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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 165 :: Março/2012 :: -

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RETRATO ASTROLÓGICO DO RIO

Rio de Janeiro de malandros e rebeldes

Fernando Fernandes

O Rio de Janeiro, com Gêmeos no Ascendente e um complicado jogo de recepções mútuas entre Mercúrio, Netuno e Júpiter, tem nas figuras do malandro simpático e da mulher atrevida e rebelde alguns de seus ícones mais representativos.

Malandro candidato a malandro federal,
malandro com retrato na coluna social;
malandro com contrato, com gravata e capital,
que nunca se dá mal.
(Homenagem ao Malandro, Chico Buarque de Hollanda)

MalandroEra o dia 1º de janeiro de 1502. Um navio português navega ao longo da costa brasileira, em direção ao sul, e encontra o que parece ser o estuário de um enorme rio. Resolveu chamá-lo de Rio de Janeiro. Foi o primeiro engano netuniano de uma cidade que nasceria, sessenta e três anos depois, com Netuno colado no Ascendente e Sol em Peixes no Meio do Céu.

O Ascendente define a aparência, a primeira impressão que uma pessoa ou uma instituição provoca nos demais. Com Gêmeos no Ascendente, o Rio de Janeiro é uma cidade tagarela. Mas com Netuno também aí, a tagarelice não é o do discurso lógico e estruturado. A cara do Rio tem a ver com música e poesia. E também com gíria, muita gíria.

Gêmeos é um signo rápido e que sabe brincar muito bem com as palavras. Netuno é um planeta de névoas e enganos. E o planeta do logro no signo da palavra fácil não pode dar boa coisa - especialmente num lugar tão sensível quanto o Ascendente. O que temos aí é o retrato da figura mais carioca de todas que já surgiram, cantada em prosa e verso desde o período colonial: o malandro. O nome dele pode ser Noel Rosa, Moreira da Silva, Zeca Pagodinho ou Gabriel, o Pensador, tanto faz. Em essência, é sempre o mesmo personagem. No futebol, um dia se chamou Garrincha, mas sua encarnação mais recente atende pelo nome de Romário.

Fundação do Rio de Janeiro, 1565

Carta da Fundação do Rio de Janeiro - 01.03.1565, 12h LMT - 043w10, 22s54.

Contudo, não é só no Ascendente que podemos ver a ginga carioca. Linguagem e comunicação são assuntos de casa 3. E a casa 3 do Rio tem o desinibido signo de Leão na cúspide, além se ser ocupada por Júpiter em Virgem, retrógrado. Tanto Júpiter quanto Leão têm um certo gosto pelo exagero, elemento que estará presente em tudo o que se refere aos assuntos da casa 3 na vida da cidade: comunicação, linguagem, transportes, educação elementar, vizinhança.

Júpiter é o regente tradicional de Peixes, sendo, portanto, co-regente do Meio do Céu, ocupado por este signo. O Sol, por outro lado, está na 10, em conjunção com o Meio do Céu, e rege a 3, o que sinaliza para uma estreita correlação entre os significados dessas duas casas. O Rio sabe juntar comunicação e poder, linguagem e reputação.

Um rápido parágrafo para discutir a técnica: o outro regente da casa 10 do Rio de Janeiro é Netuno na 12, em Gêmeos (significador essencial de assuntos de comunicação e transporte), colado no Ascendente. Mercúrio, regente de Virgem no Fundo do Céu, está na 10, em Peixes, o que o coloca em disposição mútua (troca de domicílios) com Júpiter. E mais: Mercúrio também é regente do Ascendente e está retrógrado. Todo este jogo de determinações mútuas aumenta o imbroglio, colocando em contato, portanto, os conteúdos das casas 1, 3, 4, 10 e 12 (esta pela presença de Netuno e pela conotação pisciana da 12 no zodíaco natural).

MussumMussum que o diga: o carioca tende a estropiar a língua portuguesa, desrespeitando as regras de gramática e apelando exageradamente para a gíria. Tanto Júpiter quanto Mercúrio estão debilitados por exílio e retrogradação, o que é sinal de uso descuidado do código linguístico. Na verdade, o carioca desconsidera a sintaxe e utiliza um vocabulário impreciso, se bem que notável em expressividade. Mercúrio em Peixes é sintomático de um falar um tanto vago, nebuloso, mais rico em colorido do que em precisão. É linguagem mais poética do que técnica, cheia de referências afetivas. A prevalência da conotação sobre a denotação é visível na gíria, nos modismos, nos diminutivos, nos apelidos. Uma típica situação em que tais características se revelam é o ato de informar a um estranho onde fica determinada rua, especialmente quando comparado ao comportamento de nativos de outras cidades.

Pergunta-se a um morador de Buenos Aires onde fica o Teatro Colón e o portenho responde: “Caminhe três quadras para o norte, dobre à direita, caminhe mais quatro quadras e o teatro estará bem à sua esquerda.” Tudo muito lógico, muito matemático. Basta saber contar. Pergunta-se a mesma coisa a um morador de Quito e ele procurará em volta um graveto, riscará em silêncio um mapa na areia (ou no cimento da calçada) e dirá: “Vê? Você está aqui.” (aponta) “Deve seguir por essa rua” (mostra com o graveto) “e chegar até... (aponta de novo) aqui.” Já um paulistano apressado talvez diga apenas: “Não sei, pergunte a um guarda.”

Agora, perguntemos a um carioca da gema onde fica a Praça Tiradentes. Ele olhará perdidamente para o vazio, como se procurasse uma imagem, e dirá:

– Sabe aquele prédio enorme, de vidro azul, que tem um teto meio viradinho assim?

– Não.

– É um que fica perto daquela avenida onde tem uma igreja antiga, cheia de baianas na porta jogando búzios e um monte de camelôs... Lembrou?

– Mais ou menos.

– Pois é, você vai na direção desse prédio grandão, de vidro azul, todo novinho, mas vai pela outra calçada. E não precisa ir até o prédio não, quando chegar numa esquina onde tem um ponto de jogo de bicho e uma placa do Bradesco, você vira à esquerda. Aí, você anda até encontrar uma esquina onde existe uma loja grande, com escada rolante. A escada é bem na entrada, dá pra ver da rua. Aí...

E, dessa forma, o forasteiro recebe um roteiro onde nomes de ruas e contagens de quadras ficam em segundo plano para dar lugar a uma série de referências circunstanciais. Parece ao carioca que uma informação só será compreendida se vier exemplificada, traduzida em imagens, cores e cheiros. É Mercúrio em Peixes fazendo das suas, Netuno em Gêmeos confundindo enquanto explica e Júpiter em Virgem inflando os detalhes. Tudo isso acompanhado de um sorriso solícito e de uma bela performance: o Sol está no Meio do Céu e o Ascendente em Gêmeos, o que garante muitos gestos e pleno aproveitamento da oportunidade de ser a estrela do show. Nesta cidade extrovertida, a simples prestação de uma informação é sempre a chance de exibir talentos.

Cariocas

Irreverência carioca em versão tripla: Bussunda e os Cassetas, O Pasquim e Circo Voador.

A Lua em Peixes também tem a ver com isso. Aliás, com quatro planetas neste signo meio distraído, não se pode mesmo esperar que o padrão de comunicação vigente seja muito rigoroso. Parece que a dimensão virginiana é vivida principalmente pelo que tem de sombra, com ênfase na crítica mordaz e numa certa tendência a ser do contra. Júpiter em Virgem torna a cidade um tanto cruel com seus desafetos. É nela que surgem os apelidos maldosos que farão a desgraça de políticos e outras figuras notórias. É nela que nascem as piadinhas demolidoras. Com Júpiter e Saturno em exílio e em oposição, respectivamente, a Lua e Vênus, o Rio de Janeiro tem uma vísivel dificuldade para entender o que significa respeito à autoridade constituída.

À primeira vista, parece estranho, neste mapa, que Vênus esteja no impessoal signo de Aquário em oposição ao reservado Saturno em Leão. A configuração é significadora de dificuldades na expressão do afeto, exatamente o oposto do que o carioca parece ser. Para usar uma expressão popular, quem tem esse aspecto não é muito “dado”.

Leila DinizContudo, cabe lembrar que foi exatamente no Rio de Janeiro que a mulher brasileira começou a virar o jogo, depois de séculos de subserviência. Esse pioneirismo tem relação com o mapa da cidade, onde Vênus em Aquário sinaliza a independência a qualquer custo, mesmo que o preço seja a rejeição social; já Vênus oposta a Saturno em Leão fala da feminilidade que se afirma contra o poder repressor do masculino; Vênus em conjunção com Marte em Aquário é, finalmente, a mulher que provoca, que desafia, que se rebela e busca a relação igualitária. Este é o arquétipo da mulher carioca, cuja corporificação deu-se pouco a pouco, ao longo de décadas. E as Vênus aquarianas do Rio foram-se sucedendo na pele da maestrina e compositora Chiquinha Gonzaga, no final do século XIX; de artistas transgressoras como a atriz e vedete Dercy Gonçalves; da bela Leila Diniz [foto], musa de toda uma geração, que escandalizou os mais conservadores ao exibir sua gravidez de oito meses nas praias do Rio.

Essa viola amiga
que harmonizou guerra e liberdade
Essa bruxa solta pela cidade
Não vai partir, não vai morrer
Vai viver no amor de cada mulher

(Memória Livre de Leila, Taiguara)

Foi para Leila Diniz que Taiguara compôs esses versos, em 1973. Mas poderia ser para qualquer filha de Vênus em Aquário em aspecto tenso com Saturno. Abrir caminho para as mudanças sociais parece ser a sina da mulher carioca.

Mercúrio em Peixes e Vênus em Aquário. Malandragem e rebeldia em doses torrenciais, filtrados pela irresistível simpatia de Netuno no Ascendente.

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