Constelar Home
menu
Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 161 :: Novembro/2011 :: -

Busca temática:

Índices por autor:

| A - B | C - D | E - F |
| G - L
| M - Q | R - Z |

Explore por edição:

1998 - 2000 | 2001 - 2002
2003 - 2004 | 2005 - 2006
2007 - 2008 | 2009 - 2010
2011 - 2013 |

País & Mundo |
Cotidiano | Opine! |
Dicas & Eventos |

MITOLOGIA E FILOSOFIA

Shiva e a dança da mudança

Divani Terçarolli

A ideia de uma interminável mudança, que traz consigo a morte seguida pelo renascimento em outro patamar, sempre esteve presente em todas as culturas tradicionais. Entender este conceito é entender as raízes míticas de Plutão, um símbolo essencial na Astrologia contemporânea.

Nada é permanente, a não ser a própria impermanência das coisas. Tudo o que vive está sujeito à passagem do tempo, à degradação e à morte. Isso pode ser bom, pode ser uma virtude em vez de uma desvantagem, pois pressupõe a possibilidade da mudança.

Os monges tibetanos costumam exercitar o desapego construindo enormes mandalas de areia. Feitas de milhões de grãos de areia colorida, essas mandalas são consideradas ferramentas de modelação espiritual que, depois de prontas, são santificadas e destruídas com a mesma devoção e dedicação com que foram construídas. Depois toda a areia utilizada na construção é recolhida e lançada à água. Este procedimento simboliza a transcendência da vida e o despojamento em relação ao mundo material. A dissolução de uma mandala exemplifica o conceito da impermanência.

Mandala tibetana de areia

Mandala tibetana elaborada com areia colorida sobre uma mesa. Tão logo terminada, a mandala é destruída, num ritual de desapego. Mandala é um termo de origem hindu usado em outras religiões indianas, como o Budismo. Significa “círculo”. Refere-se genericamente a qualquer desenho ou padrão geométrico criado com o objetivo de representar o Universo.

No século XX a Física teve um grande desenvolvimento, especialmente no que se refere à questão da divisão do átomo. A física quântica revolucionou a arena das idéias, não só no âmbito das Ciências Exatas, mas também no das discussões filosóficas. A Física Quântica envolve conceitos como os de partícula – objeto com uma mínima dimensão de massa, que compõe corpos maiores – e onda – a radiação eletromagnética, invisível para nós. No início do século XX, experimentos demonstraram que ondas e partículas têm comportamentos semelhantes e são, portanto, complementares. Não se pode dizer que uma partícula está em movimento: ela é o próprio movimento.  

Outros conceitos, como a não-localidade e a causalidade, levaram esta disciplina a uma ligação muito profunda com conceitos filosóficos, psicológicos e espirituais, e atualmente há uma forte tendência em unir os conceitos quânticos às teorias sobre a Consciência.

Se dermos um pulinho até o passado vamos confirmar que essa teoria retoma a sabedoria dos antigos, pois revive o paradigma organicista para o qual o mundo era um ser vivo. Nessa visão de mundo, tudo é cíclico, tudo é fluxo e refluxo, nada está parado, mas tudo é movimento. 

Esse conceito pode ser visto na figura do Uroboros, um símbolo muito antigo, comum a egípcios, druidas e indianos, que simboliza o ciclo da evolução. Este eterno "devir" ou vir a ser é uma referência à criação do universo. O símbolo contém as ideias de movimento, continuidade, auto-fecundação e, consequentemente, eterno retorno. Mais do que isso, a dança sagrada de nascimento, morte e reconstrução.

Segundo o hinduísmo, todas as coisas são parte de um grande processo rítmico de criação e destruição, de morte e renascimento, e a dança sagrada de Shiva, um dos mais antigos e populares deuses indianos, simboliza esse eterno ritmo de vida-morte que se desdobra em ciclos intermináveis. Uma de suas representações mais populares é, exatamente, Shiva Nataraja, o Rei dos Dançarinos. "Dançando, Ele sustenta seus fenômenos multiformes. Na plenitude do tempo, dançando ainda, Ele destrói todas as formas e nomes pelo fogo, e lhes concede novo repouso."

O significado de Shiva é analisado em diversos sites especializados em Hinduísmo, dos quais resumimos os seguintes trechos:

Representação de Shiva Nataraja

Shiva Nataraja, o deus dançarino do eterno movimento.

Na imagem de Shiva temos o primeiro braço, com a palma à frente, que quer dizer: “Não vos atemorizeis com a mensagem terrível que vos trago, pois também apresento a solução”.

O segundo braço segura um pequeno tambor que marca o ritmo da dança, e significa que “Tudo no universo segue um ritmo e está sujeito a uma ordem temporal”. O tambor representa também o som através do qual o universo foi criado.

Com o terceiro braço, o que segura as línguas de fogo, Shiva diz: “Aproxima-se o tempo de destruir o que se construiu, para se completar o ciclo da criação. Assim como no passado o mundo antigo acabou-se pelas águas de um dilúvio, agora ele será destruído pelo fogo”. Os fachos de fogo ao redor da figura carregam a seguinte mensagem: “A redondeza da Terra será queimada pelo fogo”.

Um pé esmaga uma figura animalesca, que representa a natureza inferior e animal do homem.

O quarto braço apresenta a salvação, ao apontar para o pé levantado, querendo dizer: “O homem não deve atender às solicitações das suas más inclinações, de suas más paixões, dos instintos bestiais, oriundos da sua natureza animal, inferior, e sim seguir sua natureza superior, espiritual: deve abster-se do ódio, dos vícios, dos excessos, obter o autocontrole”.

Seu pé esquerdo erguido mostra-nos que podemos elevar-nos e atingir salvação. Pensar em salvação é pensar na auto-elevação - do caráter, espírito, condutas, etc.

Quando dança, Shiva representa a verdade cósmica e é sempre associado com a morte e o renascimento. Como terceira pessoa da trindade hindu, ele destrói o universo ao final de cada era, para que este possa ser criado de novo. Ele vem com fogo consumidor do amor divino que destrói o ódio, a maldade, os demônios e o ego humano, varrendo a terra do mal. Isso não significa, necessariamente, uma destruição física do mundo pelo fogo, mas sim, a destruição do mal pelo fogo sagrado.

A mensagem não poderia ser mais clara: tudo aquilo que é criado, um dia morrerá, para poder renascer e seguir o fluxo evolutivo.

No entanto, nada no universo morre realmente, só há mudança de plano e padrão vibracional. A energia não nasce e nem morre, só é transformada.

Por Seu amor, a vida é renovada, e os seres humanos têm novas oportunidades de crescimento. Shiva é o destruidor dos egos. Ele destrói com sua dança tudo que represente a ignorância e a ilusão e liberta o que é real. 

Heráclito de ÉfesoNa antiguidade também vamos encontrar essas idéias em Heráclito, filósofo que viveu no século VI, para quem o "devir", a mudança que acontece em todas as coisas, é sempre uma alternância entre contrários; nessa harmonia, os opostos coincidem da mesma forma que o princípio e o fim - em um círculo. A realidade se manifesta na mudança.

Heráclito [figura à esquerda] viveu na Jônia, atual Turquia, na mesma época que na China florescia o Taoísmo.

Talvez seja apenas coincidência o fato de seus conceitos se parecerem tanto com os do Tao Te King. No capítulo XVI lemos:

Todas as coisas têm uma mesma origem.
Contemplamos sua evolução e seu retorno.
Depois que as coisas florescem retornam à sua Origem.
Retornar ao Princípio é repousar.
Repousar é encontrar o Novo Destino.
Voltar ao destino é conhecer o Permanente.
Conhecer o Permanente é a iluminação.

No judaísmo também vemos o conceito de impermanência e da destruição da forma material, como no Gênesis 3, 19 - "Do pó vieste, e ao pó retornarás."   

No Cristianismo existe o conceito de retorno à Unidade, ao UNO, de que a vida material, é transitória. Santo Agostinho disse:”Viemos da Divindade e para ela haveremos de voltar”.                                 

No Islamismo existe o conceito dos opostos complementares se unificando e de que na escuridão brilha uma luz. Como podemos concluir da leitura da frase da Sura III do Alcorão: “Ó Tu, Senhor, que fazes entrar o dia na noite e a noite no dia! Ó Tu, Senhor, que fazes entrar a vida na morte e a morte na vida!"

O Budismo ensina que o sofrimento deriva de nossa tentativa de reter as coisas materiais e que devemos nos adaptar às mudanças à medida que elas vão ocorrendo,  para não sofrermos. O desapego é a chave. Sidharta Gautama, o Buda, afirmou que todas as coisas materiais são impermanentes e que o mundo material é SAMSARA, sendo que SAMSARA é o movimento incessante.

Toda esta apresentação ajuda a compreender por que Plutão é muito mais do que um sinistro rei do submundo, como costuma ser apressadamente caracterizado.

Da consciência de Mercúrio à luz de Plutão

Comente este artigo |Leia comentários de outros leitores



Atalhos de Constelar | Voltar à capa desta edição |

Divani Terçarolli - Mitologia e Filosofia | Shiva e a dança da mudança |
Divani Terçarolli - Mitologia e Astrologia | Da consciência de Mercúrio à luz de Plutão |

Edições anteriores

Fernando Fernandes - Perfis astrológicos | Steve Jobs, a Grande Quadratura por trás da Apple |
Fernando Fernandes - Astrologia e História do Brasil | O Cristo Redentor e sua marca uraniana |
Blogs de Constelar - Eventos | Sinarj e Apocalipse |



Cadastre seu e-mail e receba em primeira mão os avisos de atualização do site!
2013, Terra do Juremá Comunicação Ltda. Direitos autorais protegidos.
Reprodução proibida sem autorização dos autores.
Constelar Home Mapas do Brasil Tambores de América Escola Astroletiva