sido capital de um império ultramarino. É uma história tão impressionante que os céus precisaram de vários mapas para contá-la.

Leia também:

A viagem de Estácio de Sá
Rio de Janeiro de malandros e rebeldes
Rio de Peixes com Ascendente em Gêmeos

Outros artigos de Fernando Fernandes.

Comente este artigo |Leia comentários de outros leitores



Atalhos de Constelar | Voltar à capa desta edição |

Fernando Fernandes - Rio de Janeiro | Todos em uma só maré | A viagem de Estácio de Sá |
| Malandros e rebeldes | A alma carioca, casa por casa |
Fernando Fernandes - A crise da Síria | A guerra civil em quatro mapas |
| Bashar al-Assad, o lado escuro de Harry Potter |

Edições anteriores:

Fernando Fernandes - Cultura afro-brasileira | Iemanjá, a mãe de todos os peixinhos |
| Do Cristianismo medieval ao Rio de Janeiro |
Fernando Fernandes - Egito | O terremoto social |
Redação - Entrevista com Carlos Hollanda | Ipanema, Urgente: a Astrologia passou no vestibular |



Cadastre seu e-mail e receba em primeira mão os avisos de atualização do site!
2013, Terra do Juremá Comunicação Ltda. Direitos autorais protegidos.
Reprodução proibida sem autorização dos autores.
Constelar Home Mapas do Brasil Tambores de América Escola Astroletiva