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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 129 :: 2009 :: -

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SATURNO EM OPOSIÇÃO A URANO

Liberdade ainda que tardia

Beatriz Romanzini

A oposição Saturno-Urano mostra que o inimigo não é a tecnologia. O inimigo é o próprio homem, que continua a explorar outro homem, hoje, através da tecnologia.

Saturno, a partir do momento em que se estabeleceu a sociedade civil (por volta do século XVI), está incumbido, entre outras funções, de prescrever as leis necessárias para que cada indivíduo tenha garantias contra todos os outros, na medida em que a lei trata daquilo que é proibido a mim e a todos aqueles que me cercam. Sem regras e proibições, não há como conviver em sociedade. Civilização e repressão são as duas faces de Jano. Se nossa realidade fosse outra, não precisaríamos dessa dimensão de Saturno.

Thomas Hobbes, autor de O LeviatãNo mesmo século, na onda da crescente filosofia utilitarista preconizada por Thomas Hobbes [à esquerda], num casamento assaz libriano com a doutrina materialista que deu lastro ao desenvolvimento do capitalismo, a raça humana deu livre curso a uma civilização egoísta, onde a supremacia dos valores individuais se decanta hoje em uma sociedade cujo campo de atuação se restringe ao interesses particulares do indivíduo. O “ama ao próximo como a ti mesmo” passou a ser “utiliza o próximo para ti mesmo”.

As colocações podem parecer demasiado cruas e racionais para um público atento aos movimentos invisíveis que coordenam o cosmos. Mas me dirijo àqueles que percebem a realidade fenomênica como a única e irrefutável a existir, e cujo cenário se desmorona ante uma realidade econômica, política, social e religiosa esfacelada, principalmente no tocante aos direitos sociais e distribuição igualitária de riquezas que se originam no solo em que todos nós nos apoiamos. Também alguns irão discordar, considerando que Saturno está a inspirar muito mais do que as leis, e sua sabedoria transcende o plano humano. Por experiência, nunca vi qualquer transcendência em Saturno, apenas o depurar da realidade e um estoicismo ausente em qualquer lugar do mapa, exceto onde ele finca suas raízes. O solo de Saturno é esse mesmo onde nossos pés se apóiam, onde estão as riquezas inacessíveis à maioria.

Saturno, como regente de Capricórnio, não se propõe a estudar os meios; porém, exaltado em Libra, é justo no julgamento dos fins. Foi-nos dado, através do desenvolvimento das ciências, conhecimento vasto e instrumentos para exploração de todos os recursos compatíveis com a superioridade de nossa raça frente aos demais seres. Se os meios escolhidos pelos poucos homens que aqui na Terra reproduzem o Olimpo foram as leis da acumulação irrestrita, infindável e irreversível de riquezas, na razão direta do aumento da pobreza da maioria, Saturno nos fala pelos versos de Chico Buarque: A lei fecha o livro, te pregam na cruz, depois chamam os urubus.

Pregada na cruz está hoje a imensa maioria da população, ante uma crise que se originou na conjunção de Saturno com Urano em 1989 no signo de Capricórnio, fazendo ruir o equilíbrio de poder entre o mundo capitalista e comunista. Fomentou-se, numa lógica fria, o livre curso à exploração do capital, para colocar suas garras de urubus, garras metálicas, tecnológicas, garras online, que possibilitam ao dinheiro migrar na velocidade da luz, fechando fábricas e deixando à má sorte populações inteiras que antes subsistiam em economias solidárias. Uma exploração especulativa que transformou o capital móvel numa imensa Las Vegas virtual.

Cassino em Las Vegas

Las Vegas (acima) é freqüentemente utilizada como metáfora para o capitalismo
financeiro de base especulativa.

Saturno em Virgem está a apontar, com o dedo em riste, que os ganhos que se originam através do esforço de pessoas que trabalham em um contexto social não podem ser surrupiados de maneira privada. Noutras palavras, o que muitos fazem não pode acabar na mão de poucos. Está a apontar que estamos voltando ao mesmo padrão de exploração da massa humana e ausência de direitos sociais existente na Europa no século XVIII. Recentemente, na França, Sarkozy estabeleceu a livre negociação da jornada de trabalho, podendo chegar ao absurdo número de 13 horas diárias! Hoje não se discute a elevação de países do terceiro e segundo mundos para o modelo dos países do primeiro mundo, e sim a descida desses ao nível dos outros. Saturno em Virgem aponta, dramaticamente, para o corte em escala mundial dos postos de trabalho que ainda restam. Avesso à submissão e mendicâncias, prefere seus filhos mortos, a rastejantes. Uma depressão mundial, bem ao estilo sombrio desse planeta sorumbático, constela uma visão complexa do futuro, para enfim cessarmos de olhar apenas o tempo presente, já que a dimensão desse planeta opera nos limites do tempo e do espaço. Porém, com Saturno há sempre uma finalidade em curso. Qual finalidade? A liberdade.

Urano preconiza todos os nossos direitos. Direito é tudo aquilo que podemos fazer, contanto que não infrinja nenhuma lei. Quando os ensinamentos tradicionais de Astrologia se referem à necessidade de construir Saturno para depois acessar Urano, estão a comunicar essa verdade: que há leis, e que estas podem ser mudadas de acordo com as exigências de cada época, e que serão mudadas mais tempo menos tempo, mas que, sem a observância dessas leis, somos erráticos, não pertencemos à sociedade, vivemos em constante conflito. Por fim, em uma parcela pequena da humanidade, estabelece-se um equilíbrio dinâmico, no qual a liberdade de Urano é interior, subjetiva, inalienável. Noutras palavras, podemos ser livres, sem vender a alma ao diabo, apenas penhorá-la algumas vezes ante o tribunal do capeta quando a experiência é pouca e os medos são muitos.

Posto que a evolução nos moldes clássicos comprovadamente é incerta, ao acaso e não segue mais as velhas teorias evolucionistas, é absurdo pensar que com Urano evoluímos para uma sociedade melhor ou mais livre. A ilusão do indivíduo “livre” é uma parte da estratégia para jogá-lo no círculo vicioso das preocupações materiais, sendo “livre” para adquirir seus mimos e dentro de uma igualdade jurídica que, na prática, é uma ficção. Ou evoluímos para uma liberdade interior, ou não temos liberdade alguma. O que seria conquistar uma liberdade interior? Com Urano, parte-se da negação do aspecto mais fomentador da ordem existente. Desculpem as personalidades mais inflamadas, mas não se trata mais de revoluções. Se o homem médio já está de joelhos para preservar o seu emprego, quem dirá subverter a ordem.

Urano no signo de Peixes, desde 2003, tem popularizado ou tornado acessível várias dimensões desse signo, assuntos já muitos debatidos e nos quais não vou me deter. Urano em Peixes possibilita o acesso, em escala maior, da tecnologia que suprime do homem a necessidade de trabalho, sendo este implementado por máquina. Sim, já seria o tempo em que o homem médio não deveria torrar todas as suas forças para conquistar o pão. Os planetas colocam em curso aquilo que deveríamos estar aptos a tornar funcional, mas na civilização, devido a tantas preocupações mundanas, há uma enorme defasagem entre a proposta e a prática. O inimigo não é a tecnologia. O inimigo é o próprio homem, que continua a explorar outro homem, hoje, através da tecnologia. Estamos a presenciar o terror da civilização tecnológica, assim como os revolucionários franceses presenciaram o terror das execuções e do sangue do Iluminismo, que estendia o estandarte de salvação do mundo, ancorado nos ideais românticos de igualdade e liberdade para todos os povos.

A igualdade de hoje é a possibilidade de que todos tenham direito a consumir, direito fomentado pela globalização e pelo mundo virtual, que torna acessível a livre fluência dos objetos de desejos da frágil alma humana, tão numerosos e inconstantes quanto o movimento das águas. Assim, nesse mundo deveras mundano, a igualdade se restringe ao consumo, e a fraternidade, ao mundo virtual e globalizado.

Templo de consumoO aspecto mais grotesco de nossa realidade fenomênica – que fornece combustível para essa degradação moral, econômica, social, política, religiosa e ambiental – é o consumo. Por dinheiro para esse consumo as pessoas criam seus próprios infernos. Se a massa humana sólida e obstinada cessar o consumo das necessidades artificiais (se são artificiais, nem em necessidades podem se constituir), agarra com os braços unidos a liberdade de Urano em Peixes e impõe uma nova ordem a Saturno em Virgem. Mas não. Infelizmente, nossa inconsciência e nossa inconsistência descartam de antemão a possibilidade de uma união real contra esse sólido bloco de matéria que fascina nossos olhos como os dramas televisionados ao vivo e em tempo real.

Essa maioria de pessoas que se debilita, que tem seus empregos desaparecendo da realidade como o crédito no mercado, e por fim, destituída do salário e de tudo aquilo que se prostra e rasteja para poder acessar os bens terrenos, finalmente estará apta a adquirir a liberdade de não consumir mais nada, exceto o essencial. Liberdade com cara de Saturno, imposta e indiscutível, mas que se revela, passada a decepção, na sensação inequívoca de não depender mais daquelas circunstâncias que um dia motivaram tantas lutas. Posteriormente, da mesma forma que quando falta luz e as TVs e computadores são arbitrariamente suprimidos de nossa rotina, nos dispomos a conversar com os outros de maneira real ou simplesmente pensar, perceberemos que podemos sim, viver sem esse conjunto infinito de traquitanas, enfiadas todos os dias mente e goela abaixo, como se disso dependesse nossa própria existência. E que a liberdade mais essencial é aquela que nos aproxima de outros iguais sem qualquer interesse. Só assim poderemos criar outra realidade histórica para contrapor a essa realidade historicamente criada.

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