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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 125 :: Novembro/2008 :: -

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SIMBOLISMO ASTROLÓGICO NO CINEMA

I can't get no satisfaction

Vanessa Tuleski

“Uma Vida em Sete Dias” (Life or Something Like It), com Angelina Jolie e Edward Burns, está longe de ser um clássico. É mais um dos filmes que você tira do DVD player e não pensa mais a respeito. A menos que você consiga enxergar simbolismos astrológicos onde menos espera.

Lanie

I can't get no satisfaction
I can't get no satisfaction
'cause I try and I try and I try and I try
I can't get no, I can't get no

(M. Jagger/K. Richards)

Lanie com videnteLanie Kerrigan tem a vida que qualquer um desejaria ter. É famosa em sua cidade como repórter, gosta do seu trabalho, tem um padrão de vida invejável, um namorado bonitão e ela mesma é jovem e linda. Sim, é verdade que parece um tanto insegura, mas quem é perfeito? Um belo dia, Hades [1] resolve aparecer na vida dela na forma de um mendigo vidente (foto), que vaticina que ela morrerá no prazo de uma semana. Seria algo que poderia ser desconsiderado, não fosse a capacidade dele de acertar todas as previsões, incluindo os horários em que vão ocorrer. Epa, aqui já temos um bom material para a astrologia: videntes, previsões e morte!

PARTE I:
Quem somos nós, humanos?

Do ponto de vista astrológico, podemos considerar a vida de Lanie como sendo bastante taurina: é uma mulher linda, tem conforto material, um suposto preenchimento afetivo e uma sedutora possibilidade de catapultar seu status profissional com um convite para trabalhar em uma emissora de prestígio em Nova Iorque. Ocorre que tudo o que é taurino está sujeito à ação de Escorpião, seu par no eixo zodiacal. Escorpião não gosta de perfeição, ou melhor, da falsa perfeição, e este parece ser o caso da vida de Lanie. Nos bastidores desta vida glamurosa, ela tem vários problemas: um relacionamento difícil e incompleto com a família, um noivo com quem não se comunica de fato, a imposição de nunca relaxar. Nunca estar sem maquiagem, escova e salto alto... diante da vida!

O filme toca em um fenômeno social e cultural da era da tecnologia. Temos uma abundância de recursos – Touro – para todos os males – Escorpião. Prozac para os deprimidos, novos corpos para os insatisfeitos, entretenimento que não acaba mais para os entediados. Vivemos em um ‘tempo de Lanie’, mesmo que isto não seja extensivo democraticamente a todos. Aos que não puderem pagar por comida saudável, há uma profusão de enlatados, embutidos e biscoitos baratos. Entretanto, ter recursos não implica saber como utilizá-los...

Além disso, o grande mercado atual necessita de slogans e vendedores, não importando muito se o que está sendo vendido é falso ou insuficiente. Até a educação seguiu este caminho. Está menos voltada para formar seres pensantes, com uma sólida base cultural e filosófica, do que para jogar pessoas no mercado de trabalho, com pensamentos e condutas padronizados. Assim, estamos mais para cardumes de peixes ávidos atrás dos bens idealizados do que para indivíduos capazes de interpretar o mundo ao nosso redor, e com isto formá-lo ou transformá-lo, mesmo que milimetricamente.

Life or Something Like ItA busca pelo conforto e aparência ideal a qualquer custo é uma distorção do signo de Touro. Como Touro, no eixo zodiacal, estabelece uma relação de oposição e complementaridade com Escorpião, por baixo do afã de ter e parecer, a angústia existencial (algo associado à Escorpião) segue pressionando. Esta angústia é inerente à condição humana, tendo origem na quota de livre arbítrio com a qual cada um de nós nasce. Esta angústia é criativa. É avessa a padronizações e soluções fáceis, pois representa o potencial que cada um de nós tem para fazer qualquer coisa de nossas vidas. E é ela que está por trás do fato de que, por mais condicionantes e limitantes que o homem encontre em seu ambiente, ainda assim o que uma pessoa irá se tornar e fazer é uma incógnita.

Todos os animais nascem prontos, com seus instintos, sua psicologia, seu modo de ser. Já o ser humano é como uma folha de papel: aprenderá a língua e os costumes de onde tiver nascido. Por nascer pronto, o animal é pleno. Seus possíveis conflitos estão ligados às necessidades de sobrevivência e afeto (este último, em especial, no caso dos animais domésticos), e estão muito longe do grau de complexidade que os conflitos humanos podem ter. Além disso, o animal se diferencia do ser humano por ser sempre espontâneo, seja na raiva, no medo ou na fidelidade. O animal também vive no agora. O seu cão choraminga quando o vê sair pela porta, não importa que você faça isto todos os dias e retorne à noite. Só o instante presente existe para ele. Não há depois ou amanhã. O tempo é, portanto, outra invenção humana.

Touro responde por nossa natureza física. Nossa necessidade de sono, alimento. Tem a ver com nossa faceta social, igualmente, pois o ser humano tem maior chance de sobrevivência em grupo do que só. Escorpião, por sua vez, rege todos os instintos, tanto o de sobrevivência quanto o de reprodução. Touro tanto pode ser nossa faceta apaziguada e refinada quanto cega, rude e voraz (um Minotauro). Escorpião também pode ser nosso lado cruel e assassino, tanto quanto pode representar a parte de nós que tem consciência de nossa porção espiritual. Simboliza a parte vazia – porque não preenchida (isto é, não taurina) – que busca os mistérios.

É este ‘espaço vazio’ que responde por nossa criatividade e versatilidade. Que nos fez, no passado distante, confeccionar ferramentas (uma ação taurina), e que hoje nos compele a produzir todos os confortos aos quais todos nós estamos tão acostumados – e, porque não dizer, apegados. Escorpião simboliza o germe espiritual que faz com que qualquer agrupamento humano tenha concepções filosóficas a respeito do mundo. Cultura é algo complexo, que surge tanto de condições físicas (taurinas por excelência), tais como clima e meio e ambiente, quanto dos mitos e visão que cada agrupamento humano cria (impelidos pela consciência de nossa porção espiritual, nascida em Escorpião).

A dualidade, que cinde o homem em físico e espiritual, acaba por dividi-lo de inúmeras formas. Gera infinitas possibilidades, mas traz, igualmente, o risco da cisão destrutiva, quando o homem ataca a si mesmo e a tudo ao seu redor. A dualidade humana leva o ser humano a sempre construir, fazer (uma ação de Touro), talvez porque também não o deixe em paz (uma conseqüência de Escorpião).

Raramente, porém, ele é consciente do que esta dualidade cria em seu interior. Toda construção cultural é como uma argamassa a tentar preencher a rachadura desta divisão. Nesse sentido, religião, consumo, costumes sociais e entretenimento se equiparam. De alguma forma, o vazio que habita o ser humano o faz criar por si e, também, inconscientemente, para se preencher. A dualidade nos transforma em co-criadores, pois onde há unidade não há necessidade de criar. O uno está sempre em paz.

Dualidade é algo que tem a ver com o signo de Gêmeos. Gêmeos surge após Áries [2], o impulso criativo, e após Touro, as necessidades físicas. Impulso criativo e necessidades físicas resultam em dualidade, isto é, Gêmeos. Áries também representa a individualidade, a diferenciação. O ser humano se percebe como diferente de qualquer coisa que exista na natureza. Isto é Áries. Podemos inferir que como Áries precede Gêmeos, o grau de diferenciação, ou melhor dizendo, a consciência desta diferenciação, é proporcional ao grau de dualidade, traduzida em como nos multiplicamos (pelo seu uso positivo, criador) ou nos esfacelamos (pelo seu uso negativo, destruidor).

PARTE II:
Em que ponto estamos de nossa história?

Vivemos um momento único na história da humanidade. Ao longo dos séculos, as diversas guerras e conquistas de um povo por outro, assim como o incremento da tecnologia, foram causando uma progressiva uniformização cultural. Esta uniformização hoje se traduz como a valorização extrema da tecnologia e do consumo. Este é o ponto em comum, atualmente, entre todos os povos. Um japonês pode ser diferente de um brasileiro em uma série de quesitos, mas ambos querem se conectar a Internet, ter o último modelo de celular e adquirir bens. Os anseios são os mesmos. O Oriente está querendo consumir tanto quanto o Ocidente.

Mas algo paradoxal ocorre: quanto mais uniformizada a sociedade, maior tem sido o apelo pela diferenciação. A propaganda de cigarro é dirigida a milhões de pessoas, mas diz que você é especial por escolher aquela marca de cigarro. Você (e não milhões de pessoas que também fumam aquele cigarro) tem estilo e personalidade. Você é, portanto, alçado a um grupo seleto que nada tem de seleto. Este é o maior truque de marketing: fingir que individualiza, quando, no fundo, pretende massificar, pois precisa agregar mais e mais consumidores. Nunca fomos, ao mesmo tempo, tão uniformizados (pelo progressivo apagamento das diferenças culturais) e pseudo-individualizados (pelos apelos da propaganda).

Lanie faz sucesso

Somos bombardeados pela propaganda sem perceber. Ela nos inculca valores, necessidades, sedes, manipulando nosso imaginário. Criamos esta ‘máquina’, talvez como mais um sedativo para a consciência da cisão que até agora não conseguimos enfrentar ou para a qual não conseguimos encontrar soluções satisfatórias. Esta máquina faz de cada um de nós um ‘marqueteiro’. Hoje é quesito de sobrevivência proclamar alguma coisa a respeito de si próprio, destacar-se na massa, que, ironicamente, só faz aumentar, com uma população que a Terra nunca teve antes.

Vivemos no tempo do ‘eu’. O ‘eu’ tem de fazer muitas coisas, ser belo e bem sucedido, eternamente jovem e potente (um congelamento do arquétipo de Áries). O mundo era mais ingênuo quando se tinha de usar perucas brancas e seguir os costumes. Se você não fosse nobre, nem perucas precisava usar. Os especiais eram os que tinham nascido no grupo social destinado a isto. Regras simples.

Hoje, quem tiver acesso ao dinheiro já pode ser especial, pois pode comprar o que vai permitir que seja especial. Há mais democracia no ‘ser especial’, pois não é preciso ter berço. Nunca a diferenciação foi tão procurada por tantos ao mesmo tempo quanto agora. Ocorre que quanto mais diferenciação (Áries), maior é o apetite por coisas (Touro) e maior é o aumento da dualidade (Gêmeos), traduzida, no seu exagero, por uma dose muito maior de dúvidas e angústia. O ser humano médio é mais angustiado hoje do que o do passado. Talvez ele fosse mais infeliz no passado, se tivesse nascido em uma classe social escrava ou quase isto, mas não era angustiado. O poder de sua vida não estava em suas mãos. Hoje está, mas ele não sabe o que fazer com isto.

A sociedade muito individualista incrementou exageradamente o consumo e a busca pelas aparências (distorção de Touro). Só que isto foi encobrindo a natureza espiritual e profunda que mesmo o mais superficial dos homens tem. Todo ser humano tem um pouco Escorpião dentro de si, pois toda pessoa, mesmo a mais simples, é complexa.

A sociedade de consumo e aparência ocupa o lugar que a religião e os bons costumes já tiveram em outra época no sentido de dar uma ordem, um caminho a seguir. Mas Escorpião representa a parte de nós que não quer seguir caminho algum, ou melhor, que precisa seguir um caminho interno, o qual não é ditado por fórmulas coletivas. A exacerbação de Touro (ter, consumir, parecer) é uma tentativa de fugir de buscar as respostas profundas (tarefa que a raça humana tem considerado muito difícil), e, para evitar isto, tenta sedar, uniformizar as pessoas, vender sonhos prontos de felicidade, e, em seus extremos, empanturrar, drogar, embrutecer e emburrecer.

Quando o filme “Matrix” foi lançado fez retumbante sucesso e chocou justamente por, de alguma forma, mostrar isto: o quanto achamos que temos livre arbítrio (o personagem Neo, no início do filme) e o quanto estamos, no fundo, presos e escravizados aos mandamentos sociais, também uma expressão exagerada do signo de Touro. Touro representa o bom senso e o que possa agregar – sendo tudo isto necessário ao convívio social – mas também pode simbolizar as mãos de ferro que nos tornam todos iguais, em nosso desejo de consumir e na compulsão de julgarmos uns aos outros. Tudo em prol da competitividade (distorção de Áries, signo anterior a Touro).

A grande questão é: onde isto irá parar? Principalmente se produzimos mais do que precisamos e se não nos importamos com o que estamos fazendo ao sistema ecológico da Terra. Além disso, a ‘indústria da felicidade’, com suas soluções pasteurizadas e de cunho material, parece existir para amenizar a angústia, mas, ironicamente, acaba por aprofundá-la, na medida em que nega a faceta mais profunda que nós temos, reduzindo-nos a meras cascas de aparência, destinadas a ‘funcionar’, a fazer sucesso ou não. Há pouco espaço para o fluir, usufruir de fato e ser autêntico. Quanto mais este lado menos competitivo da natureza humana (que deseja se integrar com a natureza) é abafado, mais desordem social é criada, pois a gula (Touro negativo) nos torna violentos e cruéis (Escorpião negativo). O ser humano hoje se revolta quando não tem algo, quando não é algo. Mas ele quer exatamente o quê? Ser o quê? Chegar aonde? Qual é realmente seu fim?

O que VOCÊ está fazendo da sua vida?



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